A Arte da Narrativa na Divulgação Científica

setembro, 2008

ATO: É como se eu pensasse uma Galáxia, em que os fenômenos nebulosos completam-se em si, tampouco estejam em relação direta uns com os outros. De quando eu era criança, nas observações de Sagitário e na procura de um buraco negro que se velava atrás das estrelas, as interpretações científicas eram aquelas oriundas de vozes em planetários. Havia uma auto-suficiência no fenômeno, que o tornava único, mas diluído numa cadeia de experiências de fótons, neutros e prótons. Daí a idéia de constelação. E nas constelações, as estrelas são independentes. Nem por aquelas que tivessem nascido juntas, as estrelas duplas ou triplas, eu poderia estabelecer qualquer relação de encontro. É que, aos meus olhos incompletos, elas surgiam e morriam solitárias. Já a minha “incretude”, ao contrário, sempre me levou a estabelecer inúmeras linhas de união, relacionando-as umas com as outras, uma festa no céu, apesar delas seguirem só. A estrela Dalva, sempre a primeira, sempre única, e outras, como as Três Marias, que, sozinhas, aprendi a ver em grupo.

Este ato escrito em forma de mônada é o modelo que Walter Benjamin propõe para o relato das coisas. Para ele, o importante é que o fenômeno mantenha sua independência e que através de uma forma narrativa de experiência se constitua história. O autor tenta desvelar que o fenômeno não está em continuidade e também não se encontra desvirtuado pelo todo. Os fragmentos, as anotações e os pequenos exemplos tomados da história, de uma forma atemporal, fazem da ciência subjetividade. Assim, as constelações do saber científico que se poderia generalizar a partir daí seriam inúmeras; e talvez cada um de nós construa a sua, reflexo de nossas experiências pessoais. Seria afirmar, então, que cada um põe sua biografia, seus interesses, seus projetos, sua vida em palavras para se fazer galáxia. Porém o fenômeno continua sendo reconhecido por todos, na expressão de um fato, de um acontecimento.

Em voga, a narrativa da experiência. E a pergunta: ela, a narrativa, é válida para o processo divulgação científica? Em uma sociedade da informação, a cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. São fatos que já nos chegam com um punhado de explicações plausíveis. Nota-se, no entanto, que tais fatos, quando atrelados à narração, produzem uma historicidade, lugar onde a ciência (e sua divulgação) se contextualiza no tempo e no espaço. Nesta via de se pensar a popularização das informações científicas, a narrativa faz florescer uma forma artesanal de comunicação, interessada em transmitir o “puro da coisa” a partir da descrição das circunstâncias em que foram vivenciadas. Isso porque a linguagem narrativa constrói uma imagem que se fixa aos olhos de quem lê. Uma imagem subjetiva que permite o leitor atingir uma amplitude que não existe na informação.

Se metade da arte da narrativa está em evitar explicações, qual seria, então, sua função em se tratando da divulgação científica? A de inscrever-se no curso da historiografia. Neste caso, à beira, encontra-se o cronista com a outra metade da arte da narrativa: a inclusão do tempo épico na escrita, que, na crônica, é a mais incontestável pelo esforço de se representar os episódios – e por que não dizê-los científicos? – como experiências da história do mundo. E, como diz Benjamin, “seja como for – para cada pessoa há coisas que lhe despertam hábitos mais duradouros que todos os demais”. E o parafraseando: neles são formadas as Três Marias que se tornam decisivas em sua existência única.