8º ICHSSE – Catalisador de revoluções?

fevereiro, 2010

Muitas pessoas – e acho que eu arrisco dizer a maioria das pessoas – têm uma dificuldade muito grande para entender e aprender Ciências. Todos aqueles nomes complicados da Biologia, as dezenas de fórmulas da Física e a abstração demasiada da Química dão um verdadeiro nó na cabeça. Por que isso acontece?

Essa é uma pergunta nem um pouco fácil de se responder, e existe uma área de pesquisa relativamente recente que se dedica a responder essa pergunta, entre algumas outras. Esse campo de pesquisa em Ensino de Ciência vem crescendo bastante nos últimos anos, alguns pesquisadores vêm se destacando e, melhor do que isso, começando a ser ouvidos. Como toda área de investigação, ela se divide em sub-áreas, que, por sua vez, também têm suas ramificações, e cada uma dessas “sub-sub-áreas” tenta abordar a questão por uma perspectiva diferente, cada um puxando a sardinha pro seu lado e etc. Enfim, todo aquele ritual que faz o conhecimento crescer.

Dentro da problemática do motivo das pessoas terem tanta dificuldade em entender Ciências, eu simpatizo muito com a idéia de que falta contexto no ensino. Aos alunos chega, via livro didático e professor mal pago, somente o produto acabado da Ciência – como se algum produto da Ciência fosse de fato acabado –, totalmente fora do seu contexto de produção. O rico processo de construção do conhecimento fica obscurecido por trás dos “grandes gênios da Ciência” que “fizeram tudo sozinhos”.

Decore todas as fórmulas e conceitos pra passar nas provas; esse é o nosso ensino de Ciências. Assim fica mesmo difícil aprender alguma coisa. Como aprender um conceito sem ter idéia de sua aplicação e de sua história? Esse ensino que consiste no professor dando respostas prontas pra perguntas que o aluno não fez simplesmente não dá certo. O professor repete as coisas que estão no livro didático, que por acaso são coisas que o aluno não está nem um pouco interessado em aprender.

Por essas e outras razões, acredito que deva haver uma mudança radical no ensino, mas radical em longo prazo; ela na verdade aconteceria aos poucos, um passo de cada vez. E um dos primeiros passos seria a inclusão da História e da Filosofia da Ciência no ensino. Não uma inclusãozinho de leve, com 2 ou 3 aulinhas sobre o tema. Falo de um verdadeiro mergulho na História da Ciência, que iria encharcar todas as aulas com contexto. O problema é que isso que para mim é apenas um primeiro passo já é visto como algo radicalíssimo por muitos, isso sem contar aqueles (que não são poucos), que acham que a História e Filosofia da Ciência não servem pra nada.

Realmente há muitos obstáculos par a implantação dessa idéia, e talvez o principal deles seja a falta de discussão sobre o tema, pelo menos no Brasil. Se a área de pesquisa em Ensino de Ciências é recente, no Brasil ela é ainda mais nova, com pouquíssimos pesquisadores. Dessa forma, esse tipo de discussão caminha em marcha muito lenta por aqui, e eu estou falando da academia. A transposição para a escola é outra história.

Por isso, fiquei muito feliz ao saber que esse ano, em Maresias, ocorrerão dois eventos, um em seguida do outro, que certamente vão catalisar as discussões sobre a inclusão da História e Filosofia da Ciência no ensino por aqui. Os eventos são a 8ª Conferência Internacional para a História da Ciência no Ensino de Ciências (8th ICHSSE) e a 1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências (1ª HPTS-LA).

Os eventos são só em agosto, mas as expectativas já estão altas. As minhas, pelo menos. Não sei, talvez seja empolgação demais por um congresso que vai ser como qualquer outro, mas não se pode julgar alguém por sonhar, não é? O congresso é em agosto, as eleições em outubro. Quem sabe…