O IgNobel não é o Framboesa de Ouro

outubro, 2008

 

Nos últimos dias os brasileiros que acompanham o noticiário e que não conheciam o Prêmio IgNobel de Ciência definitivamente agora sabem pelo menos que ele existe: é que saiu em todos os cantos que um cientista brasileiro foi agraciado com a honraria na área de Arqueologia, com seu trabalho a respeito do fato de que tatus podem bagunçar as camadas de sedimentos em sítios arqueológicos, confundindo a identificação correta de cada estrato à sua idade relacionada.  Provavelmente esses mesmos brasileiros que acompanharam o noticiário recentemente também acompanharam a entrega de outro prêmio satírico: o Framboesa de Ouro, que ironiza o Oscar. Este último trata de esculhambar atuações muito ruins de celebridades que ganham muito dinheiro – “honrando anualmente o que Hollywood tem de pior a oferecer”.

O problema é que o IgNobel, mesmo sendo uma premiação satírica, não é um Framboesa de Ouro. Segundo a organização responsável por sua entrega, a Improbable Research, e como bem protestou o Carlos Hotta, do blogue Brontossauros em Meu Jardim, o IgNobel é apenas uma maneira divertida de trazer a atenção para a ciência – e não uma forma de desmerecê-la.  Uma das idéias da Improbable Research é fazer com que as pessoas discutam, ainda que indiretamente, questões relativas à Filosofia da Ciência, por exemplo, ao questionarem a suposta utilidade de uma pesquisa ou a relevância de uma descoberta. Infelizmente grande parte daqueles que veiculam as notícias a respeito do IgNobel ignoram o propósito benéfico da organização e apenas usam a parte divertida para chamar a atenção do público. Essa parte divertida é o que os organizadores do IgNobel fazem melhor: eles transformam os títulos dos trabalhos premiados, normalmente difíceis de serem interpretados por leigos, em manchetes esdrúxulas. Um trabalho entitulado (livremente traduzido) “Novo método de produção de polifenol vegetal a partir de excremento bovino utilizando reação de água subcrítica” faz a gente rir? Já quando “traduzido”…(vencedor do Ignobel de Química, Mayu Yamamoto, por desenvolver um jeito de extrair sabor e fragrância de baunilha de bosta de vaca).

Os pesquisadores Osamu Shimomura, Martin Chalfie e Roger Y. Tsien, dividem o mérito de terem desenvolvido uma proteína verde fluorescente.  Que prêmio vocês acham que eles receberam? O IgNobel? Pense de novo.

Links e Referências:

Notícias sobre o brasileiro que ganhou o prêmio IgNobel 2008 de Arqueologia: aqui, aqui e aqui.
Trabalho original do arqueólogo brasileiro: The role of armadillos in the movement of archaeological materials: An experimental approach. Astolfo G. Mello Araujo & José Carlos Marcelino. Revista Geoarchaeology, abril de 2003, vol. 18, número 4, páginas 433-460.