No livro “O mundo assombrado pelos demônios”, no capítulo “Maxwell e os Nerds”, Carl Sagan comenta sobre o estereótipo que se faz de pessoas da ciência. Em uma passagem ele diz que a misantropia e a inaptidão social, embora certamente possam ser associadas a uma porção de cientistas, fazem parte deste estereótipo.
Concordo bastante com o Sagan e, evidentemente, faço o possível para combater este tipo de pensamento. Oras, cientistas são pessoas normais, com pai e mãe. Não há nada de bizarro e incompreensível em uma pessoa que dedica sua vida à ciência.
O fato é que recentemente passei por uma situação curiosa. Fui com dois amigos, um matemático e um engenheiro de produção. Já havia um bom tempo que não nos encontrávamos, acabamos combinando de nos ver em uma famosa rede defastfood (não, não é a do palhaço) para botar o papo em dia.
Quando um biólogo, um engenheiro e um matemático se encontram, o nível de nerdice do papo cresce assustadoramente. Entre nossos assuntos padrões (dominação do mundo, capacitores de fluxo… Essas coisas), passamos a discutir um pouco sobre desastres ecológicos. Claro que acabamos falando de aquecimento global.
Meu amigo engenheiro começou a fazer algumas considerações sobre dinâmica de fluídos e o dióxido de carbono. Foi quando notei uma família que estava sentada na mesa ao lado. Estavam os cinco membros, pai, mãe e seus três filhos (o mais velho provavelmente com a minha idade), rindo das especulações de meu amigo.
Não que eles considerassem as idéias dele absurdas. O riso se devia ao fato de ele simplesmente estar conversando, de maneira tão absolutamente técnica, em um lugar tão absolutamente trivial como uma mesa de um restaurante de fastfood. Parafraseando o Coringa de “Cavaleiro das Trevas”, eramos o entretenimento daquela noite.
Meus amigos não perceberam, e eu não chamei a atenção deles ao fato. O caso é que a imagem do misantropo esta tão enraizada no senso-comum, que quando as pessoas se deparam com a imagem inversa, ficam perdidas. E por estarem perdidas e sem saber o que imaginar, fazem o que qualquer pessoa insegura faz para manter a ordem de seu mundo. Transformam o estranho em piada.
Sagan, no texto comentado no início, usa uma frase para descrever o sentimento das pessoas que não compreendem os cientistas quando expostas ao trabalho desenvolvido por eles: “Vá viver”. Eu usaria uma frase similar para aconselhar a família que acha engraçado entender dinâmica de fluídos: “Acordem pra vida”.
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Quando a pessoa dedica sua VIDA para alguma coisa é o que acontece. Dedicar a vida à ciência? Parece coisa de maluco. Pra mim é coisa de maluco dedicar a vida a qualquer coisa que não seja ela mesma. Namorada, trabalho, etc, são pedaços dessa vida e deviam ser vistos como tal. Acho complicado viver em função de uma única coisa. Não que todos os cientistas o façam, não que todos os advogados o façam, não que, talvez, não deva ser feito. Felicidade é relativo. Mas quando um indivíduo se exclui de um meio é um tanto natural ser olhado com estranheza. Da mesma forma seria um pagodeiro bombadinho aparecer no laboratório falando do último cd do “sorriso maroto”.
O laboratório, diferente do restaurante de Fast Food, não é um lugar público. Um pagodeiro bombadinho, a não ser que também seja um cientista, não vai entrar em um laboratório comentando o último cd do “Sorriso Maroto”.
Mas o pagodeiro tem toda a liberdade do mundo de falar sobre o cd em questão em um local publico e, em geral, ninguém acha bizarro a ponto de rir do cidadão. Se assim o é com o pagode, com o futebol e com a maioria dos assuntos, porque tem de ser diferente com cientistas que saem com os amigos e acabam conversando sobre temas científicos?
As pessoas se sentem tão ofendidas assim por não compreenderem a conversa?
Parece que o fenômeno da natureza assim já o respondeu. rsrsrs.