O Universo de Ptolomeu: 2ª parte.

novembro, 2008

Como vimos no texto anterior, Ptolomeu em seu livro Almagesto, propõe um modelo bastante rigoroso de Universo geocêntrico. E o começa fazendo listando uma série de argumentos, empiricamente suportados, descrevendo uma terra em forma de esfera e fixa. Partindo daí, passa à teoria do Sol.

A teoria do Sol de Ptolomeu é basicamente uma transcrição das idéias de Hiparco. Pelos dados empíricos da época, Hiparco (e portanto Ptolomeu) conseguia prever com certa acuidade quanto tempo o Sol levava para dar uma volta à Terra (e portanto, a duração de 1 ano), bem como sua posição relativa em datas futuras ou passadas.

Já nesta época se sabia que um ano durava em média 365 dias. O cálculo era muito simples, imaginando que o Sol descreve uma orbita circular ao redor da terra, podemos dividir esta orbita em graus. Como sabemos, um círculo possui 360° e, por medições relativamente simples, era possível saber que o Sol se deslocava aproximadamente 1° por dia. Dividindo este círculo em 4 partes iguais, podíamos distribuir as estações do ano por este círculo.

Mas como sabemos, as estações do ano não possuem a mesma duração em dias. Ptolomeu resolvia este problema deslocando o centro da orbita solar, também conhecida como epiciclo solar. Uma vez que sua teoria do Sol estava descrita, Ptolomeu partiu para a descrição do resto do Universo.

Embora eu tenha abordado o trabalho de Ptolomeu de forma bastante simplificada, com estes dados fica fácil combater as críticas feitas ao homem. As acusações de adulteração dos dados empíricos, são respondidas facilmente quando sabemos que todos os sistemas astronômicos clássicos lidavam sempre com anomalias regulares.

No caso do sistema ptolemaico, esta anomalia estava justamente na previsão futura ou passada da posição do Sol. Os cálculos feitos sempre se enganavam em um índice frequente. De forma que era possível prever o erro com certa acuidade e integrar esse valor no cálculo. Esse tipo de “jeitinho brasileiro” não é exclusividade de Ptolomeu ou Hiparco. Foi usado pelos egípcios para corrigir seus calendários, é usado até hoje pra corrigir nosso calendário e mesmo Einstein chegou a fazer algo parecido criando a constante cosmológica.

A crítica sobre o uso de múltiplos epicíclos para descrever o movimento dos planetas é válida. No entanto, o recurso foi igualmente usado por Copérnico, de maneira ainda mais grosseira, mais de mil anos depois de Ptolomeu, em um modelo de Universo que supostamente era mais correto. Na verdade não era, o grande mérito de Copérnico foi postular que a Terra não era o centro do Universo e, como qualquer outro planeta, se movia ao redor do Sol. O sistema de Copérnico era tão problemático que durou parcos 50 anos, sendo logo substituído pelo modelo de Kepler.

Embora eu pudesse seguir argumentando contra as muitas críticas feitas à Ptolomeu, prefiro passar para uma questão mais relevante. É o que faremos no próximo texto.