Divulgando o estranho mundo da ciência.

fevereiro, 2009

Acredito que exista um problema básico para a divulgação científica que poucas vezes é posto em evidência. O problema em questão é aceitar o fato de que o mundo em que o cientista vive, não é o mesmo mundo que as pessoas em geral vivem. Pode parecer uma idéia ingênua, mas o caso é que o mundo explicado pela ciência, não é de modo algum, o mundo do dia-a-dia. E este aspecto influencia diretamente na capacidade de um texto de divulgação científica cumprir o seu papel.

Há algo no treinamento do cientista que torna noções como o heliocentrismo, ou inércia, ou evolução biológica, tão naturais que são, de certa forma, aceitos a priori. Embora de alguma maneira as bases para isso estejam no nosso sistema educacional, nenhum destes conceitos são naturais para o senso-comum.

Alguém pode achar absurdo eu estar defendendo que em pleno século XXI, as pessoas não achem natural a Terra estar se movendo ao redor do Sol, mas o ponto que quero defender é que ninguém acreditaria que a Terra é quem se move não fosse o caso de dizermos isso a elas desde crianças.

E assumir isso não significa considerar que as pessoas, com exceção dos cientistas, sejam todas intelectualmente inferiores. Não é preciso sequer fazer um exercício mental para entendermos esta noção. Se tomarmos a física de Aristóteles como exemplo, vamos compreender perfeitamente que ela era, basicamente, uma tentativa elegante de explicar o que o senso comum daquela época, e das épocas anteriores a ela, e de muitas outras épocas posteriores, via.

Qualquer indivíduo nascido na Grécia antiga olhava para o céu, e observava que em um período relativamente regular de tempo uma enorme esfera luminosa ia de um ponto a outro do céu, desaparecendo completamente por outro período relativamente regular. Não há nada neste tipo de observação que nos diga intuitivamente que estamos viajando ao redor desta esfera luminosa. Antes disso, é perfeitamente natural supor que é a dita esfera quem atravessa o nosso céu e que, portanto, esta girando ao redor do lugar aonde vivemos.

Isso evidentemente não impediu que, na mesma Grécia antiga, alguns indivíduos considerassem que era o Sol quem estava fixo e a Terra é que se movia ao seu redor. Mas essa não é uma noção natural, e como tal foi amplamente refutada por uma série de argumentos que, sob nossa perspectiva atual, estão errados.

Um destes argumentos é que se a Terra estivesse se movendo, isso resultaria em uma espécie de “força contrária”, que iria arrastar tudo o que estivesse em sua superfície na direção oposta ao movimento. Essa noção é, mais uma vez, perfeitamente natural. Vemos isso desde crianças, quando colocamos algum objeto em cima de um carrinho de brinquedo, por exemplo, e o empurramos. Se o objeto não estiver de alguma forma preso, irá, dependendo da força com a qual o empurramos, cair.

A experiência nos diz que é o Sol quem se move ao redor da Terra por que é isso o que vemos, e é isso que sentimos. E embora o mundo moderno nos diga o contrário, passamos a maior parte da vida assumindo essas noções tão antinaturais por mera argumentação de autoridade. Pergunte a uma criança se é a Terra ou o Sol quem está se movendo, e ela vai dizer que é a Terra. Pergunte o motivo, e ela vai dizer que foi o professor quem disse.

Pode-se argumentar que com a progressão pelo sistema educacional, as pessoas passam dos conceitos simples para conceitos mais complexos, compreendendo finalmente o heliocentrismo, e o motivo de não estarmos todos voando para fora da Terra, a despeito da velocidade com que ela se move. Mas ainda assim, meu ponto persiste, as pessoas eventualmente aprendem o conceito, mas continuam vivendo em um mundo aonde eles não são naturalmente intuitivos.

De certa maneira, é como se os cientistas vivessem em um planeta vizinho ao das pessoas que não estão envolvidas diretamente com a atividade científica. E ao mesmo tempo, os diferentes tipos de cientistas vivem em continentes separados em seu próprio mundo.

Fazer divulgação científica é, seguindo na metáfora do parágrafo anterior, como oferecer material “turístico”. Mostramos imagens do nosso mundo, dizemos como ele se parece, seus cheiros, suas cores, as diversões e as partes ruins. Convencemos as pessoas de que aquele lugar existe, e é, apesar dos problemas, um bom lugar para se visitar.

O divulgador de ciência deve ter em mente essa separação. Não podemos ser ingênuos ou arrogantes a ponto de pensarmos que se uma pessoa não acredita em evolução das espécies, por exemplo, o faça por ser dogmática ou por não compreender o processo, ou por desonestidade. Por vezes, aceitar qualquer teoria científica pode significar uma transformação mais profunda, uma mudança de mundo.

Divulgação científica feita sem a noção de que seu trabalho é, por vezes, apresentar um mundo estranho, pode acabar não atingindo seu objetivo e, por vezes, pode ser até prejudicial.