Raça Humana

agosto, 2007

Existem questões na biologia que são controversas por suas implicações político-sociais. Entre as mais discutidas está a existência ou não de raças (ou subespécies) na espécie humana. Até pouco tempo eu mesmo tinha dúvidas sobre essa questão. Durante a faculdade a maioria dos professores que foram indagados sobre o assunto, assumiam que as diferenças morfológicas encontradas entre negros, caucasianos e mongolóides são suficientes para deixar claro a existência de raças na espécie humana. No entanto, parece que as coisas não são bem assim.

É fato que a análise morfológica sempre teve papel fundamental na classificação de espécies. Era justamente a análise das estruturas dos animais encontrados que determinava sua classificação taxonômica. A morfologia ainda é empregada hoje, mas a genética começou a modificar a forma como a taxonomia (ciência que estuda a classificação dos animais) define o lugar de cada animal na árvore da vida.

E vem da genética as bases do conceito de raça empregado atualmente na biologia. Tal conceito atesta que o termo raça pode ser empregado quando membros de duas comunidades possuem diferenças genéticas maiores do que entre membros de sua própria comunidade. Em termos mais simples funciona assim:

  • É feita a análise do código genético de uma população caucasiana e uma população negra;
  • O código genético dos indivíduos da população caucasiana são comparados a fim de se estabelecer uma porcentagem da variação genética desta população. O mesmo é feito com a população negra;
  • O código genético dos indivíduos caucasianos é então comparado ao código genéticos dos indivíduos da população negra a fim de se estabelecer a porcentagem de variação genética destas duas populações;
  • Caso a análise ateste que existem maiores diferenças genéticas entre indivíduos caucasianos e indivíduos negros do que entre indivíduos de uma mesma população, então podemos dizer que existe uma raça.

Tal análise foi de fato realizada na ocasião do projeto genoma e a conclusão a qual se chegou foi de que não existem variações genéticas consideráveis entre populações diferentes na espécie humana. A diferença genética entre mim e um pigmeu australiano é a mesma que entre mim e minha irmã, por exemplo. É curioso notar que nem mesmo entre os cachorros o conceito de raça biológica poderia ser utilizado, também pelos mesmos motivos.

O conceito de raça então não é biológico. A bem da verdade a palavra “raça” hoje em dia define muito mais uma etnia do que uma subespécie. Vale lembrar também que nós já somos enquadrados como uma subespécie. O nome científico utilizado para nos descrever é Homo sapiens sapiens, sendo a palavra “Homo” o nosso gênero, o primeiro “sapiens” nossa espécie e o segundo “sapiens” nossa subespécie. A nomenclatura biológica atual não prevê regras para definições de subgrupos de subespécies, o que reforça a idéia de que sendo o ser humano moderno uma subespécie não deve ser dividida ainda mais em subgrupos adicionais.

Evidente que o conceito de raça pode continuar sendo empregado de forma comercial para definir diferentes linhagens de cachorros ou cavalos, mas devemos lembrar que é um termo que não é sustentado pela biologia e não deve ser utilizado como forma de diferenciação morfológica. O termo também não deveria ser utilizado para definir as diferenças existentes entre indivíduos humanos, talvez a palavra etnia realize tal função de forma mais eficiente já que é empregada para diferenciar as particularidades culturais das mais diversas populações.

Indo além:

Genes, Povos e Línguas
A Invenção das Raças

A difícil arte do saber ouvir.

agosto, 2007

Me vem agora a situação ocorrida entre Albert Einstein e Edwin Hubble, dois dos maiores cientistas de todos os tempos. Na ocasião do desenvolvimento da teoria da relatividade geral Einstein partia de um modelo de universo estático. Para que seus cálculos fossem condizentes com esse modelo estático Einstein criou a constante cosmológica¹. A constante foi contestada por Edwin Hubble que propôs um modelo de universo em expansão que excluía a necessidade de uma constante nos cálculos da relatividade geral. Einstein então abandonou sua idéia alegando que ela teria sido o maior erro de sua vida.

