O filme “O Planeta dos Macacos” de 1968, é um clássico do cinema que levanta algumas questão absolutamente relevantes sobre ciência, religião e o desenvolvimento da sociedade. O enredo simples, astronautas que chegam a um planeta governado por macacos inteligentes, é enriquecido com todo tipo de crítica e análise da sociedade humana da época. O curioso é o filme continua atual, especialmente na abordagem que faz de ciência versus religião, demonstrando que por mais que a sociedade humana tenha avançado tecnológicamente, as discussões sociais seguem inalteradas.
A religião científica do Planeta dos Macacos.
No filme, religião e ciência são tomadas por atividades entrelaçadas. Há um motivo evidente, a religião preocupa-se com a manutenção da sociedade dos macacos, guiando a ciência de maneira a permitir o avanço tecnológico sem a perda dos valores sociais. Um movimento religioso que controla a ciência com mãos de ferro a ciência, é certamente a vontade de muitas religiões existentes hoje.
No entanto, a religião é desenvolvida como uma forma de controle totalitário. Sob os olhares da fé, humanos passam por testes e experimentos científicos cruéis. São tratados como escravos que não possuem uma alma a ser preservada. Curiosamente, pesquisas que tentam desvendar a história perdida da origem dos macacos, são mal vistas e consideradas heréticas. A ciência, antes de qualquer coisa, deve respeitar as escrituras.
A evolução no Planeta dos Macacos.
Este é um dos pontos fortes do filme. Um macaco paleontólogo desenvolve uma teoria da evolução , atestando que todos eles são descendentes dos humanos primitivos. A inversão de papéis no roteiro do filme, não inverte o impacto da teoria na sociedade símia em relação a nossa. De maneira idêntica, a religião não aceita a teoria e condena o o macaco por heresia. No entanto, diferente do que as religiões humanas pregam, a dos macacos sabia exatamente sua origem e evolução.
Os macacos não evoluíram do homem. São fruto de uma sociedade humana falida, cujos poucos exemplares restantes “involuíram” em formas primitivas, permitindo então o avanço evolutivo dos macacos. Uma vez que os macacos atingiram sua maturidade intelectual, perceberam os motivos do fim da sociedade humana, desenvolvendo então um agente de controle com o objetivo de frear a ciência e evitar um fim trágico parecido.
Uma análise do Planeta dos Macacos.
É evidente que o filme toma a sociedade de 1968 e extrapola seus receios. O medo de um planeta Terra destruído e a redução drástica das sociedades humanas, era fruto da uma recém terminada guerra fria. As duas grandes guerras ainda estavam vivas no consciente coletivo, e os Estados Unidos se lançavam em guerra com o Vietnã. No mesmo período, a ciência se desenvolveu rapidamente, impulsionada pelos investimentos militares.
Era um mundo caótico e perigoso, refletido de maneira bastante inteligente no filme. A decisão de tornar os macacos tecnológicamente inferiores à sociedade humana que os precedeu, joga no colo da ciência a responsabilidade pelo uso incorreto do conhecimento. Por outro lado, atrelar a ciência a uma religião moralmente discutível e que reflete a organização social da idade média, reforça que nem mesmo a religião pode salvar a humanidade.
É um filme pessimista. Que atesta que o mal da humanidade são os próprios humanos. Hoje em dia é difícil acreditar em uma guerra catastrófica que culminará no fim quase que completo de nossa espécie, no entanto, podemos imaginar uma série de eventos naturais igualmente catastróficos. Todos possivelmente produzidos pela maneira leviana como tratamos os recursos naturais deste planeta.
Talvez não estejamos tão longe assim do Planeta dos Macacos
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Thiago,
Eu não acredito em evolução, prefiro o termo “adaptação” para descrever a trajetória das espécies biológicas na terra. O filósofo inglês John Gray defende a idéia de que não há processo evolutivo para o ser humano exatamente porque as questões sociais continuam as mesmas, apenas mais diversificadas. Na mesma medida em que obtemos progresso tecnológico por um lado, levando-nos a condições melhores de conforto e sobrevivência, por outro, ampliamos nossa capacidade destrutiva sobre o ambiente e sobre os semelhantes. E essa capacidade destrutiva deve ser mediada pelo ser humano político-social, que efetivamente continua um troglodita – um macaco-falante.
