Kuhn, Einstein e os neutrinos mais rápidos do mundo.

setembro, 2011

As duas últimas semanas vêm sendo bastante agitadas para a Física moderna. A razão é a alegação feita por um grupo de cientistas europeus de que neutrinos foram pegos em flagrante se movendo 0.00025% mais rápido do que a velocidade da luz.

Como bem lembra o colega blogueiro Dulcidio Braz, partículas que se movem mais rápido que a luz não são exatamente novidade, nem resultam em grande polêmica. O que realmente surpreendeu os cientistas é que tais neutrinos parecem estar se movendo mais rápido que a luz NO VÁCUO, o que cria uma situação um tanto embaraçosa.

Embaraçosa por que de acordo com a teoria da relatividade, que é a pedra fundamental de toda a física moderna, NADA deveria se mover mais rápido do que a luz no vácuo, o que nos deixa com duas possibilidades plausíveis: 1) as medições estão incorretas e os neutrinos estavam se movendo a velocidades esperadas ou 2) Albert Einstein está ENGANADO.

Apesar da minha ênfase no “enganado” na frase anterior, não há de fato nada de surpreendente em nenhuma das duas alternativas. Medições erradas acontecem com frequência e cientistas famosos (ou mesmo os não tão famosos), em geral, não sobrevivem ao teste do tempo. Enfim, não sou físico e vocês deveriam ler uma seleção melhor de artigos de divulgação  sobre o assunto e seus possíveis desdobramentos.

O que eu quero de fato é aproveitar a oportunidade pra abordar essa questão toda do ponto de vista da filosofia de Thomas Kuhn e mostrar que a despeito das críticas que Kuhn sofreu e ainda sofre, sua filosofia pode sim ser usada para melhor compreender a comunidade científica e, em muitos casos, prever o comportamento que está irá tomar.

Vocês não conseguem ver, mas há um neutrino se movendo mais rápido que a luz nesta imagem.

Kuhn 101
Antes de tudo é preciso lembrar rapidamente a essência da filosofia de Kuhn. Thomas Kuhn era americano e físico. Após o doutorado ainda em física, se viu dando aulas em história da ciência. O contato com a ciência sob uma perspectiva histórica, sobretudo com a influência dos trabalhos de Alexandre Kouré, acabou por levar Kuhn a interpretá-la não como uma atividade estritamente racional, mas sim como uma atividade permeada por contextos sociais que acabavam por influenciar a pretendida racionalidade científica.

Em outras palavras, o que Kuhn acabou por defender é que a tese de que a ciência se fazia através de um método rígido, racional, incondicionalmente neutro e asséptico não se sustentava historicamente. O que acontece de fato é que há toda uma dinâmica social subjetiva muito presente nas comunidades científicas, e essa dinâmica esta intimamente ligada com o desenvolvimento científico.
Kuhn então formulou seu famoso conceito de revoluções científicas (e que não está diretamente ligado à grande Revolução Científica do século XVII). Para Kuhn a ciência passa por fases cíclicas (por isso o termo revoluções, de revolver, dar uma volta) e que pode resultar na substituição de uma teoria por uma nova, ou na mudança fundamental da própria ciência.

A estrutura proposta por Kuhn para as revoluções científicas (ahá!) é a seguinte: a ciência em geral se encontra em um período conhecido como ciência normal, aonde um paradigma (que em sua forma mais básica é o equivalente a uma teoria, mas também pode ser todo o conjunto de metodologia de trabalho e linguagem, um modelo de mundo, de uma comunidade científica) é tido como bem estabelecido e usado amplamente, ainda que tenha certos limites para a sua aplicação.

