LHC e a base da ciência.

setembro, 2008

Ontem entrou oficialmente em operação o maior instrumento científico já feito pelo homem. O Large Hadron Colider, ou simplesmente LHC, é um acelerador de partícula que, de tão grande, passa pelo subterrâneo de dois países, França e Suíça.

O aparelho vai ajudar à ciência em um entendimento mais apurado sobre os fenômenos quânticos  e os mistérios do início do universo. Tudo muito bacana, tudo muito bonito. É evidente a importância deste aparelho para o desenvolvimento do conhecimento humano. Mas além disso, é uma chance única para observarmos uma questão geralmente polêmica. A relação entre as ciências aplicadas e as ciências de base.

Área geográfica ocupada pelo LHC. Clique para ampliar.

Área geográfica ocupada pelo LHC. Clique para ampliar.

Willian Thomson, mais conhecido como Lorde Kelvin, foi um brilhante cientista inglês. O homem que deixou seu nome marcado em um sistema de medição de temperatura, também desenvolveu alguns trabalhos com a eletricidade e termodinâmica. Também foi a pessoa que cunhou o termo “ciência aplicada”. O termo é utilizado para diferenciar pesquisas que desenvolvem conhecimentos tão básicos que suas aplicações são incertas, das pesquisas que resultam em algum tipo de conhecimento, técnica ou dispositivo de aplicação evidente.

Essa separação acabou por gerar uma situação estranha. Algumas pessoas, e isso inclui alguns cientistas, defendem que qualquer pesquisa que não tenha aplicações imediatas, devem ser deixadas em segundo plano. Essa mentalidade muitas vezes chega às instituições de financiamento. Afinal, quem financia quer retorno e, neste sentido, é mais lógico investir em pesquisas aplicadas.

O que nem sempre se percebe é que as ciências aplicadas dependem das ciências de base, assim como as ciências de base dependem das aplicadas. E é aqui que voltamos ao LHC. Boa parte das pesquisas em física quântica estavam na dependência do funcionamento do acelerador de partículas. O caso é que algumas teorias fundamentais não podem ser testadas sem este aparelho.

LHC e seu tamanho monstruoso. Clique para ampliar.

LHC e seu tamanho monstruoso. Clique para ampliar.

Ao mesmo tempo, a tecnologia envolvida na construção do LHC só existe por conta de uma base teórica bem estabelecida. Uma comparação mais simples é a de que só se pode construir um telescópio quando se tem conhecimentos teóricos sobre ótica.

Desta forma fica evidente que investir em apenas uma destas linhas resulta em um beco sem saída. É importante termos esta noção. Aparelhos como o LHC são extraordinários e vão inevitavelmente resultar em um avanço fantástico nas pesquisas de base, mas para tal, é preciso compreender que não existem dicotomias aqui.