A história escrita pelos cientistas.

outubro, 2008

A história da ciência, enquanto disciplina, é bastante recente. E seu surgimento se relaciona com a maneira como a ciência ganhou status a partir do século XVII. Há algumas questões relevantes  para a disciplina. Por exemplo, o historiador da ciência deve ser um cientista de formação? Os núcleos de história da ciência devem estar atrelados aos departamentos de ciência ou de história?

São problemas que podem ajudar a compreender os rumos da disciplina até aqui, bem como tentar prever qual será o seu futuro. E existem partidários para todos os gostos. O fato é que os primeiros historiadores da ciência foram mesmo cientistas. O que parece ser um movimento natural, afinal ninguém é mais interessado em ciência do que o cientista.

Mas daí podem decorrem alguns problemas. O cientista provavelmente irá estudar a história de sua especialização. E ao se deparar com o passado, pode tentar compreendê-lo usando os conceitos presentes. Se assim o for, é quase certo que o cientista-historiador vai acabar “viciando” sua análise.

Esta é ao menos a opinião do historiador da ciência Kostas Gavroglu. Para ele, os primeiros historiadores da ciência cometeram o engano de narrar a ciência como uma iniciativa excepcional para o gênio humano. Desta forma, acabaram por criar uma série de mitos históricos que são tido como verdade, não só pelo senso-comum, como pela própria comunidade científica desavisada.

Um destes mitos é a clássica experiência de Galileu, que teria arremessado dois objetos de pesos diferentes ao mesmo tempo, de cima da torre de Pisa, pra testar algumas previsões aristotélicas sobre o movimento. O caso é que não existem dados históricos que indiquem que Galileu realizou qualquer experiencia na torre de Pisa, embora seja fato que ele tenha experimentado algumas das idéias de Aristóteles.

O clássico experimento que nunca ocorreu.

O clássico experimento que nunca ocorreu.

Embora existam outros exemplos emblemáticos de mitos sobre a história da ciência, todos eles seguem mais ou menos o mesmo padrão. Transformam a figura do cientista em um herói, capaz de resolver os problemas do mundo valendo-se unicamente de sua assombrosa capacidade intelectual.

Por outro lado, a perspectiva de que o historiador da ciência não seja um cientista não parece muito melhor. Embora aqui também hajam opiniões divergentes, sem a carga de conhecimento técnico científico o historiador pode não realizar o melhor dos trabalhos. Ou talvez seja o inverso, e seu afastamento da ciência lhe permita uma visão mais ampla da história da atividade.

O próprio Thomas Kuhn se deparou com estas questões ao estudar o passado da física. Como resultado de suas reflexões, acabou formulando a idéia sobre a incomensurabilidade. Mas esta, é outra história.