Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

fevereiro, 2010

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

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Pra que serve esse bicho?

fevereiro, 2010

(I)

Estive no litoral recentemente e, numa conversa com meus amigos, disse que a craca é o animal que tem o maior pênis em relação ao tamanho do corpo. Maior do que a surpresa deles ao ouvir essa curiosidade foi a minha quando uma amiga perguntou: “Mas o que é uma craca?”. No dia seguinte, na praia, havia um galho na areia cheio de cracas, e então peguei o galho e mostrei para ela. Ela, com cara de indignação, disse: “Nossa, ISSO é uma craca? Pra que serve esse bicho?”.

Ela era a única não-bióloga do grupo em que eu estava, e não simpatizou com a idéia de que os bichos não precisam servir pra alguma coisa. Falei que Darwin estudou cracas por muito tempo e que os historiadores acreditam que ele aprendeu muita taxonomia, morfologia e ontogenética em seu trabalho com esses cirripédios, além de ter percebido coisas que o ajudaram mais tarde a escrever sua obra prima, A Origem das Espécies. Mas não adiantou.

(II)

Existe um grupo de seres vivos “conhecido” (entre aspas porque na verdade pouca gente conhece, mesmo entre os biólogos) como slime molds. Sua posição filogenética ainda é controversa; uns acham que eles são um grupo de fungos e outros defendem que eles são um grupo à parte, apenas aparentado aos fungos. De qualquer forma, tem gente que faz pesquisa com eles. E alguns desses pesquisadores fizeram uma descoberta muito interessante recentemente. Em resumo (mas vale a pena ler o artigo), ao estudar o padrão de crescimento e forageio (busca por alimento) de uma espécie de slime, descobriram uma forma de revolucionar os problemas de logística e transporte do Japão (!!).

(III)

Então, pra que servem slime molds? Ora, agora podemos planejar redes de transporte a partir do padrão de crescimento deles. Mas, antes disso, eles não serviam pra nada, assim como o fungo P. notatum não servia pra nada antes de descobrirem a penicilina. Mas e as cracas? E as baratas que nos enojam e os pernilongos que nos estorvam a noite? Pra que servem? No máximo, para manter o equilíbrio ecológico em seus hábitats, de onde extraímos coisas “úteis”. Na verdade, se formos medir o valor das espécies pela serventia que elas podem ter ao homem, é provável que descubramos que boa parte das espécies “não serve pra nada”. Mas, mesmo assim, elas fascinam muita gente, que dedica a vida inteira ao estudo dessas criaturas. Por que?

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Creation: uma crítica

janeiro, 2010

Quando li a notícia de que estavam fazendo um filme sobre como Darwin escreveu o Origem das Espécies fiquei bastante empolgado. Primeiro por que qualquer um que leu o livro biográfico escrito por Adrian Desmond e James Moore sabe que esta é uma excelente história a ser contada. Segundo por que o ator encarregado de interpretar o naturalista inglês é o Paul Bettany que já tinha interpretado um outro naturalista, fictício é verdade mas tremendamente inspirado em Darwin, no filme Mestre dos Mares.

Tive a oportunidade de assistir ao filme ontem que, numa tentativa infeliz de ironia, foi chamado de Creation. Tenho más notícias. Vou resumir o assunto já que os próximos parágrafos vão conter algum spoiler e eu não quero estragar nada para ninguém. O filme não se sustenta nem como filme, nem como cinebiografia. Aviso novamente, como reforço, OS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS PODEM CONTER SPOILERS, portanto, siga por própria conta e risco.

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Fim do essencialismo?

janeiro, 2010

Como se sabe, o essencialismo, uma filosofia creditada a Platão (428a.C. – 347 a.C.), mas que provavelmente o antecedia, permeou o pensamento científico ocidental por mais de 2000 anos. O essencialismo foi uma das grandes barreiras que Darwin teve que enfrentar quando propôs sua teoria da evolução por seleção natural. Alguns estudiosos de Darwin acreditam que esse paradigma foi um obstáculo mais difícil de transpor do que as próprias idéias religiosas, que já estavam perdendo credibilidade há algum tempo por causa de outras descobertas científicas.

Ás vezes é dito que Darwin acabou com o pensamento essencialista. Ele certamente o abalou, ao demonstrar que essa filosofia não dá conta de explicar a origem e evolução das espécies sem tropeçar nas diversas evidências paleontológicas e geológicas que estavam aflorando em sua época. No entanto, o essencialismo não se restringe à Ciência. Ele é muito mais amplo do que isso.

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“Spider sense is tingling”

janeiro, 2010

Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.

O grande poder da legitimação

Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.

Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).

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Pra quê?

dezembro, 2009

José Oliveira se prepara para uma grande festa que ele vai dar. Essa festa simboliza uma grande mudança em sua vida, já que após três anos de cursinho ele foi finalmente aprovado no vestibular e irá cursar Economia numa das melhores universidades do país. Ele está muito aliviado porque nunca mais na vida vai ter que ouvir falar em isótopos, complexo de Golgi ou leis de Kepler. Ele odeia Ciências, e acha que todas as aulas de Ciências que teve na vida foram uma perda de tempo. “Nunca usei a Ciência que aprendi na escola. Não é preciso saber conteúdos científicos para entender o cotidiano”, diz.

As alegações de José são contundentes, e devem ser levadas a sério. Ele diz que saber ou não saber Ciências dá na mesma. Ele não precisa saber o que são pontes de hidrogênio para saber que a água demora mais pra ferver do que o leite, não precisa saber o que é índice de refração para usar óculos e lava louça tranqüilamente sem saber o que é uma molécula polar ou apolar.

