Aprendemos logo cedo na escola que um dos problemas que assustavam os navegadores de antigamente, era a idéia de que a Terra era chata. O mito de que era possível navegar até a borda do planeta, se cristalizou no senso-comum e é constantemente usado para simbolizar a ingenuidade dos antigos.
Mas o que dizem os historiadores da ciência é que esta história não passa de mito. A idéia de uma Terra chata existe na mitologia oriental. No entanto, para os povos da Europa ocidental, o planeta sempre teve formato esférico. O que, mantendo as devidas correções modernas, é relativamente correto.
Com efeito, os primeiros mapas celestes sempre colocavam a Terra representada como uma esfera, rodeada pela abóboda celeste. Mas se não era o medo de “cair” pela borda do planeta, existia afinal algo que assustava os antigos navegadores?
Na verdade, sim. Uma pequena observação empírica levou à criação de uma teoria equivocada. Não é preciso ter aparelhos científicos rebuscados para saber que, quanto mais nos dirigimos em direção ao equador, mais quente fica o clima.
Esta constatação deu origem a idéia de que o equador do planeta fosse tão absolutamente quente, que nada poderia sobreviver ali. Era como uma espécie de barreira intransponível, e embora fosse possível navegar até lá, era bastante provável que a tripulação fosse incapaz de sobreviver às temperaturas elevadas. A região foi chamada de “zona tórrida”.
A “parte de baixo” da Terra foi chamada de “antípoda“, que é uma variação de uma expressão grega que significa “pés opostos”. A expressão se deve ao fato de que acreditava-se que se existissem pessoas na outra metade da Terra, elas caminhariam literalmente de ponta cabeça.
O mito só foi derrubado completamente quando a nova rota comercial para as Índias foi estabelecida. Evidente que o conhecimento sobre a possibilidade de se atravessar a linha do equador já existia, de outra forma, a expedição de Vasco da Gama jamais teria sido aprovada.
É importante notar que, por mais ingênuas que estas idéias nos pareçam, para a época elas eram fruto de observação empírica do dia a dia. O que no entanto é ingênuo, é ainda hoje o mito da Terra chata continuar sendo usado para demonstrar o quão primitivo eram os povos antigos.
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É impressionante o quanto eles nos passam mesmo, esta idéia dos povos antigos, da Terra chata e sempre de uma forma a ridicularizar as sua maneira de interpretar o mundo. É desta mesma forma que ridicularizam, muita das vezes os alunos que formulam suas opiniões acerca de um fenômemo que ele observa. O mais engraçado é que esquecemos que a partir do que é suportamente ”errado” é que se pode mostrar uma outra maneira de pensar e analizar… E se chegar a resposta certa.
E fazem o mesmo, também, com o pobre do Lamarck, que foi o primeiro a propor uma evolução dos organismos (a diversidade de organismos era explicada por vontade divina), no entanto ele é quase sempre motivo de chacota quando se estuda evolução, por ter proposto a Lei de uso e desuso com herança dos caracteres adquiridos. Reza a lenda que aquela história das ”girafas pescoçudas”, nem foi idéia de Lamarck e sim posto por outras pessoas pra exemplificar a suas idéias…
Há de se concluir no fundo duas coisa:
O erro é interessante, pois a partir dele se pode chegar a um acerto.
E que na ciência muitos dos mais famosos exemplos não passam de história da carochinha.
Em breve abrodarei o famoso ”caso da Mariposa Biston betullaria”, mais um dos famosos mitos da ciência será revelado!!
Olá Thiago,
Seu texto, uma vez mais, está muito bom.
Lembrei-me de um filme já antigo, chamado "As aventuras de Eric, o viking", em que o drakkar se precipita na borda do mundo. Aparentemente, na mitologia nórdica, o mundo era chato.
Cada época tem seus mitos. Mesmo a nossa tem muitos. Resta-nos desmascará-los, com ciência e informação. Há muito trabalho a fazer!