Historicamente, todo paradigma passa, com o tempo, a acumular resultados e evidências que o contradizem, as chamadas anomalias. Eventualmente as anomalias afetam a credibilidade do paradigma vigente, o que resulta na proposta de novos paradigmas para substituí-lo. Neste ponto entramos na fase de ciência extraordinária, em que a comunidade científica em questão entra em uma espécie de crise de meia idade e passa a rediscutir a si própria. Por fim, temos a substituição do paradigma antigo pelo novo e o estabelecimento de uma nova identidade para aquela comunidade científica, o que encerra o período de ciência extraordinária e marca o retorno do período da ciência normal.

Esta revolução em geral leva algum tempo (gerações por vezes) e levanta grandes disputas e controvérsias. É um processo doloroso por resultar no abandono de parte do conhecimento tido como adquirido em prol da possibilidade de se encontrar soluções para mais problemas ou para problemas mais fundamentais. É também um processo historicamente inevitável.

Thomas Kuhn se movendo mais rápido que a luz na foto???

 

O que aconteceu ao paradigma mais famoso do mundo?
Voltemos ao neutrino mais veloz que a luz no vácuo. No dia em que as primeiras notícias apareceram o Renato me escreveu sugerindo a pauta para este texto e durante nossa breve conversa eu disse pra ele que era fácil saber qual seria a primeira reação da comunidade científica em face a descoberta: Negar, negar até a morte.

Isso não pressupõe desonestidade, o caso é que em vista de uma anomalia tão relevante, a comunidade científica tende a adotar uma postura protecionista do paradigma vigente. Ou seja, é muito mais provável que os cientistas tentem por em cheque a validade dos resultados ao invés de questionar o modelo teórico em risco.

Isso significa que até que novas medições sejam feitas por outros laboratórios, ninguém (a não ser os mais sensacionalistas) vai apostar que a teoria da relatividade está errada e que Einstein cometeu um engano. Nem mesmo o próprio grupo de cientistas europeus que trouxe a público as tais medições se arriscou a por em cheque uma das teorias científicas mais famosas da história. Limitaram-se a dizer que fizeram as medições, refizeram as medições, tentaram descobrir algum erro ou engano e por fim passaram a bola à comunidade para que ela procure confirmar os dados, contestá-los, desmenti-los ou reinterpretá-los.

O caso é que de uma perspectiva kuhniana, estamos vendo uma anomalia gravíssima (ou nem tão grave assim, físicos por favor se manifestem nos comentários) atingindo gravemente as bases de um paradigma importantíssimo (desculpem os superlativos a lá José Dias). Mas ainda estamos longe de ver a física entrar na fase de ciência extraordinária.

É preciso ainda que os dados anômalos sejam de fato comprovados independentemente por outros laboratórios. E mesmo que o sejam, é mais provável vermos o surgimento de novas teorias e explicações que buscam não substituir a teoria da relatividade, mas blindar ela dos efeitos negativos da descoberta de partículas mais velozes que a luz no vácuo.

Com efeito, o próprio texto do Dulcidio (li outros artigos que levantam a mesma possibilidade) diz que pode ser o caso de os neutrinos estarem pegando um atalho extradimensional, o que dá a impressão de que eles estão se movendo mais rápido quando na verdade estão percorrendo um caminho menor do que o esperado. Não que esta não seja uma explicação possível, mas é de fato uma explicação que até ser propriamente investigada e confirmada ou descartada, serve bem ao propósito de amenizar o impacto da anomalia gravíssima no paradigma importantíssimo.

Quero reiterar que não sou físico e qualquer suposição que eu faça neste campo deve ser vista com total parcimônia, meu ponto é que a despeito de muitas vezes ser completamente ignorada pelos cientistas, a filosofia da ciência pode ser muito útil para entendermos o comportamento da comunidade, e também para termos uma visão mais honesta de que a racionalidade cientifica existe, mas está longe de ser tão rígida e relevante como nós cientistas as vezes acreditamos.

No mais, leiam Kuhn mesmo que para depois criticá-lo. Sua contribuição para o estudo social da ciência é de grande importância, além de ser um bom ponto de partida para, quem sabe, passarmos por nossa própria revolução.