Existia um debate polêmica em história da ciência sobre a forma de se estudar o passado. Os primeiros historiadores, comprometidos com o projeto positivista, não demoraram a fazer da ciência uma narração de conquistas e vitórias quase heroicas.
A história da ciência era narrada como uma sucessão de fatos que se seguiam gradativamente até chegar a um ponto de excelência e modernidade. E para cada passo, alguns homens eram definidos como os grandes bastiões do desenvolvimento científico. O problema com esse tipo de narração é que, com frequência, ela esta errada.
Sabemos que a ciência se desenvolve em caminhos tortuosos, as vezes damos passos para trás, as vezes abandonamos teorias que estavam bem estabelecidas a bastante tempo e por aí vai. A ciência moderna não é a uma coleção de sucessivos acertos, ou mesmo um empreendimento de grandes glórias.
Mas há algo nessa narrativa que a faz persistir, não mais na história da ciência, aonde essa discussão já foi superada a uns 80 anos, mas na divulgação científica. A questão é que “desenhar” um caminho indubitavelmente progressivo e de grandes realizações é extremamente sedutor. E isso aplicado à divulgação científica resulta na conquista praticamente sem esforço da atenção do leitor.
O problema é ganhar a atenção do leitor em troco de uma divulgação equivocada. Grande parte dos problemas do entendimento público da ciência estão, de certa forma, relacionados com a maneira como a ciência é “vendida”. A noção de progresso e modernidade as vezes são rapidamente incorporadas pelos textos científicos, e não me refiro aqui apenas aos textos de divulgação, mas também os textos escolares, e acabam por dar sequência à mazela positivista.
Não faltam exemplos neste sentido. A maçã de Newton, o experimento de Galileu na Torre de Pisa, os tentilhões que provocaram o grande insight de Darwin, só pra citar as mais comuns. Sabemos que todas elas possuem o seu bocado de verdade, mas sobram exageros.
É verdade que Darwin teve ajuda da observação dos mais variados tipos de tentilhões nas Galapagos. Mas também contou com seu histórico familiar no que diz respeito à evolução, e sofreu influência das obras de Charles Lyell e Thomas Malthus. Da mesma forma que Galileu provavelmente fez experimentos com a queda dos corpos, mas não há nada que nos leve a crer que tais experimentos foram feitos na Torre de Pisa. E Newton, até aonde se sabe, apenas se perguntou se a força que faz as maçãs caírem, também afeta os planetas.
Argumenta-se que é preciso conquistar o leitor de ciência, se possível, inspirar o leitor de ciência. Não discordo do argumento. Mas é preciso tomar cuidado. As vezes, na tentativa de agradar, transformamos a ciência em uma aventura empolgante, quando na maior parte do tempo não há nada de exatamente fantástico no trabalho científico. Sem tomar o devido cuidado, “vendemos Deus e entregamos o Diabo”.
É claro que a beleza esta nos olhos de quem vê. Há algo de belo e poético na simples ideia de se investigar o mundo que nos cerca. E sendo este o objetivo da ciência, não é preciso criar pirotecnias ou contos de fadas a respeito da atividade. A ciência é ontologicamente bonita.
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Lembrei de um cartoon…
http://scabini.blogspot.com/2008/11/quadrinhos-de...
Caro Thiago:
Se ler algumas entradas no meu Blogue vai verificar rapidamente que eu optei por dar uma imagem do progresso cientifico como sendo quase linear. Vai ler o ocasional reparo em contrario por exemplo "em certezas? Não tenho a certeza" onde escrevo que a evolução da ciencia é lenta e turtuosa (sobretudo em relação ao tempo de vida humano).
Em comparação a outras formas de conhecimento ou cultura, exceptuando a filosofia, a ciencia tem um percurso, quando visto em linhas gerais, muito linear. Por outro lado em 50 mil anos de civilização (contando quando se começaram a produzir as primeiras ferramentas e a surgir os primeirios vestigios de actos culturais) os ultimos 600 ou 700 anos (desde que se começou a desenhar o espirito cientifico e o metodo) são uma gota de agua, e a maior parte, se nao todo o progresso cientifico se dão nessa franja de tempo. Este facto deve ser tido em conta. Ou não?
