Como se sabe, o essencialismo, uma filosofia creditada a Platão (428 a.C. – 347 a.C.), mas que provavelmente o antecedia, permeou o pensamento científico ocidental por mais de 2000 anos. O essencialismo foi uma das grandes barreiras que Darwin teve que enfrentar quando propôs sua teoria da evolução por seleção natural. Alguns estudiosos de Darwin acreditam que esse paradigma foi um obstáculo mais difícil de transpor do que as próprias idéias religiosas, que já estavam perdendo credibilidade há algum tempo por causa de outras descobertas científicas.
Ás vezes é dito que Darwin acabou com o pensamento essencialista. Ele certamente o abalou, ao demonstrar que essa filosofia não dá conta de explicar a origem e evolução das espécies sem tropeçar nas diversas evidências paleontológicas e geológicas que estavam aflorando em sua época. No entanto, o essencialismo não se restringe à Ciência. Ele é muito mais amplo do que isso.
O essencialismo postula que todas as coisas têm uma essência que é imutável. No campo da Biologia, isso significa que todas as espécies têm uma essência fixa e eterna; todos os coelhos têm a essência do coelho, ou seja, eles têm um conjunto de características que nos permite distingui-los como coelhos, apesar de alguns serem mais peludos ou maiores do que os outros. As pequenas diferenças entre os indivíduos das espécies eram facilmente explicadas porque a “essência ideal” era inalcançável, ela só existia no plano das idéias (de Deus), de forma que cada coelho seria apenas uma representação imperfeita desse modelo ideal. Cada indivíduo tinha uma imperfeição diferente em relação à essência perfeita (de Deus), logo, os indivíduos podem ser diferentes mesmo tendo todos a mesma essência. Darwin quebrou esse pensamento ao demonstrar que as espécies mudam ao longo do tempo. Se as essências são fixas, como poderiam as espécies mudar?
No entanto, o essencialismo continua aí. Essa história toda de “essência ideal” feita por Deus pode parecer meio absurda nos dias de hoje, mas para esclarecer as coisas basta pegarmos um exemplo mais próximo, como, por exemplo, uma cadeira.
Todas as cadeiras têm uma mesma essência: são objetos elaborados para nos sentarmos. Existe uma grande variedade de cadeiras. Desde banquinhos de plástico até poltronas reclináveis, desde assentos num ônibus até cadeiras de dentista, não importa, todas elas servem para a mesma coisa. Todas têm a mesma “essência ideal”, criada pelo homem, mesmo que difiram na cor, no tamanho ou no revestimento. Dessa forma, quando eu falo “cadeira”, todo mundo entende do se trata.
Sim, eu sou essencialista, e você também é. Toda vez que pegamos um conjunto de características e o extrapolamos, criando uma categoria onde inserimos coisas ou pessoas, somos essencialistas. Somos essencialistas quando falamos sobre “os muçulmanos”, “as pessoas de esquerda” ou até mesmo “a minha família”, pois ao fazer isso, estamos criando categorias a partir de características que acreditamos compartilhar com nosso interlocutor e estamos incluindo muitas pessoas nessa categoria, mesmo sem conhecer todas elas. “Os corintianos são bandidos” é uma típica frase essencialista – e preconceituosa.
E ser essencialista é ruim? Bom, se você estiver tentando entender a teoria da evolução, isso pode te atrapalhar. Mas parece que o essencialismo faz parte da lógica de nosso pensamento. Tente raciocinar sem criar categoria; é impossível! O pensamento tipológico é uma materialização da filosofia essencialista. Claro que essa tendência a pensar criando categorias (tipos) também favorece o desenvolvimento de preconceitos, já que “os negros”, “os judeus” e “as mulheres” formam categorias tão bem quanto “os talheres”, “os vizinhos”, “os países industrializados” ou “os meus amigos”.
Algumas pessoas defendem que a religião é um “contra” da nossa capacidade de imaginação. Talvez os preconceitos contra grupos inteiros que mal conhecemos sejam um “contra” da nossa forma lógica de raciocinar. Não sei, isso é só especulação, mas, ironicamente, parece que a única coisa imutável no essencialismo é ele mesmo. Talvez pensar de forma essencialista esteja na essência do homem.
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É curioso ver como correntes filosóficas afetam a ciência desde sempre.
O próprio período da Revolução Científica (aquela, do século XVII) é tido como o "abandono" do aristotelismo. Em geral, os historiadores da ciência assumem que Galileu e Kepler bateram de frente justamente com este problema, já que a física destes dois homens era extremamente matematizada e ia contra Aristóteles.
E ainda hoje escuto cientistas dizendo que filosofia e ciência não possuem relações diretas e que filosofia da ciência não tem propósito ou serventia…
A negação da importância das correntes filosóficas na Ciência faz muito sentido quando se tem a idéia de que a Ciência é, ou deveria ser, um empreendimento neutro. Quem é neutro não se deixa levar por interferências externas, ainda mais filosóficas, afinal, Ciência é uma coisa e Filosofia é outra, não é?
Me parece que ao defender essa tese, reforça-se a idéia de que a Ciência dos dias de hoje está também livre de interferências de qualquer tipo, especialmente filosóficas. Quando o próprio cientista acredita que a Ciência é neutra, coisa boa não vem.
"Se as essências são fixas, como poderiam as espécies mudar?"
Ai que está! O raciocínio que pretende rechaçar o essencialismo é circulatório. Ora, está pressupondo a ordem que vislumbra, ou seja: o que deseja concluir. Esse é o problema de vocês, evolucionistas. Não sou teísta, mas aceito a concepção fixista; não vejo qualquer problema nesta visão. As espécies realmente não mudam; em qualquer lugar que houver vida, lá estarão os mesmos organismos que conhecemos.
Wow, essa é uma afirmação um tanto forte não?
Se "em qualquer lugar que houver vida, lá estarão os mesmos organismos que conhecemos", isso inclui as espécies extintas? Como dinossauros, trilobitas, mamutes, preguiças gigantes, tigres dente-de-sabre?
Se não, como explicar o registro fóssil pelo fixismo?
Se sim, como explicar fenômenos como as espécies em anel?
Na sentença "Se as essências são fixas, como poderiam as espécies mudar?", eu parti do pressuposto de que as espécies mudam ao longo do tempo, sim. Mas acredito que existam evidências mais do que suficientes para acreditar que elas realmente mudam. É só dar uma olhada no registro fóssil.
Talvez o problema esteja na escala de tempo. Nós, com sorte, vivemos 100 anos. Em 100 anos, é claro, não vemos nenhuma espécie mudando. Nem que vivêssemos 1000 anos veríamos. É bastante difícil imaginar o que são 100 milhões de anos, e eu acredito que essa uma das razões pelas quais muita gente rejeite o evolucionismo.
No final do capítulo 6 de "O Relojoeiro Cego", Dawkins dá uma explicação bastante plausivel (e evolutiva) sobre porque temos tanta dificuldade em entender essa escala temporal e as probabilidades das mudanças evolutivas acontecerem. Vale a pena conferir, Marcelo.