Evolução: Como confessar um assassinato.

fevereiro, 2008

Charles Robert Darwin foi seguramente um dos maiores naturalistas da história. Muito embora ele seja sempre lembrado por sua teoria evolutiva, suas contribuições à ciência foram muitas. Darwin realizou diversos estudos em zoologia e botânica, antes disso porém se envolveu com geologia e quando garoto se interessava por química. Estudou medicina por influência de seu pai, mas nunca chegou a concluir o curso. Durante esse período no entanto, Darwin freqüentou uma série de cursos para naturalistas. Conheceu Robert Grant, um grande admirador de seu avô Erasmus e defensor das idéias de Lamarck.

Trocou a escola de medicina pela de artes, com o intento de se tornar um clérigo. Durante esse período Charles se envolveu com uma série de ótimos professores nas mais variadas áreas naturalistas. Foi um destes professores, John Henslow, que por influência conseguiria enviar Darwin na sua tão famosa viagem ao redor do mundo no Beagle. A viagem abordo do Beagle não teve como único resultado levar Darwin à sua teoria mais famosa, entre outras coisas confirmou as idéias de Charles Lyell quanto à geologia da Terra, coletou uma diversidade imensa de espécies e encontrou indícios da mega-fauna do novo mundo.

Da viagem do Beagle até a publicação de A Origem das Espécies, foram mais de 20 anos. Darwin era atormentado por suas próprias idéias. Temia pela represália que sofreria da sociedade ao contestar a idéia estabelecida da criação divina. Se preocupava em ofender a crença de seus professores e amigos, bem como de sua esposa Emma. O fato é que Darwin acabou acuado por Wallace, um naturalista em viagem similar à de Darwin que se correspondia com ele. Wallace apresentou a Darwin suas idéias sobre como as espécies se formam, elas eram muito parecidas com as de Charles que acabou decidindo tornar pública sua teoria.

O Origem das Espécies gerou a polêmica tão temida por Darwin, mas mudou o mundo de uma maneira definitiva. “É como confessar um assassinato” disse Darwin certa vez, prevendo a amplitude das transformações que sua teoria causaria.

O Darwinismo.

A teoria evolutiva de Darwin parte do mesmo pressuposto que a de Lamarck: A biodiversidade do planeta começou de uma maneira mais simples e com o tempo foi se tornando mais variada e complexa. No entanto, o darwinismo difere do lamarckismo em dois pontos essenciais.

Para Lamarck, a evolução se dava através de uma única força, a resposta evolutiva que os organismos dão ao interagirem com o meio. Deste modo a evolução de cada ser vivo é guiada de forma a melhor adaptar o organismo ao meio em que vive. Darwin por outro lado, muito graças à influência que as idéias de dinâmica de populações de Thomas Malthus, considerou que existiam duas forças em ação.

A primeira era totalmente aleatória e responsável por modificações nos organismos. Na época de Charles a genética ainda estava nascendo e ele nunca teve a oportunidade de compreender os mecanismos por trás deste processo. No entanto chegou bem próximo disso quando alegou no “Origens” que “algo” influenciava o “aparelho reprodutor” dos animais, provocando as modificações. Hoje sabemos que o “algo” é na verdade o DNA que pode sofrer mutações (e com freqüência sofre) quando da formação das células germinativas, ou seja, os espermatozóides e óvulos.

A segunda força em ação é a seleção natural (ou artificial em alguns casos específicos). A seleção natural é a condição imposta pelo meio ambiente para que os organismos sobrevivam. O que ocorre é que as modificações aleatórias que cada indivíduo sofre produzem mudanças que, eventualmente, podem melhorar ou piorar as chances de sobrevivência em determinados meios. Quando essas chances são melhoradas, o organismo sobrevive por mais tempo e provavelmente se reproduz com maior freqüência, gerando um maior número de descendentes que recebem o legado evolutivo de seu antepassado.

Ambos os processos em ação somado ao isolamento de grupos ou indivíduos de uma espécie acabam por gerar o processo de especiação, que será tratado com mais atenção em outra oportunidade, resultando no surgimento de novas espécies.

