O ringue oculto dos cientistas e a falsa democracia

outubro, 2009

Atualmente aclamamos a democracia como a melhor forma de governo para as sociedades humanas, e não olhamos com bons olhos aqueles que defendem ditaduras ou monarquias. De fato, já que o governo deveria atender os interesses do povo, nada melhor, na teoria, do que um regime governamental em que os cidadãos tenham voz e participação nas decisões, não só podendo elecroger seus representantes, mas também reivindicando que esses governantes garantam a melhor qualidade de vida possível para a população. A democracia, entretanto, tem um pequeno viés: depender, por assim dizer, da participação popular. E se o povo for passivo, acrítico e não se interessar por participar das decisões políticas de sua cidade/estado/país? Se isso ocorrer, a democracia pode se aproximar dos temidos regimes ditatoriais, já que as decisões tomadas pelos governantes não serão questionadas e não haverá resistência por parte da população. Dessa forma, para o bom funcionamento da democracia é fundamental que os cidadãos sejam impelidos e incentivados a serem participativos na sociedade. A conscientização da importância de participar deve ocorrer, entre outros lugares, na escola – o que está, inclusive, previsto por lei.

O leitor deve estar pensando “Tá… Muito bonito, mas o que isso tem a ver com Ciência?” Peço calma aos senhores! Há uma relação bastante direta, embora pouco óbvia, entre o bom funcionamento do regime democrático e o entendimento adequado da natureza da Ciência. Chegaremos lá.

Como sabemos, a Ciência é uma construção histórica. Longe de ser neutra e pacífica, a Ciência é permeada por conflitos de diversas naturezas. A Ciência pode conflitar com os interesses e crenças da sociedade (como exemplo, podemos citar o alvoroço causado quando Darwin apresentou sua Teoria da Evolução por seleção natural) e tem, claro, seus embates internos. Os conflitos internos ocorrem em diversos níveis. Um deles é o embate de idéias entre os cientistas, que ocorre intensamente, dia após dia, paper após paper, por causa das diversas interpretações possíveis que um mesmo conjunto de dados pode ter. Às vezes esses conflitos de idéias geram grandes mudanças de paradigma na Ciência, como Kuhn entenderia. Outra forma de conflito na Ciência – uma forma um pouco mais velada, que os cientistas não gostam muito de admitir – é o conflito entre as áreas do conhecimento ou entre cientistas individuais por prestígio. A vontade de trazer cientistas capacitados para sua área de pesquisa ao invés de outras, ou a pretensão de persuadir a comunidade científica de que determinado ponto de vista é mais adequado pode ser um grande aditivo motivacional para os cientistas que, nesses casos, vêem os outros cientistas como “competidores” que devem ser ultrapassados. Não podemos esquecer ainda dos caminhos metodológicos, que estão sempre em constante discussão. Definitivamente, “consensual” não é um dos adjetivos que se pode dar à Ciência.

O ponto principal é que todas essas formas de conflito, longe de constituírem “pontos fracos” que devem ser evitados, são a força motriz da Ciência. É esse interminável embate de idéias e de interesses que faz a Ciência progredir. Tire o conflito da Ciência e tenha uma Ciência estagnada, imóvel, que não se desenvolve – uma Ciência que beira a inutilidade.

A centralidade do conflito para o desenvolvimento da Ciência (não esqueçamos que o conflito também é central para o desenvolvimento da sociedade, como observaria qualquer historiador razoável – “A história do homem é a história da luta de classes”, como diria um historiador bastante razoável) é um fato, e um fato que não deveria ser escondido de ninguém. Entretanto, a Ciência que é apresentada aos alunos nas escolas é bem diferente dessa Ciência conflituosa da qual acabamos de falar, e isso pode ter conseqüências que vão muito além dos muros da escola.

A Ciência escolar de hoje deixaria August Comte (“o pai do Positivismo”) muito orgulhoso, pois mostra a Ciência como neutra, objetiva e livre de quaisquer tipos de pré-conceitos por parte dos cientistas. Nunca é mostrado que existem posições diferentes na Ciência ou, quando é, são apresentados critérios “objetivos” que sempre convencem os cientistas de que um lado está correto e o outro não está. Essa teoria consensual de Ciência que é apresentada aos estudantes os impede de perceber como as discordâncias e as controvérsias são elementos importantes para a construção de conhecimento.

Essa ocultação da importância do conflito força os alunos a interiorizar a perigosíssima noção de que o conflito é algo ruim. Essa concepção falaciosa é reforçada pelo currículo das outras disciplinas e pela organização da escola como um todo, e o resultado da exposição covarde dos alunos por anos a fio a esse ideário tendencioso só pode ser um: uma escola que forma alunos (cidadãos!) que acham que o conflito é algo que deve ser evitado para que a sociedade prospere. Em outras palavras, o não entendimento de que a Ciência progride pelo conflito pode contribuir para a formação de cidadãos passivos e acríticos, com ares de quietismo político e aceitação.

Ora, acabamos de comentar que o bom funcionamento de democracia depende da participação popular. Se a escola forma cidadãos que pensam que a sociedade progride por meio da “paz” (entendida como ausência de conflito), então podemos prever que a democracia não vai funcionar adequadamente, e basta abrirmos qualquer jornal para constatarmos que realmente não está. Quem vê o conflito como algo ruim não vai querer participar das decisões políticas da sociedade, e quando o povo não faz questão de participar, a democracia falha. Essas falhas, como bem sabemos, prejudicam principalmente as classes mais pobres que, ao mesmo tempo em que são as que mais devem reivindicar participação, são as que estudam nas piores escolas. Um ciclo vicioso se forma, e a distribuição de poder na sociedade permanece inalterada.

É função da escola apresentar a Ciência de forma adequada aos estudantes. Também é função da escola ensinar História, Geografia, Matemática, Português e todas as outras matérias de forma adequada. Mas adequada para quem? Se for adequada para os alunos, então, considerando o que foi discutido, ensinar Ciências (ensinar de verdade!) chega a ser um ato revolucionário. Formar alunos que entendam a natureza e o funcionamento da Ciência pode contribuir para o estabelecimento de uma sociedade mais justa, democrática e participativa, pelo simples fato de que esses cidadãos terão compreensão da importância do conflito para o progresso da Ciência e da humanidade.

Gostaria de finalizar esse ensaio deixando bem claro que conhecer a natureza da Ciência não garante de forma alguma que os cientistas sejam politizados e participativos na sociedade. Como eles só aprendem a importância do conflito depois de alguns anos na academia, após terem passado mais de 15 anos incorporando os valores de uma escola castradora, fica difícil entender que não é só na Ciência que o conflito é importante. Fazer essa transição é muito difícil. A burguesia agradece.

“O Estado é um instrumento da classe dominante para se manter enquanto classe dominante.”  – Karl Marx