Dei-lhe um belo e redondo ZERO!

setembro, 2013

Jorge está em casa olhando para a tela branca a azul do Facebook. Em meio aos vários memes e piadinhas vê um comentário de um colega de classe: “alguém aí fez o trabalho de ciências pra amanha?”. Jorge não fez, nem se lembrava do trabalho. Já são 22:30, a impressora ainda tem tinta, ele aperta o ctrl+t no teclado e digita no campo do Google “Thomas Kuhn Paradigmas”. A página espartana do Google muda para uma série de resultados. Pula o link da wikipédia – todo mundo vai entregar este – continua procurando até que se depara com um outro link: “Os 22 paradigmas de Thomas Kuhn”. Abre o texto, vê que tem a ver com o tema, copia pro Word, faz uma capa, imprime e vai dormir.

copia

Anatomia de um crime imperfeito.
Para isso que o Jorge fez damos alguns nomes diferentes, entre eles, plágio, preguiça, desinteresse, vagabundagem. Eu já me vi nesta situação, de receber um trabalho com um texto todinho copiado e impresso, links e tudo, sem bibliografia, sem qualquer indício de que o aluno tinha sequer lido aquelas páginas.

Dei zero imediatamente, um belo e redondo zero. Mas nos meses seguintes isso se repetiu algumas outras vezes com outros alunos e me lembrei de várias coisas que li e escrevi durante meu mestrado e, em particular, de um artigo do New York Times que abordava essa questão do ponto de vista de uma cultura digital.

Eu, criatura educada com os valores rígidos da cultura tipográfica, ainda penso em propriedade intelectual, citação de fontes, e coisas do tipo. Penso que um texto é uma entidade independente que habita o terceiro mundo de Popper, mas que teve um pai ou uma mãe que o concebeu e que é importante não ignorar os laços familiares desta produção. E portanto, ainda me choco ao ver que essa relação de cria e criador é tão efêmera no mundo digital.

O fato é que, como dizia a minha mãe, criamos nossos filhos para o mundo e não para nós mesmos. E na personificação digital do terceiro mundo, eles se tornam propriedade de todos e de ninguém. Não se pode ignorar o remix e que na Web o valor das coisas não está naquilo que ela carrega e sim nas interações que podem ser feitas ali.

Jorge, portanto, não é um vagabundo preguiçoso. Nem mesmo um criminoso desinteressado que não respeita a propriedade intelectual. Jorge é filho de seu tempo, e ao se deparar com o problema de ter que fazer uma pesquisa simples resolve a situação de forma igualmente simples: alcançando o poço infinito de conteúdo livre e escolhendo algo que parecia relevante.

O crime de Jorge não está no ato de copiar, mas no ato de entregar a cópia para alguém que está alheio a realidade do digital.

O problema é o problema.
Eu como professor poderia, claro, questionar isso tudo com o viés do pedagógico. O erro de Jorge não é copiar mas copiar sem sequer ler, o que inutiliza todo o ponto de ter que fazer a tal pesquisa pra começo de conversa. Jorge não aprendeu absolutamente nada pois não leu de forma significante o que copiou.

Poderíamos argumentar que tivesse Jorge feito o trabalho a mão pelo menos, ainda teria lido para poder copiar. Mas todos sabemos que isso também é mentira. Nenhuma das vezes em que copiei verbetes da Barsa para uma folha de papel almaço eu li de forma a compreender o que estava lendo. Lia quase que mecanicamente apenas para reproduzir o texto.

Mas analisando friamente, mesmo pelo viés pedagógico, o problema aqui é o problema que foi oferecido ao aluno. Se eu não quero que um aluno copie um texto pura e simplesmente, eu não devia ter pedido um trabalho que possa ser resolvido desta maneira. O fato é que o que Jorge fez não é assim tão diferente de resolver uma multiplicação usando a calculadora.

Por que eu decoraria tabuadas se eu tenho um aparelho no bolso que é mais rápido e eficiente nisso? Por que eu aprenderia o que é um paradigma de acordo com Thomas Kuhn se eu tenho um aparelho no bolso que me diz isso em alguns instantes? Essa é a questão que os alunos se fazem quando se deparam com um trabalho ou pesquisa que não lhe oferece um contexto claro ou algum tipo de desafio.

Se eu quero que o aluno aprenda sobre paradigmas ou tabuadas é preciso elaborar um problema realmente desafiador que dê propósito ao conhecimento que ele deve aprender.

Crime e castigo.
Voltando ao zero… Eu dei zero pro aluno que “plagiou” o trabalho como forma de punição. Mas a questão que eu deveria ter me perguntado na época é: este belo e redondo zero é de fato uma punição que diz algo para este aluno?

Em retrospecto, consigo dizer claramente que não, o zero não disse nada. Ora, em retrospecto ele não deveria sequer ter sido punido por minha falta de competência em proporcionar um trabalho que valesse o empenho dele. Mas mesmo a punição não trouxe qualquer mensagem positiva.

O zero era só uma espécie de vingança pela afronta aos meus valores 1.0. Para o meu aluno o zero era só mais uma prova da dissonância entre a escola tipográfica e a cultura digital.

Não há na maneira como escolhi lidar com a situação qualquer aprendizado ou valor pedagógico real. Meu aluno não aprendeu nada com o zero, e eu perdi a oportunidade de ajudá-lo a compreender que essas criaturas tipográficas ainda precisam aprender a lidar com o digital.

Em outras palavras, o crime foi meu e o castigo só eu senti…

 

“Por que caímos, Mestre Bruce? Para aprendermos a nos levantar”

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