Embora a idéia seja simples, ela implica em uma conclusão evidente e muito polêmica. Se o processo evolutivo é aleatório, então a evolução não tem um “objetivo final”. As espécies não estão caminhando rumo ao topo de uma escada evolutiva, e portanto, não se pode definir níveis evolutivos. Para o darwinismo o conceito de “mais evoluído” não tem sentido de ser, podemos apenas dizer que determinados organismos são melhor adaptados a viver em determinados ambientes. Esta conclusão simples nivela o homem com o resto dos organismos vivos, nos transformando em apenas mais uma espécie animal entre tantas outras.

Não é difícil portanto entender o motivo de as idéias de Darwin serem questionadas até hoje. O darwinismo atesta contra o antropocentrismo, negando ao homem seu suposto papel especial no universo. Por outro lado nos dá um presente muito maior, uma relação direta com cada organismo deste planeta.

Parafraseando Darwin, há grandeza nessa visão da vida.

Evolução: O cavaleiro de Lamarck

fevereiro, 2008

Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, o cavaleiro de Lamarck, foi um importante naturalista francês. Lamarck é o responsável por uma das idéias sobre evolução, mais bem sucedidas em povoar o senso comum. Quem nunca ouviu falar em lei do uso e desuso ou de caracteres adquiridos? Com efeito a maioria das pessoas pensa na teoria da evolução sob os termos de Lamarck, em geral sem notar.

Mas Lamarck ofereceu muitas outras contribuições para a biologia. Fazia parte do exército francês e se interessava por história natural. Acabou sendo indicado a um cargo no Museu de História Natural de Paris.Teve uma importante carreira estudando a flora francesa, até ser indicado como curador dos invertebrados. Foi trabalhando com moluscos que chegou finalmente a sua teoria da evolução.

O lamarckismo

Lamarck acreditava que a biodiversidade do planeta surgia por geração espontânea e em formas simples. Com o tempo, iam se modificando, subindo em uma escala de complexidade. Com essa idéia em mente Lamarck tentou estabelecer os meios pelo qual essas modificações se davam e eram transmitidas para a próxima geração. Formulou então que em cada ser vivo existe um “fluído nervoso” responsável pela modificação morfológica de cada espécie.

Tal fluído se concentrava mais nos órgãos mais usados, permitindo que eles se desenvolvessem melhor que os outros. Para Lamarck as modificações só podiam ocorrer durante o período de desenvolvimento do animal, sendo passados para a próxima geração. Lamarck então propôs duas leis básicas, a lei do uso e desuso e a lei das características adquiridas. A lei do uso e desuso estabelece que quanto mais se exige de um órgão, mais ele se desenvolve, cresce ou se fortalece. De maneira oposta, os órgãos menos usados se atrofiando e desaparecem gradualmente.

Já a lei das características adquiridas diz que o animal transmite para a próxima geração as modificações produzidas durante sua fase de desenvolvimento, de modo que seus filhotes já nascem com a modificação adquirida pelos pais. O exemplo mais clássico das idéias de Lamarck é a explicação para o pescoço alongado das girafas. Segundo ele podemos imaginar que as girafas primitivas eram pequenas e possuíam pescoço curto. Vivendo em um ambiente aonde as folhas das árvores que lhes provém alimento ficavam muito acima do nível do solo, o movimento de esticar o pescoço de modo a alcançar essas folhas direcionava o “fluído nervoso” para a região e permitia que o pescoço crescece um pouco mais que nas gerações anteriores. Sucessivas gerações de girafas foram passando para sua prole os pescoços que aumentavam um pouco a cada geração, resultando no animal que temos hoje.

É importante notar que para Lamarck a evolução não era um processo aleatório e sem direção. Para ele, todos os animais evoluíam ativamente em resposta ao meio ambiente, se adaptando de acordo com as dificuldades que encontravam. O processo portanto era guiado a uma “direção final”, permitindo se estabelecer uma escala evolutiva entre os organismos vivos. Para Lamarck, era muito evidente que alguns animais eram mais evoluídos que outros, e sua justificativa dizia que tal afirmação mostrava claramente que os animais mais evoluídos surgiram primeiro no planeta.