Em um cenário ideal o debate científico deveria ser sempre assim. Não raro as teorias científicas se contradizem ou explicam fenômenos de formas diferentes. Não há nada errado com isso, é assim que se constrói o conhecimento científico. No entanto, nem sempre os defensores de teorias concorrentes estão dispostos a debater abertamente sobre suas linhas de pensamento.

Se o problema de comunicação já ocorre entre a comunidade científica, o mesmo se dá em graus ainda mais preocupantes quando uma teoria qualquer é discutida não só pelos cientistas mas também por leigos. Nada de errado com isso também, uma das grandes virtudes da ciência é se prestar ao debate amplo. Evidente que para tal os interlocutores devem compreender minimamente o tema que desejam debater. No entanto, isso nem sempre ocorre.

Infelizmente é muito comum a existência de debates que fogem ao que é saudável, ao debate sério e que busca o crescimento intelectual geral e o esclarecimento sobre o assunto debatido, se atendo ao combate de egos, crenças e posições políticas. Acredito que parte deste problema é a dificuldade aparentemente comum que muitas pessoas tem em parar para ouvir os argumentos e idéias de seus “adversários”. Analisar de forma séria e sem preconceito idéias opostas não é fácil, confesso que tenho este problemas muitas vezes.

Ouvir é difícil mas totalmente necessário. Devemos nos esforçar para ouvir posições contrárias às nossas, devemos dar a chance para que o “outra lado” possa construir seus raciocínio e expor as justificativas às suas idéias. Somente desta forma podemos analisar melhor nossos próprios pontos de vista e, no geral, isso é ótimo. Aponta problemas e defeitos em nossas idéias, suas limitações e as formas como melhorá-las.

Devemos nos policiar ao máximo e manter a mente sempre aberta a mudanças e a novas idéias. É importante evitar ataques ad hominem já que desacreditar nossos adversários não é ético, bonito e nem invalida suas idéias. Debates devem se prestar a troca de idéias e análise destas idéias, não existem vencedores e perdedores em debates sérios. Saber ouvir e permitir a livre expressão de idéias e teorias opostas as nossas faz parte da construção do conhecimento científico e moral de todos, e seria ideal se todos tivéssemos a humildade que Einstein teve.

Saber ouvir é, antes de tudo, um exercício fundamental para o bem estar da sociedade e para o progresso honesto.

¹: A constante cosmológica hoje em dia é considerada como válida na teoria atualmente discutida de que o universo na verdade esta em expansão acelerada. O caso demonstra mais uma vez o caráter dinâmico da ciência, aonde teorias e idéias que hoje são julgadas como ultrapassadas podem ser consideradas válidas novamente em decorrência de novas descobertas.

Design Inteligente?

agosto, 2007

Vamos imaginar uma situação simples. Você entra na cozinha de sua casa e encontra um bolo de fubá prontinho em cima da mesa. Enquanto considera se deve comer o bolo com leite condensado ou manteiga você pode se perguntar sobre a origem do bolo. Foi feito em casa? Foi comprado? Mas será que você consideraria a hipótese de o bolo ter se formado por uma série de eventos acidentais aleatórios? Você consideraria a idéia de um caminhão de farinha ter atropelado uma banca de ovos da feira em frente a sua casa e no acidente ter lançado a quantidade certa de farinha e ovos pela sua janela dentro de uma forma localizada em cima do fogão e que caiu dentro do seu forno, ligando o fogo no processo e assando o bolo?

A situação hipotética acima é um exemplo das argumentações feitas pelos defensores da teoria do Design Inteligente contra a teoria da evolução. A idéia é de que os organismos vivos são complexos demais para terem se originado por um processo aleatório, alguns sistemas orgânicos como os olhos e o fator de coagulação são tão complexos que dificilmente poderiam ter se formado de forma gradual como sugere a teoria neodarwinista. É o que o Design Inteligente chama de complexidade irredutível. Como solução alternativa ao “deixa estar” natural proposto pela teoria da evolução, o DI propõem então que a única explicação plausível para o problema é a intervenção de uma inteligência superior não definida. O próprio designer inteligente.

