Grandes colegas que nunca conheci

outubro, 2009

A Ciência é uma construção coletiva. Essa é uma grande verdade, mas temos que entender melhor o que isso quer dizer. “Construção coletiva” não significa que os cientistas trabalham em harmonia, que são todos super amigos que se abraçam pelos corredores dos laboratórios e trocam cartões de natal. Nada disso. Na verdade, não é raro existirem rixas entre os cientistas, que disputam ferozmente por prestígio ou por cargos de chefia nos departamentos das instituições em que trabalham. Claro que eles podem também trabalhar em equipe e formar grupos de pesquisa. Isso de fato acontece (eu mesmo faço parte de um!) e não deixa de ser uma forma de construção coletiva, mas não é a esse tipo de comportamento que nos referimos quando dizemos que a Ciência é uma atividade coletiva. A coletividade na Ciência é algo diferente, e ocorre num nível histórico. Expliquemos.

O primeiro passo de qualquer investigação científica, após a delimitação do tema da pesquisa, é o levantamento bibliográfico. Isso significa que antes de sair fazendo experimentos freneticamente por aí, o cientista (vamos chamá-lo de Dr. João?) tem que consultar as bases de dados, as bibliotecas e o bom e velho Google em busca de artigos de outros cientistas que já pesquisaram o mesmo tema ou temas parecidos. Depois de achar esses artigos, Dr. João tem que ler todos eles, e isso levará algumas semanas, talvez meses. Pode parecer que é muito tempo, mas a verdade é que, ao final de apenas algumas semanas, Dr. João vai ter uma boa noção de todo o conhecimento que a humanidade já produziu em toda sua história a respeito daquele assunto, e é a partir desse conhecimento que ele vai ter idéias de como fazer sua pesquisa. Ele não vai utilizar uma metodologia que um Dr. Pedro, 10 anos atrás, utilizou e viu que não é muito adequada. Ele não vai fazer uma pesquisa que o Dr. José já fez 150 anos atrás. Mais importante de tudo, o nosso Dr. João não vai sair do zero! Ele vai contar com todo um arcabouço de conhecimentos prévios a partir do qual ele pode construir conhecimentos novos, e o Dr. Leandro, daqui 5 ou 50 anos, poderá contar com os resultados das pesquisas do Dr. João para desenvolver as suas próprias investigações.

Assim, a maior contribuição para a pesquisa do Dr. João pode vir de um cara que mora no Azerbaijão e que ele nunca vai conhecer. Pode vir de um sujeito que já morreu há décadas, e isso é absolutamente normal. Marx será eternamente uma grande referência para os sociólogos, Newton sempre será importante na Física e a reviravolta que Darwin deu na Biologia é permanente. A Ciência é coletiva na medida em que as idéias e os métodos vão se acumulando e se transformando ao longo do tempo. Marx não seria Marx sem Hegel, Newton não seria Newton sem Descartes e Darwin não seria Darwin sem Lamarck.

Hoje tomamos antibióticos quando ficamos doentes, temos IPod Touch com internet WiFi e seqüenciamos o DNA dos organismos. Essas coisas jamais poderiam existir se, ao longo do tempo, vários cientistas não tivessem dedicado suas vidas ao estudo de coisas que hoje consideramos triviais, como a estrutura e funcionamento de uma célula ou a existência e as propriedades de uma onda. Hoje os físicos discutem sobre spins de elétrons e sobre núcleos que viajam no tempo (?!), mas isso só é possível por que lá nos idos da Grécia antiga alguém um dia imaginou que toda a matéria deveria ser formada por partículas elementares, e é aí que está a coletividade da Ciência: na história.

O empreendimento científico é histórico, e o reconhecimento desse fato muda a forma com que olhamos pra Ciência. Não podemos dizer que a Ciência de hoje é melhor que a Ciência de antigamente porque, não fosse o trabalho daqueles cientistas antigos (que hoje injustamente chamamos de “burros”, como Lamarck ou Dalton), ainda teríamos as mesmas dúvidas que eles tinham, ainda pensaríamos da mesma forma que eles pensavam e ainda faríamos as mesmas coisas que eles faziam.