A idéia de Lamarck não foi muito bem recebida. Muitos cientistas o contestaram e estabeleceram experimentos cujos resultados iam contra sua teoria evolutiva. Outros tantos afirmaram que o registro fóssil da época não corroborava com a evolução lamarckista já que os animais encontrados eram tão complexos quanto os que vivam atualmente. As expedições ao Egito também atestaram contra Lamarck. Muitos dos animais mumificados encontrados eram exatamente iguais às suas versões ainda vivas.

Mas Lamarck nunca abandonou suas idéias. Pessoas como Erasmus Darwin deram crédito à Lamarck e olhavam sua teoria com bons olhos. O lamarckismo ainda tem o mérito de ter se infiltrado com muito sucesso ao senso comum, talvez por sua explicação simples e sua estética bastante compreensiva. Mesmo nos dias de hoje, com o lamarckismo amplamente refutado, as idéias do velho Cavaleiro Francês se confundem com a revolucionária teoria do homem que mudou a biologia pra sempre.

No próximo texto: Como confessar um assassinato.

Evolução: Antes de um Darwin, sempre vem outro Darwin.

fevereiro, 2008

Quando se fala em evolução o nome Charles Darwin é o primeiro que nos vem à mente. Não pra menos, Charles influenciou drásticamente a biologia dos séculos que se seguiram à publicação da Origem das Espécies. Mas quem influenciou o pensamento deste naturalista tão famoso? Não foram poucos, Darwin se envolveu com a comunidade científica de sua época muito cedo, conviveu com grandes cientistas e trazia em seu próprio sangue a herança de um livre pensador fruto do Iluminismo. Seu avô, Erasmus Darwin.

Erasmus Darwin era um abastado médico inglês com o típico pensamento revolucionário da época. Não sustentava inclinações religiosas e defendia com paixão o processo de modernização que tomava conta da Inglaterra, graças à revolução industrial. De fato Erasmus atraía o carisma dos homens mais importantes da burguesia da época, fundou o “Círculo Lunar” que mais tarde viria a se chamar “Sociedade Lunar de Birmingham”. Tratava-se de uma confraria composta pelas pessoas mais influentes do círculo de amizade de Erasmus que se encontravam uma vez ao mês, sempre às luas cheias (por isso o nome Sociedade Lunar), para discutir sobre política, avanços científicos e por ai vai.

Vivendo em um ambiente tão livre de preconceitos religiosos, Erasmus era um contraventor. Apoiava a revolução francesa, era contra a escravidão, venerava o sexo e não ligava para convenções sociais. Era uma alma livre, agindo da maneira que queria e não como a sociedade desejava. Casou duas vezes, teve quatorze filhos, dois deles com uma governanta. Seu segundo casamento, quando já estava praticamente aleijado, gordo e velho foi com uma viúva deslumbrante que lhe rendeu quatro dos quatorze herdeiros. Escrevia poemas eróticos e receitava sexo para depressão. Era um bom vivant no sentido mais expandido do termo.

Inspirado por Lamarck, importante naturalista francês que será tratado com mais detalhes no próximo texto, Erasmus defendia que os animais não haviam sido criados por Deus mas sim por geração expontanea, evoluindo de formas mais simples para as mais complexas. Escreveu um livro chamado Zoonomia aonde defendia uma teoria evolucionista que guiava os animais e plantas, muito antes de seu neto Charles Darwin formular a sua própria e tão famosa teoria.

Apesar da vida atribulada, Erasmus morreu tranquilamente. Seu filho Robert Darwin, que também seguiu pelos caminhos da medicina, veio a se tornar o pai de Charles. Robert, embora tivesse sido influenciado pelo pensamento iluminista de seu pai da Sociedade Lunar, não era tão radical. Antes disso, se envergonhava do comportamento lascivo do pai. Tal fato fez com que o jovem Charles só fosse ter contato direto com as idéias revolucionárias de seu avô quando chegou à universidade, aonde se deparou com uma legião de alunos e professores que veneravam o velho Erasmus como um indealista e símbolo de uma época, aonde o homem parecia ter controle sobre si, sobre o mundo que o cercava e, mais do que isso, sobre seu próprio intelecto.

No próximo texto: O Cavaleiro de Lamarck.