Abraço,
Lelec
Nem tanto ao céu nem tanto ao mar. Nem dizer que os antigos todos acreditavam na terra chata é verdade, nem dizer que os antigos todos sabiam/acreditavam que a terra é esférica.
Por um lado o grego Erastótenes calculou (com admirável precisão) a circunferência da terra dois mil anos atrás, provando que os antigos não eram tolos (o ponto do seu post). É bom lembrar que uma estátua do deus Atlas do século II depois de Cristo já o representava carregando uma esfera nas costas (esfera celestial, mas daí é simples concluir que a terra, no meio dela, também seria esférica (veja http://en.wikipedia.org/wiki/Farnese_Atlas).
Por outro lado depois dos clássicos gregos e romanos veio o obscurantismo na Europa, e com ele um emburrecimento razoável e a propagação de idéias "estrangeiras": essencialmente a cosmologia bíblica. A cosmologia embutida na bíblia, escrita por um povo que habitava uma região entre a babilônia (a nordeste) a o egito (a sudoeste), emprestou grande parte dos conceitos de ambas as culturas. Tanto os babilonicos quanto os egípcios acreditavam em uma terra plana sob um domo do céu (veja inúmeras referencias aqui: http://www.lhup.edu/~dsimanek/febible.htm). A tradição judaico-cristão (exposta em diversas passagens biblicas, é de uma terra plana, imóvel, no centro do universo. O mesmo link dado cita passagens para mostrar.
Abs
Por favor tirem os dois ultimos caracteres, ou seja paretenses e ponto, para favor os dois links que dei funcionarem:
http://www.lhup.edu/~dsimanek/febible.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Farnese_Atlas
Ricardo, discordo de você em vários pontos.
A começar por eu não ter dito no texto que os "antigos todos sabiam/acreditavam que a Terra é esférica". Com efeito, eu disse que na mitologia oriental a Terra era de fato descrita como "chata", e que NA EUROPA OCIDENTAL isso nunca havia ocorrido.
O tal obscurantismo na Europa que você comenta, acredito eu, seja a idade média. Bem, o comentando "emburrecimento" é um mito criado durante a época do positivismo, além de uma posição defendida pelos renascentistas. Durante a fase inicial da formação da disciplina da história da ciência, essa visão do "obscurantismo" da sociedade medieval também era tida como correta, até que um homem chamado Pierre Duhem, que não por acaso é um dos maiores historiadores da ciência de todos os tempos, fez o grande favor de investigar a fundo esse período e revelar que de burros ou obscurantistas, os medievais nada tinham. Infelizmente a tal idéia "colou", e nos é enfiada goela abaixo nas aulas de história.
É igualmente errado concluir que a Igreja, em particular a Romana como é de costume, suportava a idéia de uma Terra chata. É verdade que se pode encontrar na bíblia passagens que façam esse tipo de sugestão, mas em verdade, existem tantas outras que sugerem a forma esférica da Terra.
Além disso, é preciso lembrar que o modelo de universo que era ensinado nas primeiras faculdades, e adotado pelos colégios jesuítas, era o modelo de Ptolomeu, que não por acaso havia sido criado com base no modelo de Erastóstenes que vc citou.
Além disso, já no século XVI, os Jesuítas abandonaram o modelo de Ptolomeu e assumiram o do Tycho Brahe, modelo que também levava em consideração uma Terra esférica. Mesmo no mundo protestante a situação não era diferente. Basta ver o próprio Tycho e Kepler, ambos vivendo em sociedades protestantes.
Ricardo,
Devemos levar em consideração que a bíblia não é um livro científico, e que ao mesmo tempo em que existem passagem sugerindo que a terra é chata , existem tantos outros que sugerem que ela é redonda.
Veja este video, que é o primeiro de uma série(seria interessanter ver todos):
http://www.youtube.com/watch?v=t6bnO7N1AMU&fe…