Open Acces e o próximo passo

maio, 2012

Acaba que nos últimos meses o movimento do Open Acces ganhou tração. Mais do que isso, ganhou apoio de uma comunidade que aparentemente começa a sentir o peso de se deixar escravizar por uma indústria.

Precisou, é claro, que um pesquisador respeitado e premiado colocasse “o dele na reta” pra fazer com que o resto do pessoal que também se sentia abusado pelos publishers saíssem do armário e começassem a agir de alguma maneira.

O cenário atual é bastante otimista. Entre abaixo assinados, projetos de lei abandonados no Senado Norteamericano e uma comunidade que decidiu falar de suas mazelas, começam as discussões sobre qual a melhor maneira de seguir em frente agora.

O acesso livre a trabalhos científicos deixou de ser uma ideia bacana e passou a ser uma realidade necessária e iminente. Apesar de toda essa transformação, que era de fato inevitável, é preciso ter em mente que estamos falando muito mais da conquista de um direito do que de uma revolução propriamente dita.

É necessário deixar a empolgação de lado e ver as coisas pelo que elas realmente são. O acesso livre é, antes de qualquer coisa, um direito mínimo necessário para uma ciência que não vive mais no século XIX. É, até certo ponto, uma conquista análoga ao direito de voto das mulheres, ou a outras conquistas pretendidas por qualquer sociedade que não seja medieval, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a legalização do aborto.

De novo, é muito mais a conquista de um direito do que uma revolução. Aliás, é outra coisa também. É um requisito mínimo para que a chamada “Ciência 2.0” possa sair do mundo das ideias e das “catchphrases” e passe a ser considerada de fato como uma outra maneira de se fazer ciência séria.

Ciência 2.0
Sim, Ciência 2.0 tem a ver com Web 2.0, mas é maior do que a simples ideia de compartilhar ciência por ferramentas Web 2.0. É preciso ir além das redes sociais e páginas interativas e entender que a questão central é a democratização (ou descentralização, como defende nosso caro Augusto de Franco).

Uma Ciência que se pretende ser 2.0 deve ser acessível em todos os seus níveis, a qualquer um. Isso significa ir além da questão do acesso livre aos resultados das pesquisas científicas, há também que se abrir as portas dos laboratórios e derrubar as paredes dos centros de pesquisa e desenvolvimento.

Essa ideia sozinha já demonstra como a conquista do acesso livre é, de certa forma, extremamente primária. Apesar de se permitir o acesso ao conhecimento científico de forma mais simplificada, ainda estamos lidando com artefatos que apesar de digitais possuem a mesma dureza do objeto físico.

O que defendo é que não há lugar na “próxima ciência” para um processo de construção de conhecimento que seja rígido e hierarquizado. Pense mais em Wikipédia e menos em Enciclopédia Britânica.

Pense mais na plasticidade de um sistema orgânico e menos na rigidez do papel e da tinta e das prensas.

Faça você mesmo.
É claro que uma mudança deste nível não pode vir da comunidade científica. É como acreditar que um paradigma possa se transformar em outro, o que como bem dizia Thomas Kuhn, não acontece.

Não se pode esperar que a comunidade científica decida abrir as suas portas. Não se pode esperar que a mudança venha de cima. Não se pode esperar que uma comunidade completamente convencida da capacidade de seu status quo decida mudar completamente da noite pro dia.

Por isso é preciso olhar para o que cresce ao redor dessa ciência hierarquizada e fechada dos dias de hoje e procurar o que é que tem os mesmos objetivos mas funciona de maneira essencialmente diferente. Se eu tivesse que apontar um candidato hoje, certamente apontaria o movimento DIY Science.

Não que o pessoal do DIY Science seja completamente desligado do modus operandi da ciência tradicional, mas trata-se de uma comunidade essencialmente desconectada de todo aquele maquinário burocrático que cientistas de “carreira” devem se preocupar, o que se por um lado torna a coisa toda mais “amadora”, também permite a construção de uma cultura geral mais flexível e livre.

Veja que essa aura “amadora” não é necessariamente uma coisa ruim, apenas indica a falta de uma organização profissional tradicional, com hierarquias e cargos e regras rígidas e por aí vai. Importante notar que muitos dos heróis da ciência moderna eram em sua essência amadores, pessoas que usavam seu tempo livre para se dedicar ao processo que hoje chamamos de ciência mas que à época era só uma maneira bastante custosa de matar a própria curiosidade.

Curioso então notar que parece haver no mundo essa tendência do resgate de uma cultura antiga que se transforma por causa da tecnologia. Marshall McLuhan dizia que a cultura eletrônica resgatava a plasticidade da comunicação exclusivamente falada das sociedades tribais ao mesmo tempo em que mantém a abrangência e resiliência da cultura tipográfica.

A Ciência 2.0 e a DIY Science parecem seguir por um caminho similar. Ao mesmo tempo em que mantém a capacidade investigativa da ciência moderna, resgatam o amadorismo apaixonado da ciência emergente do passado e com isso rompem com a rigidez da ciência tipográfica sem perder as qualidades desta.

Ode ao caos.
Evidente que romper com a rigidez tipográfica produz um certo caos de ideias que não é para os de coração fraco. De novo, pense em Wikipédia e nos problemas que um sistema livre como este acaba cultivando.

Digo problemas por que sou filho de uma cultura que tem a necessidade louca de classificar tudo de forma rígida, mas este é um valor que a Web 2.0 parece não dar lá muita atenção e, prevejo, essa Ciência 2.0 também deve seguir por aí.

Quer dizer, “no meu tempo” falávamos da árvore da vida, hoje ela já se parece mais com um círculo e quem sabe quanto tempo até ela virar uma rede da vida?

Por outro lado este mesmo caos permite o surgimento de soluções diversas para resolver problemas comuns. Nada disso vem sem que se perca algo, no entanto. Olhemos para Thomas Kuhn novamente e para a maneira como ele coloca o avanço da ciência. Não se trata do acumulo constante de conhecimento, mas do crescimento da nossa capacidade de resolver problemas.

Já dizia Kuhn que trocar de paradigma é também perder a capacidade de resolver alguns problemas que o paradigma anterior resolvia, mas ao mesmo tempo, abrir a possibilidade para encontrar mais respostas do que seríamos capazes anteriormente.

Seja como for, não vivemos em um mundo binário. O crescimento da Ciência 2.0 não significa a morte da ciência que temos hoje, assim como Einstein não matou Newton. Trata-se apenas de olhar para a imensidão do universo com telescópios que possuem lentes ligeiramente diferentes.

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