Evolução: Um epílogo.

janeiro, 2008

Algumas teorias científicas possuem a curiosa característica de serem amplamente discutidas fora do âmbito científico. Em geral são as teorias mais complexas e que, de alguma forma, possuem grande importância para a ciência além de serem “estranhas” ao conhecimento popular. Um bom exemplo é a teoria da relatividade de Einstein. É uma teoria complexa que trata o universo de forma pouco usual, estabelece o tempo como uma dimensão e atesta que ele, o tempo, é relativo ao referencial. Ora, imaginar que o tempo não é um valor absoluto foge ao senso comum e gera as mais variadas interpretações da teoria.

Na biologia o mesmo ocorre com a “teoria da evolução”. Muitos discutem suas implicações nas mais variadas atividades humanas, poucos o fazem compreendendo perfeitamente o que é a teoria evolutiva e o que ela significa no entendimento da vida na Terra.  Os enganos são muitos: É a evolução apenas uma teoria? Se é uma teoria, qual sua credibilidade? A evolução atesta contra Deus? O homem é a evolução do macaco? Se é, porque não tem macaco virando gente hoje em dia? Aliás, porque não vemos novas espécies aparecendo diariamente? podemos concluir então que a evolução parou? Afinal, existem seres mais evoluídos que outros?

As dúvidas são muitas e refletem os muitos enganos no ensino e divulgação da evolução. A começar pelo entendimento sobre o que é a teoria evolutiva e a que serve. A teoria evolutiva surgiu como uma possível resposta a um problema, explicar a biodiversidade do planeta. É praticamente impossível se deparar com a quantidade de organismos vivos na Terra, e não se questionar como eles chegaram aqui. Existem várias respostas a esta pergunta, provavelmente a mais famosa é a resposta oferecida pela bíblia no gêneses.

Mas nem todo mundo estava satisfeito com a possibilidade de Deus ter criado toda a biodiversidade do planeta da forma como ela existe hoje. Com efeito, algumas pessoas começaram a estabelecer relações entre os seres vivos. Comparações morfológicos passaram a indicar proximidades entre animais que aparentemente não tinham nenhuma relação. Logo surgiu a idéia de que talvez algumas espécies tenham variado de outras.

O pensamento evolutivo mudou muito no decorrer da história e as teorias sobre a evolução acompanharam esse movimento. O assunto é extenso e merece uma série de textos para poder abranger ao menos parte da complexidade envolvida. Nos próximos textos iremos ver algumas teorias evolutivas, vamos abordar os caminhos que levaram Darwin a escrever seu famoso livro, as mudanças que a teoria darwiniana sofreu com o surgimento da genética e outros assuntos relacionados.

Até lá, keep evolving.

O ovo ou a galinha?

janeiro, 2008

O título remete à tão famosa pergunta. Quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha? Segue a eterna discussão sobre a resposta paradoxal. Mas será mesmo que a questão do ovo e da galinha é paradoxal? Curiosamente, a resposta para esta questão esta atrelada diretamente com o desenvolvimento da vida na Terra.

E não podia ser diferente. O ovo é uma estrutura reprodutiva compartilhada por uma infinidade de espécies. Trata-se basicamente do resultado entre a união do espermatozóide com o óvulo no momento da reprodução. A estrutura é basicamente a mesma, o embrião resultante da fecundação do óvulo e uma porção de vitelo que serve de alimento para o embrião. No caso do bem conhecido ovo de galinha, o embrião seria a gema e o vitelo a clara.

Pode-se dizer seguramente que o ovo surgiu primeiro que a galinha. O motivo é simples, antes que a primeira ave aparecesse na primitiva face deste planeta, os oceanos já eram habitados por peixes e outros animais que botam ovos. No caso dos peixeis o ovo não possui uma casca rígida. A fecundação é externa, ou seja, a fêmea deposita os óvulos em uma superfície qualquer no mar e o macho despeja seus espermatozóides por cima.

Ovos como dos peixes possuem um problema evidente. São muito sensíveis a mudanças climáticas e são alvo fácil de predadores. Esse problema ainda não seria resolvido com os primeiros animais a sairem do mar em direção à terra, os anfíbios. Os ovos dos anfíbios são bastante similares aos dos peixeis, a fecundação também é externa e eles precisam estar submersos em água.

