“Salami science”, autoria contestável e o alpinismo científico

novembro, 2011

Ninguém gosta de ser avaliado e criticado. Para os cientistas, tão acostumados com suas idéias estarem “certas” e serem corroboradas e publicadas, a avaliação se torna algo até mais temeroso do que para a maioria da população. Entretanto, ninguém escapa de ser avaliado, ainda mais sob a perspectiva de ganhar financiamento (e status, claro, por que não?), passando para isso pelo “simples” desconforto e pressão de ter seu trabalho avaliado.

Um aluno comum, na escola, quando sob pressão é levado a tomar atitudes contra a nossa moral, como a “cola”. O mundo adulto não é tão diferente, por mais que nos recusemos a acreditar. As atitudes que tomamos em medidas desesperadas apenas apresentam uma “roupagem” mais bonita, com a qual podemos disfarçar o que foi feito e ganhar a simpatia da nossa classe, que pode aprovar até mesmo as atitudes mais imorais. São as desculpas que damos a nós mesmos para escapar de uma avaliação ruim, seja ela qual for.

No paradigma atual da avaliação dos programas de pós-graduação e seus pesquisadores, a CAPES se torna um fantasma assombrando a vida de todos minimamente ligados ao âmbito acadêmico. Suas normas, equações, pontuações e avaliações levam os pesquisadores muitas vezes a medidas desesperadas. Mas creio que o maior impacto de um método de avaliação tão “espartano” (joguem os fracos do precipício e fiquem com os soldados mais eficientes) é a legitimação de atitudes fraudulentas e pouco éticas.

Escalando o caminho para o “sucesso”

Principalmente em campos mais competitivos, a “salami science” é encarada como uma prática habitual, até mesmo normal. Afinal, para que fazer do seu doutorado, quatro anos de trabalho intenso, apenas uma publicação se você pode dividi-lo em duas, três ou mais partes? E dessa forma, encontramos diversos trabalhos de pequeno impacto publicados para fornecer mais uma linha no currículo do pesquisador.

Como exemplo do absurdo que a postura “salami science” pode produzir, o professor Sidney Redner da Universidade de Boston fez uma pesquisa sobre as publicações de uma das revistas de sua área, a Physical Review. Os números obtidos são assustadores: de 353.000 artigos publicados, apenas 11 tiveram mais de 1000 citações; 245.000 (a maior parte) tiveram menos de 10 citações; 100.000 tiveram uma ou nenhuma citação. Com isso podemos ver que 1/3 das publicações dessa revista não tem impacto algum. E apesar da ausência de outros estudos do gênero, há especulações que para a maioria das revistas haja um comportamento semelhante. Com isso, temos o desperdício de tempo dos pares na revisão de artigos, desperdício de tempo e dinheiro de revisores e outros trabalhadores do jornal, desperdício de impressão e postagem além do desperdício na indexagem de tais artigos. Em suma, a única pessoa que ganha com isso é o autor, uma linha a mais no currículo, um ponto a mais na sua avaliação e uma probabilidade um pouco maior de se sobressair a outro candidato em um concurso.

Dessa maneira, uma das estratégias de alpinismo científico se torna legitimada em diversos laboratórios. Ao ponto de você conversar com os professores e alunos e eles acreditarem piamente que estão trabalhando de maneira idônea. E se as publicações nos dão vantagem em concurso, além da dividir o próprio trabalho, a cooperação com outros pesquisadores também deve ser frutífera para tais objetivos. Aqui vemos a segunda estratégia de alpinismo científico mais praticada: a autoria irresponsável.

Uma idéia concebida num grupo de discussão, o uso de estrutura laboratorial e insumos de um professor, dados de coleta de informações e mesmo a figura do orientador. Quais das desculpas acima justifica a autoria de um trabalho? Quem estipula onde pára o agradecimento e começa a autoria? Até dia 16 de Setembro deste ano, ninguém.

Regulando uma postura responsável

Eis que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) elaborou uma cartilha para dizer aos pesquisadores quem está fazendo ciência certo e quem está fazendo ciência errado (ou ao menos, quem divulga seus resultados de tal maneira). Pela primeira vez para o Brasil foi tomada uma iniciativa reguladora, na qual a FAPESP lançou o “Código de Boas Práticas científicas” que, infelizmente, ainda não apresenta medidas punitivas e corretivas específicas, mas já deve ter assustado diversos pesquisadores.

E em um dos tópicos mais amados (ou odiados) a FAPESP pronuncia que “Em um trabalho científico, devem ser indicados como seus autores todos e apenas os pesquisadores que, tendo concordado expressamente com essa indicação, tenham dado contribuições intelectuais diretas e substanciais para a concepção ou realização da pesquisa cujos resultados são nele apresentados. Em particular, a cessão de recursos infraestruturais ou financeiros para a realização de uma pesquisa (laboratórios, equipamentos, insumos, materiais, recursos humanos, apoio institucional, etc.) não é condição suficiente para uma indicação de autoria de trabalho resultante dessa pesquisa.” (tópico 2.2.6, página 6, grifo meu). Com isso, poderíamos esperar que as publicações se atentassem mais a tais especificações. Entretanto, há duas barreiras a se transpor para que isso ocorra.

A primeira é da comodidade e do lugar-comum. Não é um código com medidas punitivas etéreas que conduzirá o trabalho e publicações científicas de maneira mais ética. Para tal, ou o pesquisador se predispõe a repensar sua prática ou medidas sancionadoras chegam “de cima para baixo” e o colocam nas normas (seja a revista na qual publica, a pós-graduação que o abriga ou sua agência de fomento).

A segunda barreira é a nossa própria visão do “certo e errado” em ciência. Em um momento no qual somos bombardeados com informação de diversos tipos, e que nem toda informação apresenta autoria específica, fica difícil discutir o que é nosso e o que proveio de outrem. E a internet apresenta um papel fundamental nessa questão. E se o problema de autoria se encontra nos laboratórios, devemos verificar se não ocorre algo semelhante durante o processo de formação do pesquisador. Se durante a faculdade sua maneira de pesquisar e não citar fontes for legitimada pela correção do professor, o sentimento de que ninguém o observará a fundo prevalece. Atualmente, alguns scripts funcionam na internet para detectar os plágios, como o Farejador de Plágios, mas será que apenas a detecção do plágio é o suficiente?

Da formação à informação

A meu ver, assim como acontece com o ensino público brasileiro, a responsabilidade está passando cada vez mais adiante. É preciso ensinar as pessoas a pesquisar, derrubando a visão de que o conceito de pesquisa consiste em entrar num site de busca e coletar as informações dos primeiros sites que retornam. O senso crítico não pode ser deixado de lado em prol da informação per se. A formação do aluno vai além da reprodução do conhecimento obtido por outras pessoas. Se não abordarmos este tipo de assunto durante a formação dos pesquisadores, teremos um número cada vez maior de cientistas pouco “intelectuais” e mais “executores”, os quais não entenderão a ética nas suas atitudes e, por fim, formarão um número cada vez maior de organismos reprodutores de informação pouco críticos, cujos trabalhos não tem impacto nenhum para a sociedade (seja a sociedade geral ou acadêmica), interessados apenas no alpinismo científico.