Os mistérios da ciência.

setembro, 2009

Recentemente li dois artigos que, embora já tenham uma certa idade, possuem um conteúdo bastante interessante. Os artigos que podem ser encontrados aqui e aqui tratam basicamente sobre a imagem pública da ciência. O que me chamou a atenção é que ambos, em algum momento, alegam que a ciência construiu pra si mesma uma aura mística.

A afirmação me causou imediato espanto. Sempre ouvi que é próprio da ciência tentar se afastar do místico, buscando sempre a verdade. Com efeito, a ciência de fato alega que trabalha com o mundo real, com fatos, com verdades que podem ser alcançadas sem artifícios mágicos ou sobrenaturais.

Mas pensando bem sobre o assunto, será que a ciência passa mesmo esta imagem de trabalhar sobre um “mundo real”? Ora, qualquer cientista sabe e sustenta que a ciência não vive de dogmas, ou seja, todo o conhecimento científico esta sujeito a revisão. Embora isso seja completamente compatível com a idéia de um “mundo real” para o cientista, para o público em geral talvez não seja bem assim.

Quantas vezes não vemos pessoas reclamando sobre as constantes mudanças no conhecimento científico? Seja pela cafeína que hora faz bem, hora faz mal. Seja por planetas que deixam de ser planetas. Seja pelo aquecimento global que hora existe, hora deixa de existir.

Me parece real a idéia de que a ciência opera de formas misteriosas. E o que estamos fazendo a este respeito? Muito pouco acredito eu. A divulgação científica hoje em dia consiste muito mais em explicar conceitos e teorias, e muito menos em explicar a própria ciência e seu fincionamento.

Se é papel da divulgação científica diminuir o hiato entre ciência e sociedade, por que nos esforçamos tanto em explicar conhecimentos que, sabemos todos, são passageiros? Talvez fosse mais produtivo dedicar mais tempo e esforço explicando o que é ciência e como ela funciona. O problema, e pra mim isto é bastante óbvio, é que é muito mais difícil explicar a ciência.

A dificuldade esta relacionada, claro, com a natureza extremamente complexa da própria atividade científica. Mas não só. Quantos são os cientistas que param um só segundo para pensar sobre seu próprio trabalho? Quantos se interessam em estudar, ainda que sem muito rigor, a história de sua própria atividade? Há ainda os tantos e tantos cientistas que, inflados pela sensação de serem mais importantes do que realmente são, se recusam a aceitar que a ciência é uma expressão cultural como outra qualquer.

Fazer divulgação científica apenas trabalhando com conceitos e teorias, é o mesmo que esperar que alguém que só teve contato com meia dúzia de letras produza um livro completo.