Os primeiros ovos com casca rígida surgiram com os répteis. Foram um passo muito importante para a dominação de ambientes secos, já que a casca rígida protegia muito bem o embrião contra intempéries e ataques predatórios. A invenção do ovo de casca rígida coincide com o aparecimento de um novo orgão. O penis. O fato é que a casca rígida não permite que o espermatozóide seja lançado por sobre o ovo, era preciso fecundar o óvulo antes que ele se tornasse rígido. A fecundação portanto deveria ser interna e o pênis cumpre esse papel com elegância. Nós, machos mamíferos, devemos tudo aos repteis.

Na maioria dos mamíferos o ovo sofreu sérias modificações. A casca rígida se perdeu, mas pra compensar, o embrião se desenvolve no interior da mãe. A estratégia é igualmente boa, a proteção do embrião é garantida e ganha-se a vantagem de a mãe poder se locomover sem perder de vista sua futura cria. Já nas aves a estrutura do ovo é muito parecida com a dos repteis, a fecundação é interna e nem sempre é feita com o auxilio de um pênis. Na verdade, no caso das aves, o pênis não é muito vantajoso pois representa um peso extra a se carregar durante o vôo. Não é de surpreender portanto que aves como as de rapina não possuam pênis enquanto os avestruzes possuem. No caso das aves que não possuem pênis, macho e fêmea encostam suas cloacas (estruturas parecidas com o anus, mas que servem para todos os tipos de excretas e reprodução) e o macho deposita seus espermatozóides dentro da fêmea.

Acho que a pergunta correta a se fazer é: Quem surgiu primeiro, o ovo de galinha ou a galinha? Neste caso, a resposta seria que ambos surgiram ao mesmo tempo durante os processos evolutivos. O fato é que a questão sobre quem veio primeiro é tão válida quanto o paradoxo do biscoito Tostines, só vale enquanto considerada de forma despretensiosa.

A ciência e o ateísmo

janeiro, 2008

A correlação entre ateísmo e ciência não é nova. Não são poucos os cientistas de fama que ostentam tal bandeira. De fato, as vezes fica a impressão de que ser ateu é uma espécie de pré-requisito para ser um bom homem de ciência. O cenário é ainda reforçado pelos embates públicos entre líderes religiosos e a comunidade científica, mal entendidos a respeito do funcionamento da ciência (e talvez até das religiões) e a mídia incendiária que se aproveita da polêmica pra vender jornal.

Uma ciência laica.

Me é curioso que, nestas questões em que se faz necessário compreender alguns conceitos, que os pilares da ciência nem sempre sejam consultados. Como já foi discutido em outro texto neste site, a ciência tem por um dos valores principais a neutralidade. Isso significa, entre outras coisas, que o empreendimento científico não deve assumir inclinações partidárias ou religiosas. A ciência, ao menos epistemologicamente, é laica.

Tomemos por laico o seu significado correto, ou seja, de neutralidade religiosa completa. É importante compreender bem o significado deste conceito, já que não raro a laicidade é encarada como um movimento contrário à religiões.

Fui questionado recentemente se essa laicidade científica é desejada. Acredito que seja não só desejada, mas fundamental. Em uma investigação científica, aonde se pretende compreender da melhor forma possível o objeto de estudo, é importante que as interferências externas sejam minimizadas da melhor forma possível. Ideologias, credos e inclinações políticas podem afetar a investigação de modo a comprometer os resultados.

Talvez seja possível argumentar que, no caso das ciências sociais, a laicidade não seja um valor relevante. No entanto, por mais que os métodos das ciências sociais se difiram dos métodos das ciências naturais, ainda é desejável que o objeto de estudo seja investigado da forma mais precisa possível. Sendo assim a laicidade, e antes disso a neutralidade, ainda é um valor desejável.

Da epistemologia à aplicação.

Parece existir no entanto uma dificuldade em preservar os valores epistemológicos em cenários reais. Não são raros os casos em que a neutralidade da ciência é fortemente golpeada pelas ideologias, credos e inclinações políticas do cientista. Entendo que essa separação seja, em muitos momentos, utópica. Valores externos à ciência já afetam o cientista antes mesmo de ele iniciar qualquer pesquisa. Com freqüência, a linha que de pesquisa esta intimamente ligada aos seus valores. Tal fato não é exatamente um problema, desde que o cientista consiga dosar com cautela a interferência destes valores.

