Heróis e vilões na (falsa) história da Ciência

abril, 2010

Às vezes é um pouco difícil definir o que a Ciência é. Saber o que ela não é passa longe de ser tarefa mais simples, principalmente se a olharmos historicamente, já que muito do que hoje consideramos como não-Ciência, como a astrologia, por exemplo, já esteve dentro do campo científico em tempos não tão remotos assim. E o curioso é que quanto mais estudamos e conhecemos a Ciência e seus métodos, mais difícil fica fazer essas (in)definições. Mas, independentemente da quantidade de estudo ou da linha filosófica que escolhermos para olhar a Ciência, uma característica dela é – ou pelo menos deveria ser – clara e inegável: ela é uma atividade legitimamente humana, ou seja, é feita por seres humanos. O conhecimento produzido no campo científico é resultado de um longo processo de trabalho duro de pessoas como você e eu.

No entanto, quando ouvimos falar dos cientistas, seja pela mídia ou nas próprias escolas, não é bem essa a imagem que vemos. Sob nenhuma circunstância passa pelas nossas cabeças que nós, com todos os nossos defeitos, poderíamos estar ali naquele livro, naquela matéria. É mais ou menos parecido com o que acontece quando lemos histórias de super heróis. Ênfase no mais ou menos. Já explico: ninguém pensa seriamente em se tornar um super herói. Talvez só na infância. E a imensa maioria da população também não pensa seriamente em se tornar cientista, o que ocorre em boa parte pelo desconhecimento do que um cientista de fato faz. No entanto, às vezes, quando lemos as histórias dos heróis, nos pegamos fantasiando como seria legal ter super poderes ou salvar a humanidade de ameaças que ninguém mais poderia conter. Mas quando lemos a história do Mendel, não pensamos “nossa, como seria legal ficar recluso num mosteiro cruzando e contando ervilhas por anos e só depois de morto ter o trabalho reconhecido para virar o ‘pai da genética’”. Além disso, as histórias de heróis deixam claro que eles, mesmo que venham de outro planeta, têm um lado humano muito forte, entram em conflitos e dilemas morais e, alguns, como o Wolverine, têm até um lado meio cafajestão. Mas os cientistas não; eles são todos parecidos, e todos muito, muito distantes de nós. É como se os super heróis fossem de alguma forma mais reais do que os cientistas. Wow.

As histórias que ouvimos dos cientistas são sempre assim: Super gênios isolados da sociedade que ficam fazendo contas e experimentos que ninguém mais consegue entender e descobrem coisas fantásticas com uma facilidade impressionante. Cai uma maçã na cabeça do Newton e ele descobre a gravidade. Darwin vê uns passarinhos numas ilhas e descobre a seleção natural. Arquimedes entra na banheira e descobre o empuxo. Realmente é mais fácil se imaginar soltando raios laser pelos olhos do que fazendo coisas como essas – e talvez até mais desejável. Os cientistas são heróis que ninguém gostaria de ser.

Quem você prefereria ser: Arquimedes ou o Superman? Hmm, difícil hein?

Todos ouvimos essas histórias, assim como todos ouvimos as histórias dos super heróis. A diferença é que mesmo uma criança sabe que as histórias dos heróis são falsas, enquanto essas absurdas histórias dos cientistas continuam circulando como verdadeiras. Chega. Está na hora de parar.

Não digo que está na hora de parar só porque seria legal se todos soubessem as histórias reais dos cientistas ao invés dessas versões distorcidas e descontextualizadas. O problema vai muito além da acuidade histórica, chegando a atingir as raízes da nossa sociedade e de seus valores. Essas historinhas mentirosas vão construindo uma imagem de quem são os cientistas (todos homens, brancos, europeus e muito inteligentes) e de como a Ciência é produzida (sempre por insights geniais desses cientistas). Ora, essa história tem uma mensagem que, apesar de implícita, é clara: os cientistas são pessoas muito mais inteligentes do que você pode imaginar, e essa inteligência é um pré-requisito básico para ter essa profissão. Sendo assim, é aconselhável que você acredite no que a Ciência diz, porque ela é feita por pessoas muito mais inteligentes do que você jamais vai ser. Não se meta a fazer Ciência. Deixe para quem sabe. E aí está mais um motivo pras pessoas não pensarem seriamente em se tornar cientistas: “isso não é pra mim! Não sou esperto o bastante”. Essa impotência frente à Ciência se deve em grande parte à essas falsas historias, que transformam alguns cientistas em admiráveis cavaleiros que salvaram a humanidade da ignorância e outros em vilões que difundiram idéias erradas, como Lamarck ou a própria igreja, por exemplo (olhem só como ela foi injusta com Copérnico, coitadinho!).

A história da Ciência é uma história de seres humanos. Isso deve ficar bem claro. Serem humanos erram e às vezes fazem coisas movidos unicamente pela emoção. Seres humanos têm família, amigos, amores e interesses. Seres humanos (da sociedade capitalista) precisam de dinheiro, e fazem o que podem pra consegui-lo. Seres humanos gostam de fama, poder e prestígio. Se os cientistas são de fato seres humanos, então todas essas características se aplicam a eles também. Eles não são nem heróis, nem vilões. Na verdade, eles tem nada de especial – nem mesmo a inteligência: acreditem, é tudo treino!

Deve ficar claro também que a história da Ciência é contada por seres humanos. Seres humanos que colocam o seu ponto de vista naquilo que contam, mesmo que não tenham a intenção de fazê-lo. Depois de alguns séculos de distorções (intencionais ou não), o resultado é uma história que tem pouco a ver com o que realmente aconteceu, que guarda pouco de quem realmente eram os personagens e que nunca considera que a época em que eles viveram era diferente da época em que vivemos hoje.

E quem sai perdendo com tudo isso? Vejo a situação como um sistema de retroalimentação positiva. Quanto mais essas histórias circulam, mais as pessoas se distanciam da Ciência. E quanto mais distante a Ciência fica da sociedade, mais convinventes essas histórias parecem ser. E dessa forma a sociedade fica sem entender a Ciência e a Ciência fica cada vez mais fechada em seu mundinho, sem que os próprios cientistas entendam seu papel nessa sociedade. E quem sai ganhando? Hmm…dizem as más linguas que uma população que acredita cegamente em tudo que tem o rótulo de “científico” (por não entender como funciona a Ciência) pode beneficiar bastante os grande grupos econômicos que controlam o capital, já que essa população é manipulada muito facilmente. Mas isso é só especulação. Será? Na dúvida, eu acho que seria melhor se repensássemos a forma de contar a história da Ciência e dos cientistas.