Argumentando que antes de haver ciencia não há historia da ciencia de que falar, portanto não a colocando numa prespectiva da raça humana, o problema mantem-se, penso eu, se bem que numa forma amenizada. Isto é, se pegarmos os ultimos 700 anos digamos, e imaginarmos um grafico da produção cientifica, eu penso que ele desenharia uma curva parabolica ascendente, claro que numa linha com altos e baixos. Eu penso que as abordagens da ciencia como um todo na divulgação cientifica devem ir do geral para o concreto, e é quando se estuda cada caso em particular que tomamos contacto com os passos atraz, as mudanças de paradigma, os anos de estagnação, etc. Penso que os passos atras sao quase negligenciaveis quando ainda não se transmitiu o alcance e a profundidade do que é o todo do progresso cientifico actual.
Penso ainda que tal seria mais importante se houvesse um abrandamento recente na produção cientifica mas o que se passa é o contrario. Mesmo se não se ultrapassam determinados paradigmas como a relatividade ou a mecanica quantica. Sabe-se muito mais hoje do que quando as teorias foram formuladas.
Este é um assunto que me interessa, e gostaria de uma reposta sua.
Tive de cortar a resposta aos bocadinhos e tirar umas partes mas acho que transmiti a minha mensagem. O que acha?
João, eu entendi sua argumentação.
Acho que, de certa forma, você tem lá sua razão. Com efeito, existem teorias de historigrafia da ciência que acabam por conciliar abordagens descontinuistas do desenvolvimento científico com abordagens continuistas. O segredo, como se defende nesse tipo de teoria, é o período de tempo que se pretende estudar. Se procurar no Google por Fernand Braudel vai achar alguma coisa a este respeito.
Em todo caso, a essência do argumento é que, quanto maior o período que se estuda, maior a sensação de desenvolvimento continuista.
O meu ponto é que, a despeito disso, existem fortes argumentos contra a questão do "progresso científico"… Particularmente prefiro pensar que a ciência se desenvolve, claro, mas não de forma progressiva. Tenho lá meus motivos pra pensar assim. Vejo o desenvolvimento da ciência mais ou menos como a evolução das espécies. Tudo mudo, mas não de forma progressiva.
Em todo caso, você tem razão, sabemos mais sobre determinadas teorias hoje do que sabíamos quando elas foram criadas. A questão é se isso reflete progresso. Kuhn, apesar de tudo, dizia que sim. Ele acreditava que quando se muda de paradigma, embora se perca parte do conhecimento adquirido pelo paradigma anterior, o novo permite o desenvolvimento de novos conhecimentos que não podiam ser atingidos pelo anterior. Essa era a noção de progresso pra ele.
Mas me afastei da discussão. O seu ponto é interessante, você tem razão quando diz que os últimos 600 ou 700 anos são apenas uma gota d'água. Mas se vemos progresso, independente do que chamamos de progresso, nesse período, isto esta extremamente relacionado com o fato da ciência ter mudado de paradigma nesse período. Efeito da chamada Revolução Científica. Fiz um texto sobre isso a pouco tempo no blog, chama-se "Viva la revolución! A explosão cambriana do conhecimento científico", acho que vale a pena uma lida.
Vou olhar seu blog com mais atenção, especialmente o texto que você me apontou.
Abraços.
Repare que estou a debater este assunto no ambito da divulgação cientifica. Se visto ao microscopio os erros e passos atras estão la, nada a fazer. Deixei de defender a continuidade do progresso cientifico de um modo absoluto. Sim, é como a teoria da evolução, partilho essa visão. Mais especies extintas do que vivas. Mas se pegamos numa especie viva hoje e andarmos para tras, ela tem sempre um antepassado, o que da a ideia de continuidade.
Ha um argumento que li hoje a favor de apresentar todos os erros e duvidas da ciencia na divulgação cientifica: Tirar o impacto destes erros junto do publico aquando do seu abuso dos detradctores da ciencia.
Obrigado pela sua resposta. Ajudou muito. E ja acompanho o seu blogue ha algum tempo, ja tinha lido o artigo.
[...] narrativa autoritária? Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou [...]