Mas será que o Design Inteligente pode ser considerado uma teoria de fato? Seria ele uma alternativa à teoria da evolução, como assim desejam seus defensores?

Se lembrarmos do racionalismo crítico vamos notar que para que uma hipótese seja considerada como teoria ela deve, obrigatoriamente, poder ser falseada. Estabelecer argumentos ou hipóteses em princípios que não possam ser negados ou comprovados é o mesmo que retirar todo o objetivismo de um enunciado. A pedra fundamental do DI é a existência de uma inteligência superior que afeta diretamente os processos biológicos deste planeta. Mas qual a natureza dessa inteligência superior? Aonde ela está? Como ela age? E quando? Sob quais condições?

Todas essas perguntas não são respondidas ou mesmo abordadas pelo DI. Tudo o que o DI faz é tentar explicar um fato natural utilizando-se de algo que não podemos saber como é ou mesmo se existe de fato. Fica evidente portanto que o DI não pode ser encarado como uma teoria séria, na verdade, não pode ser encarado sequer como uma teoria.

O argumento da complexidade irredutível já foi refutada diversas vezes por cientistas diferentes. Os princípios de evolução convergente e divergente fornecem uma explicação plausível e científica sobre a origem de partes complexas. Mesmo Michael Behe, um dos maiores defensores da complexidade irredutível, abandona a idéia em seu livro mais recente, aceitando a ancestralidade comum dos seres vivos mas alegando que esta ancestralidade ainda é guiada por um “designer inteligente”.

O Design Inteligente não se sustenta. Suas argumentações contra a teoria da evolução são fracas e geralmente refutáveis. Não apresenta indícios sérios de seus enunciados e não deve ser encarado como uma alternativa válida à teoria da evolução.

Indo além:

A Caixa Preta de Darwin

O Relojoeiro Cego

A Escalada do Monte Improvável

Como a ciência funciona: O Racionalismo Crítico moderno e suas críticas.

agosto, 2007

As idéias de Popper, que foram discutidas no texto anterior, sofreram severas críticas de uma série de filósofos. Entre eles podemos sitar Thomas Khun e Lakatus. As críticas desses filósofos diziam que históricamente uma teoria que tenha sido superada por outra não é, muitas vezes, descartada e pode continuar sendo válida. Um bom exemplo desse cenário é o que ocorre com a teoria newtoniana e a teoria da relatividade de Einstein. A primeira tendo sido superada pela segunda deveria ter sido descartada, no entanto muitos cálculos ainda são feitos baseados na teoria newtoniana mesmo essa tendo sido superadas.

Alguns opositores do racionalismo crítico tem como alegação central de que não é possível falsear qualquer teoria existente. Basta modificar as hipóteses auxiliares que suportam a teoria para resolver o problema. Seria o equivalente a dizer que ainda que não se encontrassem fósseis transitórios que pudessem suportar a teoria da evolução isso não invalidaria a teoria pois os fósseis podem não ter se formado por diversos motivos, ou por que os animais transitórios não existiam em número suficiente a ponto de deixarem fósseis ou ainda por que não foi possível encontrar tais fósseis.

Para alguns racionalistas críticos modernos no entanto, as críticas as idéias de Popper são infudadas. Eles alegam que com efeito as teorias, ainda que tenham sido superadas, podem ser alvo de dedicação de grupos de cientistas com o interesse de atualizá-las ou solucionar os problemas que às levaram a serem deixadas de lado. Ou seja, ainda que a teoria tenha sido falseada, ela pode passar por modificações que permitam que ela tenha validade novamente.

Portanto, ainda que o racionalismo crítico tenha opositores, ele ainda é aceito como sendo válido e é de qualquer forma um bom método para se avançar no entendimento do universo que nos cerca. As idéias de Khun e Lakatus também são defendidas por grupos de cientistas e seus conceitos também são válidos embora muitas vezes sejam divergentes com o racionalismo crítico.

