O terceiro mundo de Karl Popper

janeiro, 2009

Karl Popper foi um grande filósofo austríaco bastante conhecido por sua contribuição para a filosofia da ciência. Foram suas idéias que fundaram o racionalismo crítico, que estabelece como critério de demarcação o princípio da falseabilidade. Em uma de suas contribuições mais geniais para a epistemologia, Popper comenta um pouco sobre seu conceito de conhecimento objetivo, e o terceiro mundo.

No texto clássico de seu livro de 1972 “Conhecimento Objetivo: Uma abordagem evolucionista”, Popper faz um exercício interessante. Propõe a existência de três mundos. O primeiro mundo é habitado por todas as coisas físicas, vivas ou não vivas. O segundo mundo é habitado pela consciência humana, “é o mundo da consciência ou dos estados mentais”, nas palavras do próprio Popper.

O terceiro mundo é habitado por conteúdos objetivos. Por conteúdo objetivo, podemos entender todo pensamento objetivo sobre algo, obras de arte, poesia, livros, conhecimento científico e por aí vai. Deste ponto em diante, é possível não só diferenciar um pensamento subjetivo de um pensamento objetivo, mas é também possível concluir uma independência do terceiro mundo.

Karl Popper

Karl Popper

Para Popper, um pensamento subjetivo é aquele ligado à estados mentais ou uma determinada disposição de agir. São, portanto, habitantes do segundo mundo. No terceiro mundo estão os problemas, teorias e similares. Uma vez propostos, este conhecimento objetivo ganha materialidade através de alguma mídia, como livros, e isso garante a eles sua independência.

Se pensarmos na situação hipotética de uma catástrofe mundial, ou um holocausto, destruir todos os seres humanos, todas as nossas máquinas, cidades e traços de nossa civilização, sobrando no entanto nossas bibliotecas, é possível prever que uma futura civilização, não importando sua origem, poderia em tese ser capazes de decifrar nossos livros, acessando o terceiro mundo.

Veja que neste sentido, Popper considera muito mais importante a capacidade que um livro, ou um vídeo, ou um áudio, tem de ser interpretado do que o fato de ele ser realmente interpretado. Com efeito, ele defende que a maioria das pessoas não é capaz de fazer uma correta interpretação de um texto, seja o conteúdo deste texto ficcional ou não. É uma afirmação o bocado forte, e potencialmente verdadeira até hoje.

A beleza nesta idéia do filósofo austríaco é a maneira como o conhecimento, que as vezes nos é tão etéreo, ganha uma substancialidade quase real. Na analogia em que ele mesmo faz, assim como as aranhas produzem sua teia e as abelhas sua colméia, assim também produz o homem o conhecimento.

E quando não mais houver abelhas, ou aranhas, ou o homem, ainda haverá o traço de sua existência. Seja pela teia, pela colméia ou pelo terceiro mundo.