Liberdade de expressão ou liberdade de opressão?

fevereiro, 2012

Era uma vez uma época que você ia na biblioteca, pegava uma Barsa e fazia seu trabalho escolar sobre a Primeira Guerra Mundial. Nesta mesma época, você mandava cartas para a sua tia pelo correio e telefonava para seus amigos combinar o futebol no clube sexta-feira à tarde. Hoje, se você digitar no Google “Primeira Guerra Mundial”, ele retorna pra você aproximadamente 3.590.000 resultados, sua tia tem e-mail e te manda gifs animados piscantes irritantes e seus amigos fizeram um evento no facebook para combinarem de jogar Winning Eleven pela Live do Xbox 360.

Nesta época em que as comunicações se dão de maneira rápida, e você pode acessar quase qualquer assunto com uma pesquisa rápida na internet, as pessoas conseguem expressar suas opiniões para um público cada vez mais abrangente. Websites, Blogs, Facebook, Twitter, dentre outras tantas ferramentas, levam o que você pensa de algum assunto aos olhos de pessoas que vão desde família e melhores amigos até apenas conhecidos (ou mesmo desconhecidos).
Considero este um fenômeno espetacular. Duvido que eu tivesse uma visão crítica sobre o acontecimento em Pinheirinho, ou meramente soubesse do movimento “Occupy” se não fosse por tais estratégias (afinal, uma visão crítica de ambos não é algo que o Jornal Nacional ou a Veja expressariam, não é?). Entretanto, continuarei o texto de uma maneira controversa e que provavelmente desagradará muitas pessoas. Se eu pudesse pedir algo, seria um pouco de senso crítico sobre as nossas atitudes, e não uma crítica impensada ao texto. Enfim, retornando ao meu ponto principal: ao que parece, as pessoas estão confundindo liberdade de expressão com liberdade de opressão.

Como você usa a sua liberdade?

A questão não é o que você gosta, o que você acredita, o que você defende. É como você usa a presença de uma tela e um teclado para fazer isso de maneira ofensiva. Dificilmente num debate frente à frente as pessoas usam argumentos que visam ofender ou ridicularizar uma à outra. Não importa se são amigos ou conhecidos, em uma discussão você geralmente é polido, educado e apresenta uma cadência de explicações para seu ponto de vista. Na internet reconheço comumente a apresentação da tal cadência de explicações, entretanto, quando há uma opinião divergente, a recorrência ao “eu faço/falo/escrevo o que eu quiser, e se você não gosta o problema é seu” é surpreendentemente corriqueira, em geral substituindo a polidez e educação.
Eu absolutamente discordo com a censura nos meios de comunicação. E apoio totalmente a liberdade de se expressar quaisquer pontos de vista. Creio que todos que queiram devam ter um fórum de discussão para seus assuntos de interesse, e que ninguém deva ser impedido de falar que deveriam ser permitidos equipamentos com auto-falante nos transportes públicos, por mais que eu ache um absurdo ter que ouvir technobrega quando pego um ônibus. Entretanto, as comunicações virtuais não deveriam perder o caráter respeitoso que as comunicações pessoais se prezam tanto a ter. Frente à frente com uma pessoa você falaria algo como “eu falo o que quiser e ,se não quiser ouvir, deixe de ser meu amigo”? Ou “acho ridículo você ter uma opinião diferente da minha sobre este assunto”?

Não só para o caso dos blogs de divulgação, como o Thiago disse muito bem no seu texto, mas creio que toda a informação divulgada sofre o processo de auto-validação. Seja esta por meio de referências ao seu artigo, acessos num post, “curtidas” no facebook ou tapinhas nas costas, as pessoas buscam um reconhecimento (e principalmente, concordância) do seu ponto de vista. No entanto, para obter a validação requerida, o ponto de vista gerado deve atingir o maior número de pessoas possível, e de preferência, pessoas com pontos de vista divergentes do seu. Certo?

Tem certeza que você concorda?

Vai, te dou mais dez segundos para você refletir se realmente concorda comigo.

Debates ou concordância: o que você procura?

 Um texto espetacular do David McRaney mostra que você pode dizer que gosta de ouvir pessoas com pontos de vista diferentes do seu mas, na verdade, você só procura a aceitação dos seus argumentos, nunca a refutação ou contra-argumentação. E pior de tudo: quando suas crenças mais profundas são desafiadas, você as defende mais ferrenhamente e ouve menos seu debatedor. É o que o autor chama de “backfire effect”: assim como você constrói um escudo a partir de toda a informação que confirme suas idéias, você também acaba ficando cego a contra-argumentos. O “backfire effect” te faz menos cético às coisas que te permitem continuar a ter sua atual visão de mundo como boa, ética, verdadeira. (aliás, já disse que esse texto é espetacular? Já, não é? Pois digo novamente. Clique no hiperlink e vá lê-lo depois).