Uma muleta chamada ciência

Acredito que a questão principal na relação entre ateísmo e ciência é a forma como a ciência é usada como sustentação do ateísmo. A verdade é que não existe absolutamente nada na ciência que embase, ainda que minimamente, a inexistência de Deus. Em verdade não é o objetivo do empreendimento científico lidar com essas questões e o motivo é simples: A ciência lida com fenômenos naturais e, por definição, Deus é uma entidade sobrenatural.

Talvez seja exatamente por isso que tantos ateus usem a ciência como muleta, uma atividade tão materialista serve muito bem aqueles que desejam negar a possibilidade de um mundo imaterial. É importante notar que não estou aqui defendendo a existência deste outro mundo. Apenas tento estabelecer que não há motivos suficientemente fortes para atrelar à ciência ao ateísmo ou a qualquer outro movimento religioso.

É importante termos em mente que a ciência é maior que o cientista e, muito embora ambos se relacionem intimamente, as opiniões do cientista não são necessariamente fundamentadas cientificamente.

Feliz ano novo, feliz Polegar Opositor novo.

janeiro, 2008

O Polegar Opositor é ainda um projeto que da seus primeiros passos. A idéia inicial era fazer divulgação científica, criar um espaço aonde as pessoas que não possuem ligação direta com a ciência pudessem entender melhor sobre o que é, e como funciona o empreendimento científico. Nesse sentido acredito que o Polegar tenha atingido seu objetivo. Em seus poucos meses de vida os assuntos levantados neste espaço serviram pra desmistificar mitos, provocar polêmicas, esclarecer alguns pontos obscuros da ciência e propor reflexão sobre outros tantos temas.

No entanto, tudo muda. Embora a divulgação científica continue sendo o foco principal do Polegar Opositor a partir de hoje expandimos nossos objetivos para abranger outros temas relacionados à ciência. Também abrimos espaço para que o Polegar Opositor seja um espaço de debates e troca de idéias, um local de livre expressão aonde a ciência e seus temas correlatos possam ser analisados, debatidos, contrariados, defendidos e por ai vai.

Para alcançar tais objetivos o Polegar agora conta com novos colaboradores de diversas áreas do conhecimento, pessoas de competência e que possuem o perfil que os novos objetivos deste site necessitam. Espero sinceramente que o Polegar Opositor possa se tornar um lugar de referencia em divulgação, educação e discussão científica. Aproveitem ao máximo o novo visual do site, os novos materiais prestes a irem ao ar e usem esse espaço para promover o debate saudável.

Um feliz ano novo a todos e um feliz Polegar Opositor novo.

Thiago Henrique Santos.

Eugenia x Evolução

janeiro, 2008

Não são raras as vezes em que a teoria evolucionista darwiniana é acusada de dar suporte a políticas eugênicas. No dia 24 de dezembro de 2007 o Sr. Olavo de Carvalho nos presenteou com mais um de seus textos bombásticos, estabelecendo um contexto histórico inventado, criticando as transformações e modificações da teoria e acusando-a de embasar as idéias de busca por uma raça humana superior.

Vou direto ao ponto que quero abordar, ignorando toda a baboseira desconexa que Olavo cria ao inventar uma linha do tempo sem fundamentação para o surgimento do pensamento evolucionista. A relação da evolução com as idéias de eugenia não se sustenta cientificamente por vários motivos. É preciso primeiramente lembrar que, no caso da teoria darwiniana, o termo “evolução” não é usado em sua condição usual de progressão.

Não existe uma “escada evolutiva” que remete a um igualmente inexistente “último degrau” aonde o homem estaria hipoteticamente situado. Essa visão parece bastante comum mas biologicamente falando, o homem é considerado mais uma entre tantas espécies. É muito importante entender esse conceito. Algumas espécies são evidentemente mais complexas que outras, no entanto não são “mais evoluídas”.

O termo evolução neste caso, se aplica a variações na freqüência alélica do material genético do indivíduo. Acredito que já expliquei isso antes neste mesmo blog, mas o faço novamente. Quando da ocasião da multiplicação das células gaméticas, ou células reprodutivas, processos de mutação modificam algumas áreas do DNA .

