Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.
Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.
Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.
Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.
Público alvo não é conceito.
Por vezes vejo o conceito de divulgação científica se confundindo com a definição de seu público alvo. Isso por que cada vez que nos deparamos com um texto que fale de ciência para “não cientistas”, o classificamos imediatamente como divulgação científica.
Mas “não cientista” ou “público leigo” são definições generalistas demais, que acabam por esconder um problema que é óbvio para quase todos os tipos de ferramentas de comunicação. Quando dizemos “não cientistas” incluímos aí um espectro de público de múltiplas idades e níveis educacionais. Fazemos pior até, excluímos o próprio cientista.
Pode parecer bobagem imaginar que o cientista é alvo da divulgação científica. Mas não da pra negar o fato de que já a um bom tempo a ciência vem exigindo que seu praticante seja cada vez mais especialista, ao passo que a produção científica cresce de maneira assustadora. É evidente então que um biólogo não consiga acompanhar o que acontece na física. Com efeito, um biólogo especializado em comportamento reprodutivo de tubarões pode não estar em dia com as novidades de, digamos, áreas como a entomologia.
Como classificar então este cientista? Como “leigo”? Mas é um leigo igual a dona de casa? Se não é, então quais os tipos de leigos? E os tipos de não cientistas? Pior ainda é quando usamos o termo “divulgação para um público mais geral”, como eu, talvez erroneamente, muitas vezes cansei de fazer.
Vemos então a divulgação científica que dificilmente pode ser definida como “ciência traduzida para não cientistas”. Temos um público em potencial grande demais para definirmos toda a atividade de forma tão simplória.
Apesar disso, a ideia de “tradução” não é exatamente ruim. Mas é preciso considerar a diversidade de público para o qual tentamos comunicar uma atividade que é igualmente diversificada.
Uma narrativa autoritária?
Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou além, o grosso do conteúdo de divulgação científica produzido desde sempre, segue esta mesma métrica.
Não questiono a validade deste tipo de conteúdo, especialmente em um país com graves problemas educacionais. O problema é que a ciência é muito mais do que a teoria da evolução, ou o big bang, ou mesmo o conjunto completo de todas as teorias e conceitos já formulados.
Uma divulgação científica preocupada exclusivamente em ser explicativa não cumpre o papel básico de divulgar. E não o faz por que explicar uma teoria qualquer não basta. É preciso explicar o que é uma teoria, divulgar o dia a dia do cientista, explicar os processos internos de validação da ciência, e por aí vai.
Quando deixamos esta parte de fora, criamos uma narrativa autoritária, mesmo sabendo que na ciência o questionamento tem papel central. Blindamos a atividade, apresentando apenas um produto final que pode ser menos interessante do que o processo que nos levou até ele.
É preciso sujar um pouco a ciência. Mostrar que, assim como em qualquer atividade humana, também nela se erra. Mostrar que cientistas também tem problemas com seus egos. Mostrar que também sofremos com as mazelas políticas. Enfim, mostrar que não somos esta torre branca de onde verdades e coisas boas saem, ainda que ninguém entenda como.
Mas e o conceito?
Desculpem, vou ficar devendo. Acredito que a divulgação científica, embora não seja exatamente nova, ainda tem muito o que caminhar. Além disso, o papel deste texto é provocar algumas reflexões e discussões, bastante necessárias ultimamente.
É importante discutirmos sobre blogs de ciência e assuntos similares? Sem dúvida. Mas não podemos deixar de também discutirmos as bases da atividade. Andamos tão preocupados em discutir sobre os meios que esquecemos de olhar para a mensagem.
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Categoria: blog


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[...] This post was mentioned on Twitter by Luiz Bento and Ana Arantes, thenriques45. thenriques45 said: Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito? : http://bit.ly/d268fn via #polegaropositor [...]
Touché!!! =)
Boa, Thiago
[...] Bastante relacionado ao tema deste debate e portador de um reflexão muito bem colocada é o post Divulgação científica: uma atividade sem conceito? Recomendo a [...]