O pessimismo, aí, deriva da constatação óbvia de que a civilização constitui um processo marcado pela instabilidade, sendo vulnerável a qualquer ação dominante de catástrofes naturais, ambientais, nucleares, etc…
Talvez, nosso grande defeito seja o antropocentrismo que nos coloca no centro de um alegado processo evolutivo do universo.
Se, por outro lado, nós soubéssemos de fato, que nossa importância para o planeta, do ponto de vista construtivo, é absolutamente nenhuma. Possivelmente, tivéssemos melhores chances de verdadeiramente evoluir.
João, adaptação é justamente o termo que se evita usar pra descrever a tragetória das espécies biológicas na Terra. O motivo é simples, as espécies não se modificam em resposta ao meio ambiente.
Em todo caso, pelo seu comentário, posso supor que você considerou a palavra “evolução” em seu termo comum de progressão. Em biologia, evolução diz respeito à mudanças na freqüência alélica do DNA. Em biologia a idéia de progressão é desconsiderada, de modo que não se pode afirmar que algum animal seja mais evoluído que outro.
Ou seja, a idéia da evolução biológica, nestes termos mesmo, não sustenta o antropocentrismo que vc brilhantemente criticou
Abraços.
Thiago,
Eu entendo o conteúdo semântico que vc e outros biólogos aplicam à palavra “evolução”, e concordo com esta abordagem mas, acho que é um erro de divulgação científica a escolha do termo já que ele deve vir acompanhado de ressalvas para o público leigo. Isso enfraquece a idéia central que é a modificação genética das espécies no transcorrer das gerações. Num artigo anterior vc já tinha colocado com clareza essa ressalva de interpretação…No caso da “adaptação”, a contra-indicação é, pelo que entendi, afastar a teoria de Lamarck relativa à resposta ambiental dos organismos.
Penso que o conceito ficaria mais persuasivo se o termo “adaptação” fosse mantido, porque tecnicamente, para aqueles com acesso ao entendimento de herança genética, restaria claro que a adaptação, no caso, refere-se ao processo seletivo continuado dos mais aptos às condições ambientais através de sucessivas gerações e não o contrário.
Veja bem, é mais fácil comunicar o detalhamento técnico da teoria para o público especializado do que fazê-lo para o público leigo. Este último, via de regra, acessa apenas a descrição geral da teoria e se torna presa fácil daqueles que procuram destruir o conceito pelo descaracterização semântica da palavra “evolução”.
E este recurso argumentativo é bastante recorrente e efetivo, sobretudo para os “luminares” do “obscurantismo esclarecido”.
João, concordo com vc. Mesmo Darwin não concordava com o termo “evolução”.
Em todo caso, foi o termo que ganhou popularidade e se estabeleceu. Aqui entramos em um problema, se fizermos divulgação científica trocando o termo para um melhor entendimento do público “leigo”, quando este mesmo público entrar em contato com textos mais técnicos ou coisa que valha, vai haver mais confusão que esclarecimento. Neste caso, eu estaria prestando um serviço contrário à divulgação.
Embora o termo “evolução” não me agrade, infelizmente é com ele que tenho que trabalhar. A solução que encontrei foi justamente a que vc comentou, procuro esclarecer o máximo possível sobre em que condições o termo é utilizado.
Em todo caso, não acredito que o termo adaptação seja uma escolha melhor. Com efeito, como comentei em meu texto sobre Lamarck, a idéia de adaptação que se espalhou pelo senso comum é exatamente a idéia que Lamarck tinha. Alias, esse foi o grande trunfo do frances, sua idéia de adaptação é tão didática que, ainda que errada, se fixou com muita força no senso comum.
Esses problemas semânticos são muito comuns em toda a ciência, o que é uma pena. Só ajudam a complicar a divulgação, o entendimento e ainda alimentam o “obscurantismo esclarecido” que vc citou.
Oi…
Gostaria de uma ajuda…
Preciso criar uma teoria da evolução, em cima do filme Planeta dos Macacos.
Me ajuda…