A série de artigos sobre o método cientifico se encerra aqui. Um tema tão fundamental e abrangente forneceria por si só material para um site exclusivo. Não pretendo transformar o Polegar Opositor em um dossiê sobre o método científico, mas inevitavelmente este será um tema recorrente. Espero ter conseguido condensar o tema a ponto de torná-lo inteligível para todos que aqui chegaram mas em caso de dúvidas e sugestões, por favor, não exitem em usar a caixa de comentários ou os tentilhões.

Indo além:
O Método Científico: Como o Saber Mudou a Vida do Homem

Como a ciência funciona: O Racionalismo Crítico.

julho, 2007

O positivismo lógico, discutido no texto anterior, apresentava alguns problemas como método científico. Ele simplesmente não era compatível com novas idéias que vinham ganhando espaço como a teoria da evolução através da seleção natural e a física quântica. Era fato que essas teorias não podiam ser embasadas em observações empíricas já que seus enunciados tratavam de coisas que demoram muito tempo para ocorrer ou que são pequenas demais para serem observadas.

A solução veio com Karl Popper e seu racionislismo crítico. Popper negava o caracter cumulativo do conhecimento científico e argumentava que não era possível saber se uma teoria estava mais próxima da verdade do que outra. Popper então propôs uma mudança de visão, alegava que seria muito mais acertado tentar falsear a teoria do que verificar sua legitimidade. Para tal, Popper acreditava que toda hipótese deveria passar por severos testes de verificação de seus enunciados, se a hipótese resistisse a uma tentativa de demonstrar que ela era falsa ganhava o status de teoria.

A teoria então era considerada como a mais aceita para explicar determinado evento ou fenômeno e continuava válida até que uma nova teoria fosse proposta. Quando isso acontecia, segundo Popper, a teoria anterior deveria então ser descartada e substituída pela nova teoria. Definiu-se então o conceito de força de uma teoria. Quanto mais ela resistisse ao processo de falseamento, mais forte ela se tornava.

Pelo racionalismo crítico era possível aceitar hipóteses que trabalhavam com previsões que não poderiam ser testadas de forma empírica. Um exemplo disso é a própria seleção natural que, a grosso modo, diz que a diversidade biológica do planeta é explicada pela evolução de espécies partindo de outras já existentes de acordo com modificações aleatórias selecionadas pelo meio ambiente. Pelo positivismo lógico seria necessário observar o surgimento de uma nova espécie para que a hipótese da seleção natural fosse considerada válida ganhando o status de teoria. Pelo racionalismo crítico poderíamos nos valer de algumas previsões da hipótese para fazer um teste na tentativa de falsear a teoria. Por exemplo, uma das previsões da seleção natural é a existência de fósseis de animais intermediários entre duas espécies existentes. É fato conhecido a quantidade de fósseis encontrados que corroboram com essa previsão, portanto a seleção natural passou pelo teste de falseamento de uma de suas previsões.

Veja que caso não fosse encontrado fósseis que corroborassem com a seleção natural, ela seria descartada como teoria (teria sido falseada) e uma nova teoria deveria ser proposta para explicar a biodiversidade do planeta.

Em resumo:

  • A: O racionalismo crítico nega que o conhecimento cientifico tenha caráter cumulativo;
  • B: Alega que não é possível saber se uma teoria está mais próxima da verdade do que outra e;
  • C: Estabelece que toda teoria tem caráter provisório e que deve ser substituída quando uma de suas previsões for falseada.

A mudança de paradigma proposta pelo racionalismo crítico permitiu a expansão do conhecimento científico, mas será que seria ele a resposta definitiva para o método? É o que veremos no próximo texto.

Indo além:

Método Científico: Como o Saber Mudou a Vida do Homem

Como a ciência funciona: O Positivismo Lógico.

julho, 2007

No texto anterior tratamos sobre a definição de hipótese, teoria e lei de acordo com as ciências naturais. Só pra relembrar o que foi dito:

  • A: Hipóteses são idéias que tentam explicar um fato observável;
  • B: Teorias são hipóteses que passaram pelo processo de averiguação de suas previsões e;
  • C: Leis são hipóteses que explicam eventos que ocorrem com regularidade.