Thiago, gostei bastante do seu post e gostaria de abrir uma discussão, a divulgação científica não poderia estar apoiada na filosofia da ciência, eu vi um outro post seu sobre o assunto e este pode ser um caminho interessante de divulgar a ciência e mostrar para todos os pùblicos o que está acontecendo de novo no mundo científico, neste caso visto de uma ótica mais analítica e ainda reforçar a prática do pensamento filosófico dentro da comunidade ciêntifica, o blog de vocês ao meu ver tem esta abordagem pode não ser uma solução mas talvez aponte para caminhos interessantes.
Milton, olá.
Não acredito em soluções definitivas. Acho mesmo que a divulgação científica é uma atividade a ser abordada de diferentes ângulos.
Não espero que a divulgação científica se apoie unicamente na filosofia da ciência, mas aqui no Polegar temos esta preocupação de incluir este elemento a mais. Acreditamos, como você bem notou, que esta é uma abordagem interessante e que acaba por revelar facetas da ciência que nem sempre são evidentes.
Enfim, há espaço para todos os tipos de estratégias
Thiago, obrigado pela respota:
Sim, a filosofia da ciência não deve ser o único meio de divulgação científica, existem outras abordagens, gostaria de saber a sua opiniao sobre sites e programas como discovery e National Geographic que abordam alguns tópicos ciêntificos levando o público a conhecer um pouco de ciência através da curiosidade.
Ao se despertar a sede de conhecimento das pessoas, pode levar algumas delas a procurar se informar mais sobre determinado assunto e a mudar conceitos pré-formados, vale lembrar que o próprio Carl Sagan na sua série Cosmos levou muita gente a estudar ciências despertando justamente este instinto de curiosidade.
Mais uma vez obrigado!
Abs.
A divulgação cientifica tem se intensificado nos ultimos anos, no Brasil isso é visivel, com o aumento de verbas destinadas a centros de divulgação, sendo a até financiado pelo cnpq, (popularização da ciencia). O desenvolvimento cientifico pe fundamental para uma nação, para seu desenvolvimento humano e economico. Mas a questão que Thiago levanta, é muito oportuna no que diz respeito ao conceito de divulgação. Geralmente a divulgação cientifica cpomo tem sido feita não atinge todos. Os veiculos de massa por exemplo, não valoriza isso, cabe aos museus, centros e universidades, atingindo uma pequena parcela da população.
Então acredito que junto com a filosofia poderiamos esquentar essa discussão. Também acredito que divulgação, cumpre completamente seu papel, quando esta vinculado à educação cientifica, fazendo relaçao entre ciencia tecnologia e sociedade, pois fornece uma abordagem de uma realidade, capaz de despertar e instigar o seu publico alvo, seja ele qual for…
Estudante de licenciatura em ciencias
email: julianoltr@gmail.com
Eu sou estudante de Física e Química e amo a Ciência intensamente. Admiro todos os divulgadores da Ciência, como Carl Sagan, Stephen Hawking, Isaac Asimov, etc. É interessante que também deveríamos incluir como grande divulgador da Ciência um dos maiores cientistas de todos os tempos, Galileu Galilei, que escrevia seus livros numa linguagem acessível e em italiano, não em latim. Assim todo o público poderia ler sua obra.
Eliakim, ola.
Já pensei assim como você e escrevi um texto justamente fazendo essa relação, do fato de Galileu ter escrito em italiano e não em latim ter servido ao proposito de convencer o máximo possível de pessoas sobre suas teorias e conclusões.
O estudo da historia da ciência no entanto me fez ver que Galileu escrevia em italiano não para popularizar seus trabalhos, mas para justamente o contrario, ser bem compreendido pela nobreza italiana.
Não se trata no entanto de ma fé de Galileu. A corte da época fazia as vezes do peer review, ou seja, era preciso ser apadrinhado por um bom mecenas para ser reconhecido. A legitimidade do cientista não estava em seu estudo, mas em quem o patrocinava.
Escrevo um pouco mais da historia de Galileu neste texto que talvez possa lhe interessar:http://polegaropositor.com.br/galileu-matematico-...
Abraços.