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A Letra Corrida da Divulgação Científica

dezembro, 2009

É fato existir uma competição científica mundo afora. O laboratório de lá distante do laboratório de cá. Mais vezes uns contra os outros do que todos em prol da ciência. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. No limite, o monopólio químico-farmacológico das descobertas científicas reflete um capitalismo contemporâneo. Uns lutam para serem melhores que os outros. E os estímulos nacionais e mundiais aparecem: Olimpíadas de ciências, de tecnologia, de engenharia e matemática. Por aí afora, qual é a letra da Divulgação Científica?

Por certo que, dentro do contexto, é letra corrida, e armamentista. Letra de capacitações, sistemáticas e feitas para gerarem lucro. Como se as manchetes dos jornais competissem entre si, pelas melhores descobertas, pelo furo, pelo apelo da ciência e, em comum, a esperança de cura para a humanidade. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. E a briga continua entre as ciências naturais e humanas, todas buscando seu lugar ao sol, buscando o estado de dentro, sua tradução em palavras para que chegue até o receptor mais longínquo. Aquele bóia fria que não sabe ler, que vive da tradição oral. Uma metáfora para lembrar que letra não é apenas escrita, posta em papel, mas que há um conjunto de recursos, e são amplos, a disposição da Divulgação Científica.

História oral é letra popular. Independe de ser cursiva, de forma, caixa alta, digital. Letra é signo. É símbolo. É um corpo mudo que pode ser ouvido por alguém. E é aí que entra a ciência, e suas metodologias, para dar forma ao que não se ouve, não se vê com olhos comuns, não se encontra nos paradoxos. É letra corrida, que vai daqui para ali, e dali para acolá. Como os causos, os mitos, as lendas das tradições orais. Quanto de ciência não está dentro delas? Alguém duvida?

Fatos fatídicos

dezembro, 2009

“Helado”, em Espanhol, não significa “gelado”. “Bixa”, em português de Portugal, não significa “gay”. De forma semelhante, existem alguns termos que são utilizados em Ciência que têm significados muito diferentes do que parecem ter. Dois desses termos merecem atenção especial: “teoria” e “fato”.

Na linguagem do dia-a-dia, dizer “eu tenho uma teoria” é o mesmo que dizer “eu acho que”, ou seja, as teorias carregam um alto grau de incerteza. Em contrapartida, na Ciência as teorias são hipóteses altamente corroboradas e bem fundamentadas. Atentaremos-nos a isso em algum outro texto. Este aqui tratará da diferença entre um fato do dia-a-dia e um fato científico. Para isso, peço que o leitor considere os dois grupos de afirmações a seguir:

Grupo 1: “Joãozinho andou de bicicleta ontem”. “A filha de Maria nasceu dia 5/12”. “O Flamengo ganhou o Brasileirão”.

Grupo 2: “A Terra gira em torno do Sol”. “Todas as espécies têm um ancestral comum”. “A Terra tem 6 bilhões de anos”.

Quais as diferenças entre os dois grupos de sentenças? O Grupo 2 contêm apenas afirmações científicas que são bastante aceitas atualmente, enquanto o Grupo 1 consiste de afirmações sobre acontecimentos cotidianos. Se olharmos um pouco mais a fundo, podemos perceber que as diferenças não param por aí, e passam pela questão fundamental que diferencia um acontecimento científico de um não-científico. Para perceber essa diferença, analisemos os grupos separadamente:

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Copenhagen 2009

dezembro, 2009

A história de conferências mundiais com a temática do meio ambiente começa em 1972 em Estocolmo na Suécia. Esse encontrou levou a reunião de 113 países e várias ONGs de todo o mundo, e é considerado o marco-zero dos debates sobe meio ambiente, além de ter dado origem a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Passados 20 anos, no Rio de Janeiro realizou-se a Rio-92 – Convenção sobre Mudança do Clima, com o intuito de discutir as questões ambientais e redução dos gases causadores do efeito estufa que causam o aquecimento global, e contou com a presença de 154 países.

A primeira Conferência das Partes (COP 1), com os países que participaram da Rio-92 aconteceu em 1994, onde foi tomada a decisão da criação até o ano de 1997 de um protocolo com metas para a redução das emissões.

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Doutrina Monroe na Ciência

novembro, 2009

Os leitores desse blog devem saber bem que os cientistas são pessoas tão normais quanto qualquer outra. Eles não carregam nada de especial ou de sobrenatural; são apenas pessoas que têm um trabalho, que porventura é o de cientista. Assim como as pessoas normais, os cientistas têm interesses pessoais que eles muitas vezes colocam à frente dos interesses da coletividade, e esses interesses muitas vezes se deixam transparecer nas posições que eles assumem dentro da Ciência.

Mais do que isso, muitas vezes os cientistas tentam utilizar a própria Ciência para legitimar o seu ponto de vista pessoal sobre determinado assunto. Certa vez escrevi um texto que tangia essa questão ao falar de tempos não tão remotos assim em que a teoria da evolução de Darwin foi distorcida para “provar cientificamente” que os ricos são mais inteligentes que os pobres. “Doutrina Monroe na Ciência” é um texto sobre um outro grupo de cientistas tendenciosos que acham que a idéia de tornar a Ciência acessível a todos não é muito boa. Para eles, a Ciência deve ser deixada para os cientistas, os únicos capazes de entendê-la de verdade.

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