A ciência e seu próprio vale da estranheza.

outubro, 2008

Seja nos filmes de Hollywood, seja em laboratórios de robótica, as tentativas de se construir uma réplica artificial de seres humanos não são novidade. Existe um efeito bastante curioso relacionado a este fato, conhecido como “vale da estranheza”.

Proposto em 1970 por Masahiro Mori, o conceito diz que quando uma tentativa de produzir uma pessoa artificial chega próximo à perfeição, sem atingí-la de fato, o resultado gera uma espécie de estranhamento. A foto abaixo demonstra bem o efeito.

Estranha? Eu?

Estranha? Eu?

O que acontece é que nascemos com uma espécie de “instinto”, uma capacidade intrínseca de reconhecermos nossos “iguais”. Quando nos deparamos com robôs como o da foto acima, algo em nossos cérebros sinaliza que “há algo errado ali”.

Por estes dias, refletindo um pouco sobre algumas idéias de Kant, divulgação científica e sobre  ciência moderna, tive uma espécie de insight. E se for o caso de a ciência se encontrar em uma situação similar à causada pelo vale da estranheza? Explico do início.

Para Kant, o homem vê o mundo através de uma “moldura” criada por nossos sentidos. Não só os físicos, como a visão, tato e olfato. Mas também por nossos sentidos intelectuais, nossa capacidade de abstração e de compreensão. Partindo deste pressuposto, podemos dizer que qualquer atividade humana esta inerentemente atrelada aos indivíduos e seus valores.

Se assim o é, então a ciência não é exceção. Como empreendimento humano, ela esbarra em questões de valores, moral e política. Mas não é esta a idéia que se “vende”. Com efeito, é costume usar aquela velha máxima positivista de que a ciência é imparcial, neutra e autônoma.

A questão é que quando postulamos que um dos maiores esforços coletivos da história da humanidade não possui em sua constituição características tão humanas, condenamos a ciência ao seu próprio vale da estranheza. Afinal, é um construto humano que carece de humanidade.

E é aí que o problema se agrava. Se de fato a ciência esta situada em seu próprio vale da estranheza, então é natural que as pessoas que não trabalham diretamente no meio científico sintam uma determinada repulsa, uma desconfiança ou algum tipo de receio. Eu até poderia argumentar que isso explica a facilidade que as pessoas tem pra criticar a ciência, mas a dificuldade em que estas mesmas pessoas tem em reconhecer seus méritos. Mas é claro, seria especular demais, pra não dizer inconsistente.

Em todo caso, o trabalho de divulgação científica sofreria um golpe razoável. Afinal, divulgação científica é feita, partindo do pressuposto de que o problema do cidadão médio em compreender a ciência esta na complexidade e quantidade da informação produzida. E o problema pode ser ainda pior.

Além da complexidade e quantidade da informação produzida, poderia existir ainda uma má vontade natural, e subconsciente, em aceitar o empreendimento científico. O que seria muito complicado de se resolver.

Evidente que estou sendo completamente especulativo. Provavelmente bastante exagerado e potencialmente apocalíptico. Mas seria bom refletir se a ciência quer mesmo ser isenta de características humanas, e se a divulgação científica não aposta fichas demais em um pressuposto que pode parecer óbvio, mas que talvez seja só a ponta de um iceberg.