Faz parte de nossa tentativa de entender o mundo, criar maneiras simples e generalizadas de classificação. Para um observador minimamente razoável, essas classificações se mostram evidentemente acadêmicas e não refletem necessariamente a complexidade do que se classifica. Podemos tomar como exemplo a classificação das ciências naturais. São assim chamadas, primeiramente, por seu vínculo direto com o estudo aonde as respostas devem vir necessariamente da natureza. Física, biologia e química são grandes exemplos de classificações feitas nas ciências naturais. No entanto, mesmo entre essas três áreas existem campos “cinzas”, ou seja, que parecem se enquadrar em mais de uma dessas classificações, ou talvez em nenhuma delas. Parte daí o motivo de se criar subclassificações, bioquímica e biofísica são bons exemplos.
Embora esse sistema taxonômico em geral funcione, para aqueles observadores que não são tão razoáveis, essas classificações podem dar origem a certos preconceitos. É o que tipicamente ocorre com a educação física. Não raro nos deparamos com seu esteriótipo comum, estudante de educação física é tido como “o vida boa”, sua aplicação última se restringe aos campos de futebol e outros esportes (quando muito) ou às acadêmias de musculação. Pouco, ou nenhum, esforço se faz para entender que a educação física é sim uma ciência.
Não há dúvidas de que a educação física esta intimamente relacionada ao corpo humano. O que se deve notar é que essa relação se estende em níveis mais amplos do que se imagina. A priori podemos tomar o caminho mais simples e pensar na prática de exercícios físicos. É de responsabilidade da educação física estudar e fundamentar corretamente essas práticas, o que por si só já coloca a disciplina em um processo científico de investigação e pesquisa. Tomando esta linha de pensamento como verdadeira, e ela de fato o é, a educação física esta diretamente relacionada com estudos de anatomia, bioquímica, biomecânica, fisiologia humana e tantas outras áreas quanto se possa imaginar. Vale notar que as instituições de fomento a pesquisa brasileiros classificam a educação física como ciências da saúde, bem ao lado da medicina.
Não obstante, a educação física ainda abrange uma série de outras áreas fora das chamadas “hard science”, mas que são igualmente importantes e relevantes. É o caso de seu papel na educação por exemplo. Sua relação com a psicanálise e mesmo com direito, filosofia e ética. Por toda essa desenvoltura com diversos campos do saber humano, é incompreensível os motivos que sustentam o preconceito claramente existente contra esta disciplina tão completa.
É papel do divulgador científico compreender que o conhecimento humano se entrelaça de formas mais complexas do que a taxonomia acadêmica sugere. É igualmente papel do divulgador compreender que a ciência é mais do que a invenção de novos e complexos aparelhos ou de técnicas avançadas de medicina. A ciência é um empreendimento abrangente, que investiga o homem e o mundo que o cerca. Neste sentido, as contribuições da educação física são de grande importância e relevância.
Para saber mais:
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É Thiago, bem vos digo que fico muito feliz com seu texto. Eu, porfessora nos cursos de graduação em Educação Física, vejo claramente que os alunos chegam no primeiro ano iludidos pelo boato do curso de bater palminhas, o curso mais fácil, isso e aquilo. Se surpreendem com as disciplinas de biologia, bioquímica, fisiologia humana, anatomia, cinesiologia, biomecânica. E muitos desistem do curso nesta hora. Em que percebem que a coisa não é tão oba-oba quanto parece. Isso sem pensar no fenômeno futebol, que além de muita teoria de treinamento desportivos, calcada nestas áreas acima expostas, tem também os aspectos das ciências sociais, políticas, antropologicas, psicologicas e economicas. O futebol move milhões de dólares, euros, reais e coisa e tal. Só com muita ciência mesmo. Obrigada pelo post.
Beijos
Fer
Caro Thiago e Fernanda
Depois de meter meu bedelho em vários comentários do Thiago, este eu não poderia deixar passar em branco. Sou prof de Educação Física com muito orgulho de minha profissão. Como integrante desta área fico muito agradecido pelo apoio e também acho importante que a sociedade compreenda um pouco melhor a Ed. Física e seus desdobramentos epistemológicos.
Contudo, como sempre (rsss), tenho que fazer algumas observações. Considero que este texto, como o post da Fernanda, tentam dar importância para a Educação Física baseados na importância de outras áreas de estudo. Este tipo de discurso realmente pode ajudar, mas pode ser também uma forma de desqualificar a Educação Física no sentido que sua importância como campo de estudo e investigação só é válido na medida em que “pega carona” nestas outras ciências.
