Kepler, misticismo e a ciência asséptica

fevereiro, 2009

Johannes Kepler foi um grande gênio matemático. Deu fim a dois mil anos de astronomia, quando se valendo da idéia heliocêntrica de Copérnico e dos dados de posição dos astros de Tycho Brahe, postulou a orbita elíptica dos planetas. Além de se preocupar com a questão sobre o motivo dos planetas se moverem. Kepler também fundou a ótica moderna, e fez mais uma série de contribuições importantes para a ciência do século XVII.

Apesar de ser, a rigor, um cientista, seu “ethos” nada tinha de similar ao que se vê hoje em dia. Kepler era um homem de grande fé, e que se interessava por astrologia e qualquer outra atividade relacionada à matemática. Seus livros misturam todo o tipo de interesse que o alemão pudesse ter. É comum olhar para suas obras e ver asserções astrológicas, poemas, filosofia e etc.

Horóscopo feito por Kepler. Cloque para ampliar.

Mapa astral feito por Kepler. Clique para ampliar.

O curioso é ver como estas atividades que estão completamente afastadas da ciência moderna, por vezes banidas, com a exceção da filosofia, afetavam de forma positiva o desenvolvimento intelectual de Kepler. Sua famosa terceira lei, por exemplo, vem do livro A Harmonia do Mundo, aonde Kepler usa música pra determinar matematicamente o movimento dos planetas. Em determinada passagem ele chega a dizer que “a Terra canta Mi, Fá, Mi”, em uma clara sugestão à antiga idéia de que os planetas emitem sons.

Página do livro Harmonice Mundi. Clique na imagem para ampliar ou aqui para ir ao livro completo.

Página do livro Harmonice Mundi. Clique na imagem para ampliar.

Se tentasse publicar hoje em dia, Kepler seria ridicularizado. Teria que retrabalhar todo o seu texto para que ele não contivesse nem uma única vírgula sobre astrologia, ou mesmo música… O caso é que em dado momento, a ciência moderna se tornou um ambiente asséptico.

Há algo na formação do cientista que produz uma espécie de blindagem contra qualquer coisa que pareça minimamente mística, ou sem relação evidente com a ciência. Eventualmente essa atitude resulta, por parte do cientista, em um ranço exacerbado sob estas áreas. A justificativa usual é a de que não vale a pena perder tempo com bobagens sem sentido.

Mas o caso é que talvez essa blindagem seja mais prejudicial do que benéfica para a ciência. Vamos considerar por um instante que o trabalho do cientista seja, como proposto por Thomas Kuhn, o de resolução de problemas levantados pelas teorias. Tal atividade exige, com frequência, soluções criativas e, eventualmente, pouco usuais.

Um cientista despido de preconceitos certamente possui mais recursos cognitivos para atingir uma determinada solução. Não estou aqui dizendo que a ciência deva buscar soluções em atividades místicas ou religiosas. Estou dizendo que o contato com estas atividades pode levar o cientista a olhara para seus problemas sob novas perspectivas, antes inatingíveis por conta do preconceito.

Era o que Kepler fazia. Ao tentar ouvir a música dos planetas, viu que a razão entre o quadrado do período pelo cubo da distância é uma constante. O cientista que fecha seus ouvidos e seus olhos por um preconceito desnecessário, pode acabar mudo.