Não são raras as vezes em que a teoria evolucionista darwiniana é acusada de dar suporte a políticas eugênicas. No dia 24 de dezembro de 2007 o Sr. Olavo de Carvalho nos presenteou com mais um de seus textos bombásticos, estabelecendo um contexto histórico inventado, criticando as transformações e modificações da teoria e acusando-a de embasar as idéias de busca por uma raça humana superior.
Vou direto ao ponto que quero abordar, ignorando toda a baboseira desconexa que Olavo cria ao inventar uma linha do tempo sem fundamentação para o surgimento do pensamento evolucionista. A relação da evolução com as idéias de eugenia não se sustenta cientificamente por vários motivos. É preciso primeiramente lembrar que, no caso da teoria darwiniana, o termo “evolução” não é usado em sua condição usual de progressão.
Não existe uma “escada evolutiva” que remete a um igualmente inexistente “último degrau” aonde o homem estaria hipoteticamente situado. Essa visão parece bastante comum mas biologicamente falando, o homem é considerado mais uma entre tantas espécies. É muito importante entender esse conceito. Algumas espécies são evidentemente mais complexas que outras, no entanto não são “mais evoluídas”.
O termo evolução neste caso, se aplica a variações na freqüência alélica do material genético do indivíduo. Acredito que já expliquei isso antes neste mesmo blog, mas o faço novamente. Quando da ocasião da multiplicação das células gaméticas, ou células reprodutivas, processos de mutação modificam algumas áreas do DNA .
Em geral modificações profundas são extremamente nocivas e a célula se torna inviável para os fins a que serve. Em todo caso eventualmente a mutação pode não ser tão drástica e não torna a célula inviável. As mutações produzem modificações nos alelos e é a isso que o termo evolução se refere.
O efeito é melhor observado em organismos simples e de reprodução acelerada, como as bactérias. Em regra estamos todos passando por processo semelhante e a longo prazo, e com o devido isolamento, seria possível observar os efeitos dessas modificações em organismos complexos. No entanto, o tempo de observação seria tão grande que não é possível realizar de forma controlada.
Os fósseis no entanto nos ajudam a inferir esse efeito e a traçar um caminho evolutivo para cada espécie do planeta. Veja que apenas o bom entendimento deste conceito já serve como contra-argumento para a tentativa desonesta de estabelecer vínculos entre a evolução darwiniana e e a eugenia. Se não existem espécies mais ou menos evoluídas, se a evolução não segue em uma escala direta, então não se pode produzir uma raça superior.
No entanto, existe ainda um outro argumento biológico que ajuda a entender de uma vez por todas que o sistema eugênico não faz sentido. É sabido que a variabilidade genética de uma espécie é importante para a manutenção desta espécie. Ou seja, quanto maior a variabilidade dopool gênico da espécie, mais difícil será de ela enfrentar eventuais problemas de adaptação.
Na eugenia a idéia é produzir uma raça “pura”, evitando a miscigenação dos indivíduos. Evitar a miscigenação é diminuir intencionalmente o pool gênico da espécie, restringindo a variabilidade e deixando a espécie mais suscetível a problemas de adaptação ou de ordem genética. É evidente portanto que a biologia ou qualquer outro ramo da ciência jamais tentou justificar ideologias quaisquer.
Qualquer biólogo poderia ter facilmente esclarecido as dúvidas do Sr. Olavo de Carvalho e evitado que ele, mais uma vez, fosse tido como um mentiroso tendencioso que deforma a realidade da maneira como quer para poder sustentar sua insanidade.
Resta a dúvida de até quando ele continuará se passando por alguém com ideais e será finalmente encarado como realmente se deve, um charlatão ignorante que não faz a menor idéia do que esta falando.
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Thiago,
Parabéns pelo artigo! Sua visão científica é muito esclarecedora. É impressionante como o Olavo de Carvalho – um embusteiro, uma fraude intelectual – ainda tem leitores que buscam seriamente aprender algo com ele.
Quê isso, rapaz! A evolução é uma piada! E se você discorda é nazista! A moda do momento (seria pleonasmo “a moda do momento”?) é o Design Inteligente! Em carros, celulares, teclados ergonômicos…
Esclarecedora sua anáise. Confesso que meu conceito de evolução da espécie era o do senso comum, e depois de ler esse post passei a compreender melhor esse conceito.
Reveladora a informaçãode que não há espécies mais evoluídas que outras, apenas mais complexas. Esclarecedora a idéia de que as mutações no âmbito celular é o x da questão evolutiva.
Mudando de assunto:
Acho que você acompanhou as notícias sobre OS ATAQUES DAS ÁGUAS VIVAS NAS PRIAS DO LITORAL PAULISTA. Logo apareceram explicações exdrúxulas de que tudo era culpa do aquecimento global.
De uma hora para outra, “Ataques” de águas vivas passaram a ganhar manchetes nos jornais, nos sites e nos telejornais. E sempre a teoria de que o Aquecimento Global é que estava por trás desses “ataques”
Claro que é um absurdo. Primeiro não houve ataque. Depois, a migração dessas águas vivas – no caso do Brasil da espécie Caravela portuguesa, se não estou enganado – é normal nessa época do ano. Pensei até em escrever um post, mas você, como biólogo, poderia, se quisesse, escrever de forma mais competente e mais técnica, do que eu. Fica a sugestão.
um abraço.
Pergunta de leigo…
Tá, meu conhecimento também é do senso comum, penso na evolução como um conjunto de erros que seriam eliminados e a persistencia de acertos pela reprodução dos indivíduos mais capazes.
E baseado nesta crença, identifico o agente “eliminador” dos erros como o ambiente. Então pergunto, o processo civilizatório não tirou do ambiente esta capacidade de destruir os individuos “errados” ou excedentes?
E quanto a variabilidade genética… A tecnologia dos transportes não teria acelerado migrações que provavelmente só aconteceriam em milenios… Ou até mesmo não ocorreriam? Como a natureza daria conta destes eventos imprevistos e deste caos genético?
Acho que o homem e sua inteligência bloqueou processos que garantiram o seu próprio desenvolvimento até então. E infelismente está prestes a criar uma situação insustentável para a vida de outras espécies pelo exito artificial da nossa. Penso na humanidade como um tumor maligno do planeta… Se não houver uma retirada, pelo menos em parte, o paciente vai morrer.
Ficaria grato por uma confirmação de leitura pelo autor.
Abraço
Olá estou fazendo uma pesquisa sobre eugenia pra defender num seminário.
gostei muito do jeito como o Sr abordou o assunto, diferente de outros ssites que eu pude visitar…
Bem se o Sr tiver alguma informação a mais que possa me dar pra eu acrescentar no meu seminário ficaria muito grata
meu e-mail é:
luiza_cristina_af@hotmail.com
atenciosamente
Luiza Cristina