O pequeno problema da mídia é que toda notícia é, antes de qualquer coisa, um produto a ser vendido. Hipoteticamente não haveria problema algum com isso, não fosse o fato de a notícia ser processada, como se fosse matéria prima, e vendida em uma embalagem bonita, como se fosse um pacote de salgadinhos. Um bom exemplo disso foi a recente publicação de um estudo que demonstrava uma forma de se conseguir células tronco polivalentes (células tronco capazes de se transformarem em qualquer tido de célula, com exceção dos anexos embrionários.), hoje extraídas apenas de embriões, usando células da pele.
Eu tive a oportunidade de receber a notícia através do Jornal Nacional da Globo. A reportagem anunciava o fato, dizendo rapidamente algo sobre a técnica empregada e em seguida alardeando que esta deve ser a maior descoberta, no campo de pesquisa com células tronco, dos últimos tempos. A reportagem seguia ainda mostrando todos os benefícios do tratamento com células tronco polivalentes, passeatas de pessoas com problemas físicos que teoricamente só poderiam ser resolvidos com o uso de células tronco e encerrava com o aval do Vaticano sobre a nova técnica. No dia seguinte, o mesmo Jornal Nacional, no mesmo horário, divulgou uma outra matéria.
O anuncio da matéria dizia que “cientistas brasileiros olham com cautela para a nova técnica que transforma células da pele em células tronco embrionárias”. O que o Jornal Nacional não disse foi que provavelmente TODOS OS CIENTISTAS SÉRIOS DO MUNDO estão olhando com cautela para o novo método, possivelmente até seus descobridores estão cautelosos. Mas já estava feito. Após as matérias do Jornal Nacional todo o tipo de revista, reportagem, entrevista e mesa redonda foi feito sobre o tema.
A notícia virou produto e muita informação circulou nos dias subsequentes. A questão é, qual era a qualidade da informação vendida? Há motivos para alardear tanto uma descoberta científica? Quais os interesses por trás disso tudo? Difícil responder tais questões. É possível afirmar apenas que a técnica é muito interessante por resolver o maior problema do estudo com células tronco hoje, a questão moral sobre os embriões. No entanto a descoberta é recente e não sabemos suas consequências.
A técnica usada para transformar as células de pele em células tronco é a manipulação de genes, e a manipulação de genes não é algo exatamente previsível. Em geral, erros na manipulação inviabilizam a célula modificada. No entanto, não há motivos pra crer que a manipulação desses genes seja de todo segura. Outra questão é de que o uso terapêutico de células tronco embrionárias em animais com frequência resulta em um câncer com resultados fatais e não na cura para a doença tratada. Este é o motivo para todos os cientistas estarem cautelosos sobre a nova técnica, e é por isso que os meios de mídia deveriam ser mais cautelosos ao divulgar a descoberta.
Que vendam seu produto, mas que o façam de forma responsável, especialmente no que diz respeito a novas descobertas científicas. Quanto a nova técnica, sejamos cautelosos, mas vamos torcer para que ela possa se desenvolver de forma a trazer os benefício esperados.
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Oi Thiago, perguntinha que não quer calar.
O que são células tronco totivalentes? O.o
Qual a inovação da nova técnica?
Eu não vejo e nem leio jornas a mais de 2 meses Estou completamete por fora!
Bjus
Existem alguns tipos de células tronco. Elas são classificadas de acordo com sua capacidade em se transformarem nos mais variados tipos de tecidos e células de um organismo. As células totipotentes podem se transformar em qualquer tipo de célula do organismo, incluindo anexos embrionários. Isso significa que elas podem, por si só, dar origem a um indivíduo novo (já que podem se transformar em tecido placentário e os outros anexos do embrião). Até aonde se sabe, apenas as células tronco embrionárias tinham tal capacidade de transformação.
A nova técnica consiste em inserir, através de um retrovírus, alguns genes em uma célula de pele humana. Esses genes induzem a célula de pele a voltar ao seu estágio de célula tronco. Não exatamente como as embrionárias, na verdade as células de pele se transformam em células tronco pluripotentes. A única diferença entre as pluripotentes e as totipotentes é que as primeiras não produzem os anexos embrionários, mas ainda podem gerar todos os outros tipos de células e tecidos.
Reparei que o texto continha alguns erros de conceito, já foram corrigidos.
Caro Thiago.
Seu post traz a cautela indispensável para esses temas. Considero que, mesmo as esperanças depositadas nas pesquisas com células tronco, sejam de quais tipos forem, também mereçam mais comedimento da imprensa. De qualquer forma, em se provando válida, a tal técnica elimina a questão moral de se inviabilizat embriões para as pesquisas com células tronco.
permita-me uma correção ortográfica no seu texto. Lá no fim do post tem um “fassam” que não cabe. O correto é façam, ok?
Abraço
Células tronco tem sido tratadas com muuuuito sensacionalismo. O engraçado é o foco de algumas reportagens que parecem desejar tornar o cientista um vilão malvado, que adora assassinar embriões inocentes por nada.
Argh!!!
É por essas e por outras que estou dando um tempo lá na bioética. Além de dar gastrite, confesso que estou muito desapontada com o meio mesmo dentro da universidade. Não esperava encontrar visões tão turvas num meio acadêmico, assunto para um outro dia né?
Mas é isso aí, tem gente que acredita em tudo que lê.
Babs, tem razão. O meio acadêmico também me deu uma desapontada. Acho que a gente tem uma idéia romântica sobre isso e, quando se depara com a verdade, fica extremamente chocado e desapontado.
Em todo caso, não podemos desistir certo? É aquela história dos que voam alto e parecem pequenos aos que estão no chão
Bjs.
“Quais os interesses por trás disso tudo?”
Uma coisa é certa, os religiosos têm grande interesse nisso. Afinal, a questão do uso de células-tronco embrionárias fere princípios morais do cristianismo e outras religiões.
Mas o sensacionalismo da imprensa é mesmo de lascar. Afinal, essa guerrinha Religião X Ciência vende bem. Acho que o sensacionalismo nasce dessa constatação.