A pergunta lógica que deveríamos fazer ao observar as definições acima é, qual o processo de averiguação que se usa para constatar as previsões ou a regularidade de uma hipótese? Essa é uma pergunta bastante importante já que o método empregado acaba por definir o que é uma teoria ou o que é apenas uma hipótese sem valor algum.

No decorrer da história do mundo, houveram muitas propostas sobre o método de análise cientifica. Um dos mais notáveis foi chamado de Positivismo Lógico (ou Empirismo Lógico). O Positivismo Lógico surgiu durante o Iluminismo e teve forte influência do círculo de Viena e do trio britânico de filósofos, John Locke, George Berkeley e David Hume.

Pelo Positivismo Lógico uma hipótese só pode ser considerada válida se suas previsões puderem passar por um teste empírico, ou seja, se suas previsões puderem ser observadas ou sentidas pelosorgãos dos sentidos.

Por exemplo, eu posso pegar uma caixa de “Especialidades Nestlé” e dizer que dentro dela vão ter três Charges. Bastaria abrir a caixa e contar a quantidade de Charges que ela contém, se fossem três minha hipótese estaria confirmada de forma empírica e passaria a ser chamada de teoria. A teoria permaneceria válida até que uma caixa de “Especialidades Nestlé” que contivesse qualquer número de Charges diferente de três fosse encontrada.

Observamos portanto que pelo método do Positivismo Lógico toda teoria era válida até que se provasse o contrário e o conhecimento cientifico podia ser quantificado de forma probabilística. Ou seja, quanto mais caixas de Especialidades Nestlé fossem abertas e contivessem três Charges, mais provável era de que o enunciado “toda caixa de Especialidades Nestlé tem apenas três Charges” fosse verdadeiro.

Podemos afirma então que o Positivismo Lógico:

  • A: Estabelecia o empirismo como o diferencial do que era cientifico e do que era metafísico e
  • B: Pregava a progressão do conhecimento cientifico.

O Positivismo Lógico foi a base do método cientifico até que recebeu severas críticas do filósofo austríaco Karl Popper. As críticas de Popper bem como suas idéias serão discutidas no próximo texto.

Indo além:

O Método Científico: Como o Saber Mudou a Vida do Homem

Como a ciência funciona: Hipóteses, teorias e leis.

julho, 2007

Muito embora eu tenha nascido no país do futebol, não entendo nada do esporte. Eu vejo toda essa comoção das pessoas ao verem aquele bando de homens correndo atrás de uma bola. Nada contra, claro, mas simplesmente não entendo de futebol. Ponderando sobre o assunto eu cheguei a uma conclusão bastante simples, não entendo de futebol pelo simples fato de não conhecer suas regras. É, eu sei, parece óbvio. Mas tal constatação me levou a considerar que talvez ocorra o mesmo com as ciências naturais.

Existe uma idéia geral sobre a ciência e os cientistas, e esta idéia é muitas vezes equivocada. Entendo que o problema está justamente na falta de informação sobre o que raios é a ciência afinal e quem exatamente são esses homenzinhos de óculos fundo de garrafa e jaleco branco conhecidos como cientistas. Quais as “regras do jogo” e como ele funciona?

Para entender como a ciência age é imprescindível antes de qualquer coisa compreender o significado de três termos chave: Hipótese, teoria e lei. É muito importante compreender a diferença destes três termos para o método cientifico, pois toda a filosofia da ciência se baseia justamente na compreensão e interpretação da interação dos mesmos. Não raro todos eles são interpretados de forma coloquial, causando ainda mais confusão entre as pessoas que não estão habituadas com o cenário científico.

As hipóteses são a base do método. São basicamente idéias que tentam explicar algum evento observável. Por exemplo, vamos supor que você esteja assistindo a um jogo de futebol pela televisão. O atacante do seu time então ganha a posse de bola, dribla dois zagueiros e chuta a bola em direção ao gol. A bola, pro azar de suas pontes de safena, bate desagradavelmente na trave do gol adversário e vai pra fora. Você, desesperado e à beira de uma parada cardíaca, solta um palavrão e considera que a bola saiu pois o atacante de seu time chutou com muita força.

