E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.
E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.
Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.
Na área da genética, há um esforço muito grande para tentar associar genes com funções. “Esse gene serve para fazer isso, aquele gene para fazer aquilo, etc.” Muitas vezes, dá certo, e promessas empolgantes são feitas. Terapias e vacinas gênicas são apenas um exemplo. Especulam até que num futuro não tão distante poderemos escolher um conjunto de características, levar no laboratório e esperar nove meses para ter um filho do jeitinho que a gente quer. Mas tem vários tipos de interesses políticos e econômicos por trás dessas coisas; sempre tem. E as coisas nunca são tão simples quanto parecem, e é aí, exatamente nesse ponto (entre milhares de outros), que a Filosofia da Ciência e o pensamento crítico fazem falta ao cidadão.
Na escola todo mundo aprende que “Fenótipo = Genótipo + Meio Ambiente”, mas ninguém para pra pensar o que isso significa. Saber que pintar o cabelo de loiro muda o fenótipo, mas não o genótipo, passa longe de ser suficiente. Estão usando a Ciência pra defender os interesses de uma minoria, e ninguém está percebendo.
A Ciência pode e deve ser questionada. É assim que ela progride, por sinal. Mas isso é um segredinho que, infelizmente, só os cientistas sabem, e enquanto o conhecimento científico for visto como dogmático, as pessoas vão continuar acreditando em “contos de fadas científicos”, e o estrago pode ser muito, muito grande.
Desconfie da Ciência. Isso será muito bom pra você, pra sociedade e pra Ciência também.
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Desconfiar da ciência é bom e saudável, claro, desde que aquele que desconfia resolva formular uma teoria refutatória (antítese), metodologicamente organizada e validada experimentalmente. Assim, desconfia-se da ciência sendo científico, o que não é em si um paradoxo, mas uma acertiva.
O que não pode é, tal como faz alguns criacionistas, discordar da ciência "porque sim" e dar um ponto onde, justamente em seu lugar, deveriam colocar uma interrogação.
Devemos desconfiar da Ciência no sentido de não acreditar em tudo que vem dela só porque é científico. Os cientistas dizem muitas coisas, e boa parte delas estão permadas por interesses deles próprios, das agências financiadoras, do grupo de pesquisa, etc. Só que tudo que eles dizem chega à sociedade com o mesmo rótulo, o de "Ciência", e as pessoas aceitam isso como verdade sem desconfiar, sem questionar. "É Ciência, então é verdade".
Esse falta de criticidade pode ser violentamente ruim para a sociedade. Por exemplo, certa vez (na verdade mais de uma vez) foi "provado cientificamente" que os brancos são mais inteligentes que os negros. Sendo isso aceito acriticamente pela sociedade, surgem idéias do tipo "então não quero ter filhos com negros por que senão meu filho vai nascer burro". Aí teve um cara chamado Hitler que foi um pouco mais longe…Enfim, a Ciência, assim como qualquer outro empreendimento humano, é movida por interesses, e esses interesses quase nunca são os da população em geral, e é por isso que temos que desconfiar da Ciência.
Concordo com os dois. Acho válido termos sempre uma posição questionadora, não só em relação à ciência, mas em relação a tudo. Mas admito que apenas questionar não faz bem algum.
É preciso questionar, mas com prudência e, acima de tudo, bom senso. É fato que a ciência está permeada por interesses "externos", como costumamos falar em história da ciência. Acreditar que a ciência é pura e imaculada é ingenuidade.
Em todo caso, concordo com o Borges que "discordar da ciência 'porque sim'" também não resolve muita coisa. Mesmo assim, não acredito que para discordar de uma teoria é preciso propor outra em seu lugar. O simples fato de apontar uma anomalia em uma teoria qualquer já é um exercício crítico e, se bem feito, pode ser bastante positivo.
Realmente, estudos do gênero apresentado por Renato são questionáveis, não só por suas motivações duvidosas, mas também possíveis inconsistências teóricas e metodológicas. Porém, estudos que se proponham a investigar a existência de genes que estejam relacionados a uma maior ou menor propensão ao desenvolvimento de uma determinada patologia são sim, válidos. Estão produzindo conhecimento de alta importância médica.
Por exemplo, hipotetizemos sobre um “gene para o câncer”, que aumenta a propabilidade do portador de desenvolver câncer de um determinado tipo. Bem, eu gostaria de saber se este gene está ou não presente em minhas células. Saber isso me abriria os olhos para o futuro, me incitaria a tratamentos e hábitos preventivos e, possivelmente, aumentaria minha longevidade e qualidade de vida.
Entendo a argumentação de Renato, mas deve-se perceber que estas possibilidades não isentam este tipo de conhecimento de usos benéficos ao cidadão. A problemática aí está na utilização indevida, moral e legalmente questionável, deste conhecimento. Este problema não vem apenas do jogo anti-ético de interesses, mas também da falta de conhecimento da população em geral sobre como o conhecimento científico é construído, e como este evolui. Quem tem idéia da natureza da ciência, é sempre receoso diante de novos estudos, novas conclusões, buscando erros e inconsistências nestes, e sabe esperar. Pois o tempo, as diferentes opiniões dos cientistas e os novos testes a serem feitos é que nos darão uma real idéia de se estas novas conclusões são mais ou menos confiáveis. Afinal, deve-se ter sempre em mente que, na Ciências, não existem teorias certas ou erradas, mas diferentes níveis de corroboração destas.
Concluindo, concordo com Henrique quando este diz que não é necessário criar uma nova teoria ou modelo e testá-lo para invalidar uma outra teoria um modelo ou um estudo qualquer. Apontar possíveis inconsistências na construção teórica, no modelo, no delineamento amostral, na metodologia ou até mesmo na interpretação dos resultados já são o bastante.
É Diogo, exatamente aí que reside a questão. Se você tiver um "gene do câncer", ele aumentará a possibilidade de você desenvolver câncer, dependendo dos seus hábitos cotidianos, como a sua alimentação, se vc fuma ou não, o nível de stress da sua vida, etc etc etc. Saber que vc carrega esse gene poderia salvar sua vida, pois você mudaria seus hábitos. O ponto é que não existe uma relação direta e causal: "Vc tem o gene, logo, vc terá cancer. Vá com Deus!".."Vc tem o gene da obesidade? Então desencana, nem adianta ir na academia porque vc vai ser gordo pra sempre!" Nosso genótipo abre um leque de possibilidades, um espectro de fenótipos possíveis, de forma que não podemos prever nada, principalmente comportamentos (e.g. irmão gêmeos – genótipos idênticos, fenótipos bem diferente). E.O. Wilson fala bastante disso em seu clássico "Da Natureza Humana", e R. Lewontin arremata em "Biologia Como Ideologia". Não há nada de errado com a genética ou com o conhecimento; o problema reside no que faz com esse conhecimento e na forma de transmiti-lo para a manipulável população leiga.