Em geral modificações profundas são extremamente nocivas e a célula se torna inviável para os fins a que serve. Em todo caso eventualmente a mutação pode não ser tão drástica e não torna a célula inviável. As mutações produzem modificações nos alelos e é a isso que o termo evolução se refere.

O efeito é melhor observado em organismos simples e de reprodução acelerada, como as bactérias. Em regra estamos todos passando por processo semelhante e a longo prazo, e com o devido isolamento, seria possível observar os efeitos dessas modificações em organismos complexos. No entanto, o tempo de observação seria tão grande que não é possível realizar de forma controlada.

Os fósseis no entanto nos ajudam a inferir esse efeito e a traçar um caminho evolutivo para cada espécie do planeta. Veja que apenas o bom entendimento deste conceito já serve como contra-argumento para a tentativa desonesta de estabelecer vínculos entre a evolução darwiniana e e a eugenia. Se não existem espécies mais ou menos evoluídas, se a evolução não segue em uma escala direta, então não se pode produzir uma raça superior.

No entanto, existe ainda um outro argumento biológico que ajuda a entender de uma vez por todas que o sistema eugênico não faz sentido. É sabido que a variabilidade genética de uma espécie é importante para a manutenção desta espécie. Ou seja, quanto maior a variabilidade dopool gênico da espécie, mais difícil será de ela enfrentar eventuais problemas de adaptação.

Na eugenia a idéia é produzir uma raça “pura”, evitando a miscigenação dos indivíduos. Evitar a miscigenação é diminuir intencionalmente o pool gênico da espécie, restringindo a variabilidade e deixando a espécie mais suscetível a problemas de adaptação ou de ordem genética. É evidente portanto que a biologia ou qualquer outro ramo da ciência jamais tentou justificar ideologias quaisquer.

Qualquer biólogo poderia ter facilmente esclarecido as dúvidas do Sr. Olavo de Carvalho e evitado que ele, mais uma vez, fosse tido como um mentiroso tendencioso que deforma a realidade da maneira como quer para poder sustentar sua insanidade.

Resta a dúvida de até quando ele continuará se passando por alguém com ideais e será finalmente encarado como realmente se deve, um charlatão ignorante que não faz a menor idéia do que esta falando.

Autonomia e Neutralidade Científica.

dezembro, 2007

Os mais diversos métodos científicos, mais notadamente os positivistas e os racionalistas, com frequência defendem que a ciência deve ser autônoma, neutra e imparcial. O filósofo Hugh Lacey possui uma série de ótimos ensaios sobre o tema, e uma proposta bastante particular sobre a ciência moderna. Lacey também diz que destes três valores, apenas a imparcialidade ainda é mantida.

Para compreendermos o raciocínio de Lacey é preciso antes entender como ele define os três valores. A imparcialidade diz respeito aos meios em que teorias científicas são escolhidas ou priorizadas em detrimento de outras. Essa seleção de teorias é feita através de um método bem definido, que elege uma série de critérios e que são a base da seleção das teorias. Como todas as hipóteses e teorias devem se enquadrar a este método e satisfazer seus critérios, o processo torna-se imparcial. A neutralidade se refere aos valores externos ao método científico. Valores sociais e morais, por exemplo, não deveriam afetar as ações da ciência. Uma descoberta científica ou uma pesquisa qualquer não deve beneficiar interesses e valores. Em tese a ciência não tende para o bem ou para o mal, tende para o neutro. A autonomia atesta que cabe a ciência decidir suas próprias prioridades e seus próprios meios.

Pela breve explicação acima é possível chegar a certas conclusões. De fato a imparcialidade parece estar garantida. Não importa qual método científico seja mais aceito, nem mesmo importa que ele deixe de ser aceito em detrimento de outro, as escolhas das teorias científicas sempre serão baseadas em critérios fixos estabelecidos pelo método. Tal processo garante a imparcialidade.

Já a neutralidade esta bastante comprometida. Na verdade, acredito que a neutralidade só é possível epistemologicamente. quando chega ao plano de aplicação seu conceito simplesmente não se enquadra ou não é obedecido. É primeiro preciso lidar com os valores morais, éticos e culturais do próprio cientista. Esses valores não são universais normalmente indissociáveis do indivíduo. ora, um cientista não irá realizar pesquisas que vão de encontro ao seus valores, ao menos não por vontade própria.