Se pararmos para analisar o evento acima podemos definir como evento observável a jogada fracassada do atacante. Através do fato observável você então explica o evento alegando que foi o chute forte do atacante que causou o fracasso da jogada. Essa explicação seria justamente a hipótese. Veja que a hipótese por si só não quer dizer muita coisa, poderíamos formular outras diversas justificativas para o erro do atacante. Poderíamos supor que o vento desviou a bola ou que o atacante é míope.

Uma teoria nada mais é que uma hipótese que passou por um processo de verificação de suas previsões. Uma boa forma de compreender isso é voltar ao exemplo do jogador que errou o gol. Uma das hipóteses sobre a jogada malfadada é a de que o atacante é míope. Bastaria um exame de vista para concluir se o atacante é ou não míope. Em caso de comprovação da miopia do atacante, a hipótese se mostra válida e recebe o status de teoria.

Acredito que o termo “teoria” é o que mais sofre com a desinformação. A maioria das pessoas acha que uma teoria cientifica tenha pouca validade ou credibilidade. Alegam que “é apenas uma teoria” e muitas vezes completam com “nada foi provado”. É importante observar que em ciências não existem “provas definitivas” de nada (e isso é assunto para outro post) e que portanto o status de teoria é considerado permanente, ao menos até que a teoria seja refutada ou substituída por outra melhor.

As leis cientificas também são provenientes das hipóteses. Recebem o status de lei por descreverem um evento observável que ocorre com regularidade. Podemos voltar novamente ao exemplo do jogador. Se observarmos que o atacante normalmente perde gols por chutar com muita força, podemos considerar então que é esperado que em ocasiões futuras, caso o jogador chute a bola com muita força, ele irá errar o gol. A hipótese então passa a ser considerada uma lei já que prevê um fato que ocorre com considerável regularidade.

Todos nós conhecemos a lei da gravidade. É evidente para todo mundo que em condições normais, se atirarmos uma pedra para o alto inevitavelmente ela irá cair.

É importante sempre lembrar então que:

  • A: Hipóteses são idéias que tentam explicar um fato observável;
  • B: Teorias são hipóteses que passaram pelo processo de averiguação de suas previsões e;
  • C: Leis são hipóteses que explicam eventos que ocorrem com regularidade.

Uma vez compreendendo estes três termos bastante utilizados em ciências fica fácil entender como o método cientifico como um todo funciona. Nos próximos textos irei tratar justamente sobre o funcionamento do método cientifico, suas diversas faces e o contexto histórico e filosófico de suas diversas encarnações.
Indo além:

O Método Científico: Como o Saber Mudou a Vida do Homem

Polegar Opositor

julho, 2007

O polegar opositor é um dedo modificado formado por três ossos. É uma novidade evolutiva presente nos hominídeos que permitiu com que esses animais pudessem desenvolver a habilidade de criar e manipular ferramentas. Sua estrutura muscular única lhe confere a oposição aos outros dedos e, muito embora ele tenha papel fundamental na evolução do homem e dos demais primatas, eu simplesmente não o utilizo de forma alguma pra digitar.

Evidente que os uso, se não para digitar, para assinalar de forma positiva as mais diversas ocasiões em que tal sinal se faz necessário.Poderia citar algumas dessas ocasiões, mas seria um completo desperdício de espaço.

A verdade, e agora eu vou falar sobre o que eu já deveria estar falando, é que tão formidáveis ferramentas servem muito bem para homenagear outra ferramenta, a ciência. E este é umblog sobre ciências, mais especificamente (embora não exclusivamente) às ciências naturais. Muito embora o objetivo principal deste blog seja o de criar um espaço para a divulgação da ciência, espero sinceramente que ele também sirva de palco para discussões e análise dos temas que passarem por aqui.

Sejam todos bem vindos ao Polegar Opositor e não se acanhem em mandar uma mensagem pelos tentilhões (ou usar a caixa de comentário).