Como exemplo posso dizer que de um século para cá ocorre o inverso, a fisiologia precisou criar uma área de estudo (fisiologia do exercício) e a bioquímica outra (bioquímica do exercício) por causa da Educação Física. Até a genética (não é Andrea?) criou a genética do Esporte
Veja bem, não estou “brigando” com vocês, talvez nunca tenha passado pela cabeça de vocês este ponto de vista. Hoje, felizmente também ministro aulas na graduação em Educação Física, e uma das coisas que tendo sempre passar para os estudantes é a necessidade de resgatar o orgulho de ser profissional desta área e tentar mostrar que todas estas ciências tem igual importância. O estágio tecnológico do ser humano, e sua futura sobrevivência enquanto espécie, depende da compreensão da natureza e da próprio ser humano.
Sim, tudo em maiúsculas para dar a devida importância, ainda que truncada aos olhos dos jornalistas, que seja. Basta conviver com os profissionais da EF para compreender a importância da profissão, é simples. Quem acha que a verdade está apenas nos livros densos, verdadeiros tratados tipo 500 páginas, construídos com anos e anos de trabalho hipocrático que morra de inveja da alegria e do descontraimento com que estes profissionais estudam e trabalham. Sim, há exceções, assim como em toda e qualquer profissão, mas a questão é que o humor e a alegria não anulam o comprometimento e a seriedade dos bons profissionais, seja lá em quais profissões estiverem.
Mais que isto, embora haja divergênias entre os autores, segundo a IASI a Educação Física é uma das 19 áreas das Ciências do Esporte, ao lado das já citadas, fisiologia, biomecânica, bioquimica, e claro Marco, torço para que a Genética do esporte seja a vigésima área
Andrea
A Genética do Esporte sendo classificada pelo IASI como ciência do esporte ou não, já é uma realidade. Um livro sobre músculo esquelético relacionado aos ajustes provocados pelo exercício/atividade física/esporte tem 1 capítulo de Genética e pelo menos 3 outros que precisam de conhecimentos de Genética e/ou bologia molecular para entender.
O Atlas da Educação Física, organizado pelo Prof Lamartine Pereira da Costa, tem o verbete Genética do Esporte… por aí vai.
Não sou da turma dos mais descontraídos da Educação Física (com maiúsculas), mas sei da importância deles para todos. Não tem mais importantes ou menos importantes, torcemos apenas para que os dogmáticos abram suas mentes (fui paradoxal?).
Afinal educação física é ou não uma ciência? Qual a fundamentação teorica e filosófica? quais os modelos empregados para a efetivação desta ciência?
Penso de que ela seja uma derivação de outras ciência tais como a biologia, a matemática, física , química dentre outras.
Po isso mesmo ela é dificil de se firmar como ciência, será que estou errado?
Acredito que seja ciência sim. É preciso lembrar que a biologia compartilha muito com a física e com a química. De fato já se defendeu que a biologia seria uma “ciência passageira”, se reintegrando à física e à química.
A educação física se aproveita de conceitos trazidos de outras ciências, claro, mas desenvolve uma porção de conhecimentos de sua propriedade…
falar sobre educação física ,quando que ela ainda está sendo formalizada seus conceitos ,pois a mesma ainda esta engatinhando apesar de já haverem bastantes conceitos comprovados cientificamente,é muito complexo,pois perpaça pelo ponto de vista de várias areas como escolar ,academias,clubes,personal trainer,enfim o que falta é colocarmos cada politica em seu lugar e tratar a educação física adequando em cada parametro.Como disciplina escolar deverá ser vista com mais profundidade,principalmente a nível de ensino publico.
Bom tenho certeza que para uma profissao ser de nivel superior, deva existir uma ciencia que explica a de tal fato, fomentando assim seu mercado de trabalho e area da pesquisa para que a mesma tenha sua supremacia, entretanto o fato da Educaçao Fisica estar ligada aos esportes, surge a denominaçao de curso facil, ou por que muitas pessoas procuram o curso pensando que vao se divertir nos esportes, como o colega citou em cima, existe varias materias que sao importantes como a cinesiologia, fisiologia, entre outras, isso faz com que muitos desistam, um exemplo de renome da nossa profissao é o pesquisador Rodrigo Gonçalves Dias, que ganhou o premio do congresso brasileiro de cardiologia, com uma pesquisa fantastica, sendo ele formado em Educaçao Fisica, entao caros colegas temos de acabar com esses mitos de esportes e mostrar a area de nosso verdadeiro estudo o corpo humano todo em si!
Ciências sim!!! Sou biólogo e Educador Físico, com muito orgulho!!!
Parabéns pelo texto!
Abraço!!
Sou aluno do Instituto Politécnico da UFRJ em Cabo Frio. Nosso primeiro projeto foi explicar o que é ciências? e meu grupo, ficou com a parte de Ed Física. Gostei de ver o debate dos professores, porque só comprova que esse é um tema em questão. Mas gostaria de perguntar ao Thiago sobre esse trecho “A educação física se aproveita de conceitos trazidos de outras ciências, claro, mas desenvolve uma porção de conhecimentos de sua propriedade…” qual seria essa porção de conhecimento de sua propriedade?