A autonomia científica passa pelo mesmo processo de comprometimento. O cientista não desenvolve suas pesquisas de forma independente, sofre influencia de pressões sociais e interesses comerciais. Problemas que acometem a espécie humana, como doenças pandêmicas (AIDS, gripe aviária), com efeito provocam uma pressão social para a busca pela solução do problema. Da mesma forma, interesses comerciais acabam guiando a ciência em direções específicas. Todo cientista precisa de financiamento, e ninguém financia nada que não irá trazer retorno financeiro. As pressões sociais e as limitações de financiamento acabam por limitar a autonomia da ciência.

Devemos observar que a epistemologia de Lacey permite o confrontamento de suas definições com a aplicação em um “mundo real”, e desta capacidade de confrontamento que vem o apelido de “epistemologia engajada”.

Em todo caso, é importante lembrar que a ciência é uma atividade humana como qualquer outra. Não se trata de algo especial, trata-se apenas de uma maneira de entender o mundo físico e de como interagir com ele.

O pequeno problema da mídia.

novembro, 2007

O pequeno problema da mídia é que toda notícia é, antes de qualquer coisa, um produto a ser vendido. Hipoteticamente não haveria problema algum com isso, não fosse o fato de a notícia ser processada, como se fosse matéria prima, e vendida em uma embalagem bonita, como se fosse um pacote de salgadinhos. Um bom exemplo disso foi a recente publicação de um estudo que demonstrava uma forma de se conseguir células tronco polivalentes (células tronco capazes de se transformarem em qualquer tido de célula, com exceção dos anexos embrionários.), hoje extraídas apenas de embriões, usando células da pele.

Eu tive a oportunidade de receber a notícia através do Jornal Nacional da Globo. A reportagem anunciava o fato, dizendo rapidamente algo sobre a técnica empregada e em seguida alardeando que esta deve ser a maior descoberta, no campo de pesquisa com células tronco, dos últimos tempos. A reportagem seguia ainda mostrando todos os benefícios do tratamento com células tronco polivalentes, passeatas de pessoas com problemas físicos que teoricamente só poderiam ser resolvidos com o uso de células tronco e encerrava com o aval do Vaticano sobre a nova técnica. No dia seguinte, o mesmo Jornal Nacional, no mesmo horário, divulgou uma outra matéria.

O anuncio da matéria dizia que “cientistas brasileiros olham com cautela para a nova técnica que transforma células da pele em células tronco embrionárias”. O que o Jornal Nacional não disse foi que provavelmente TODOS OS CIENTISTAS SÉRIOS DO MUNDO estão olhando com cautela para o novo método, possivelmente até seus descobridores estão cautelosos. Mas já estava feito. Após as matérias do Jornal Nacional todo o tipo de revista, reportagem, entrevista e mesa redonda foi feito sobre o tema.

A notícia virou produto e muita informação circulou nos dias subsequentes. A questão é, qual era a qualidade da informação vendida? Há motivos para alardear tanto uma descoberta científica? Quais os interesses por trás disso tudo? Difícil responder tais questões. É possível afirmar apenas que a técnica é muito interessante por resolver o maior problema do estudo com células tronco hoje, a questão moral sobre os embriões. No entanto a descoberta é recente e não sabemos suas consequências.

A técnica usada para transformar as células de pele em células tronco é a manipulação de genes, e a manipulação de genes não é algo exatamente previsível. Em geral, erros na manipulação inviabilizam a célula modificada. No entanto, não há motivos pra crer que a manipulação desses genes seja de todo segura. Outra questão é de que o uso terapêutico de células tronco embrionárias em animais com frequência resulta em um câncer com resultados fatais e não na cura para a doença tratada. Este é o motivo para todos os cientistas estarem cautelosos sobre a nova técnica, e é por isso que os meios de mídia deveriam ser mais cautelosos ao divulgar a descoberta.

Que vendam seu produto, mas que o façam de forma responsável, especialmente no que diz respeito a novas descobertas científicas. Quanto a nova técnica, sejamos cautelosos, mas vamos torcer para que ela possa se desenvolver de forma a trazer os benefício esperados.