Com tudo que expus acima, fica fácil de entender o comportamento das pessoas em geral na internet. Há um tópico de discussão genérico em algum lugar da internet. Suponhamos que é sobre o ensino ou não da “teoria da evolução de Darwin pela seleção natural” nas aulas de biologia. A pessoa que postou é contra o ensino, porque acha que a teoria da evolução é balela. Você vai lá e argumenta como é uma teoria unificadora na Biologia, central para o entendimento da distribuição e adaptações dos organismos e etc. Em 90% dos casos, o que acontece? A pessoa reconhece que estava errada, que você tinha razão, e resolve fazer Biologia para entender mais sobre este conceito tão fundamental? Provavelmente não. Provavelmente ela vai criticar suas fontes, ridicularizar sua formação e, por fim, usar o tipo mais comum de argumento nesse tipo de situação: o argumento ad hominem.

O argumento ad hominem é uma falácia ocorrida quando alguém ataca o autor de uma proposição, ao invés do seu conteúdo. É um argumento sem base lógica, apelativo, no qual quem o usa pretende ridicularizar o autor a ponto de descreditá-lo. É na discussão acima citada usar um “você acha que é necessário ensinar esta teoria da evolução porque você é biólogo, e na sua faculdade eles ficam contando essas historinhas absurdas de como os seres vivos surgiram”

(E eu sei, meu exemplo foi meio absurdo, mas conheço várias pessoas que acham que a teoria darwiniana não deva ser ensinada, ou não deva ser a “única”. Acreditem se quiserem.)

Como numa receita de bolo, podemos pegar nossa tendência a refutar argumentos que vão contra nossa visão habitual de mundo, acrescentar uma dose do tão recorrente argumento ad hominem e, por fim, cobrir com a possibilidade de não ter que encarar seu interlocutor frente à frente, não precisando lidar com a inconveniência de um olhar ofendido ou desapontado. O que temos (sem precisar de muito tempo no “forno”) é a maioria das discussões por meios virtuais.

Gentileza gera gentileza

 Nas conversas pessoais, geralmente observo cautela para não se insultar o ouvinte. Você pode ser ateu, mas dificilmente ridicularizará sua avó acreditar em deus por ela rezar antes das refeições. Você pode ser esquerdista, mas dificilmente falará para alguém que você conhece superficialmente que as políticas dos partidos de direita são elitistas e só um idiota não perceberia. Você pode concordar com a ocupação da PM na USP, mas dificilmente chamará de “maconheiro sem-vergonha” o seu colega de sala que discorda da sua opinião. Você pode se preocupar com o excesso de lixo produzido pelo ser humano, mas dificilmente parará a pessoa no caixa ao seu lado no supermercado e aplicará um sermão hostil sobre quantas sacolinhas plásticas ela está levando para casa. Você pode não concordar com o uso de pele de animais na confecção de roupas, devido ao sofrimento que eles podem sofrer no processo da obtenção da matéria prima, mas dificilmente discursará para cada pessoa com uma bota de couro que vê na rua sobre como o couro é produzido.

(Para esclarecer, os exemplos acima são hipotéticos e podem não expressar minha opinião direta sobre quaisquer dos temas).

Entretanto, vejo atitudes diferentes quando o meio de comunicação ou expressão pessoal é a internet. Cada vez mais vejo imagens ofensivas, textos rasos e extremistas, xingamentos generalizados a quem toma certo partido em determinado tema, dentre outros. Todos têm em comum o escudo do “eu posso me expressar como eu quiser” como se isso os isentasse de quaisquer mágoas que pudessem gerar. Não isenta. É tão importante gritar sua opinião de maneira ofensiva quando você pode ser gentil? Ainda mais se levarmos em consideração que a gentileza geralmente deixa as pessoas mais propensas a ouvir o que você tem a dizer e mesmo propagar sua ação?

Mais amor, por favor?

Há diversos textos sobre como as pessoas se distanciam dos relacionamentos pessoais utilizando um local físico por poderem ter um local virtual para tais relacionamentos, no conforto do seu pijama, em casa, sem se apertar numa roupa desconfortável para ficar mais apresentável. Mas creio que outro problema que está surgindo neste distanciamento físico é o concomitante aparecimento de um distanciamento emocional, propiciado pela ausência das conversas em tempo real, usando como máscara um teclado com o qual você pode escrever o que quiser, sem se preocupar em ter que lidar com o olhar da contraparte, avaliando e respondendo de pronto o que você diz. Se decepcionando e magoando. Se enfurecendo e ofendendo. Refletindo e questionando. O monitor à sua frente pode diluir a preocupação em ser gentil, em se fazer entender, em se preocupar se a pessoa vai levar em consideração o que você diz. O computador pode tornar sua liberdade de expressão em liberdade de opressão, de ofensão, de insultação. E você é livre para oprimir, ofender e insultar. A questão é: você deve fazê-lo apenas porque pode? E do que sua opressão vai adiantar, além de levar seu ponto de vista a pessoas que já concordam contigo, ao invés de levar um público diferente a refletir suas atitudes?