Grandes colegas que nunca conheci

outubro, 2009

A Ciência é uma construção coletiva. Essa é uma grande verdade, mas temos que entender melhor o que isso quer dizer. “Construção coletiva” não significa que os cientistas trabalham em harmonia, que são todos super amigos que se abraçam pelos corredores dos laboratórios e trocam cartões de natal. Nada disso. Na verdade, não é raro existirem rixas entre os cientistas, que disputam ferozmente por prestígio ou por cargos de chefia nos departamentos das instituições em que trabalham. Claro que eles podem também trabalhar em equipe e formar grupos de pesquisa. Isso de fato acontece (eu mesmo faço parte de um!) e não deixa de ser uma forma de construção coletiva, mas não é a esse tipo de comportamento que nos referimos quando dizemos que a Ciência é uma atividade coletiva. A coletividade na Ciência é algo diferente, e ocorre num nível histórico. Expliquemos.

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Sobre mitocôndrias, esfingomielina e estípulas interpeciolares

outubro, 2009

Estava lendo um livro esses dias que dizia que, na cidade de São Paulo, as aulas de Biologia do Ensino Médio têm uma média de seis termos novos definidos por aula. Se fizermos as contas considerando que em geral as escolas têm três aulas de Biologia por semana, veremos que o número de termos novos “aprendidos” pelos alunos é de cerca de 600 por ano. Não sei, mas acho que se eu soubesse falar 600 palavras em russo talvez eu fosse capaz de me comunicar rudimentarmente com alguns russos (os dispostos a fazer um esforço pra me entender), mas os alunos do Ensino Médio que decoram 600 termos biológicos por ano não são capazes de entender os princípios elementares da Biologia.

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Credo de um cientista de hoje (por Julian Huxley)

setembro, 2009

Creio que a vida pode ser digna de ser vivida. Acredito nisto, a despeito da dor, da miséria, da crueldade, da infelicidade e da morte. Não creio que seja necessariamente digna de ser vivida somente para que a maior parte das pessoas possa sê-la.

Também creio que o homem, como indivíduo, como grupo, e coletivamente como humanidade, pode realizar um propósito satisfatório na existência. Creio isto a despeito do mau êxito, da ausência de finalidade, da frivolidade, do tédio, da preguiça e do fracasso. Ainda, não creio que haja inevitavelmente um fim inerente ao universo ou à nossa existência, ou que a humanidade tenda a alcançar um propósito satisfatório, mas somente que tal propósito possa ser encontrado.

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Os mistérios da ciência.

setembro, 2009

Recentemente li dois artigos que, embora já tenham uma certa idade, possuem um conteúdo bastante interessante. Os artigos que podem ser encontrados aqui e aqui tratam basicamente sobre a imagem pública da ciência. O que me chamou a atenção é que ambos, em algum momento, alegam que a ciência construiu pra si mesma uma aura mística.

A afirmação me causou imediato espanto. Sempre ouvi que é próprio da ciência tentar se afastar do místico, buscando sempre a verdade. Com efeito, a ciência de fato alega que trabalha com o mundo real, com fatos, com verdades que podem ser alcançadas sem artifícios mágicos ou sobrenaturais.

Mas pensando bem sobre o assunto, será que a ciência passa mesmo esta imagem de trabalhar sobre um “mundo real”? Ora, qualquer cientista sabe e sustenta que a ciência não vive de dogmas, ou seja, todo o conhecimento científico esta sujeito a revisão. Embora isso seja completamente compatível com a idéia de um “mundo real” para o cientista, para o público em geral talvez não seja bem assim.

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Este blog não morreu.

setembro, 2009

Não, este blog não morreu. É verdade que já estamos um bom tempo sem atualizações. Minha culpa, é verdade.

Nos últimos meses venho correndo com o final do primeiro ano do meu mestrado. E não é pouca coisa. Neste tempo, até o aniversário de segundo ano deste blog eu deixei passar em branco, sem nem mesmo uma comemoraçãozinha ou agradecimentos.

Para os que nos acompanham, peço imensas desculpas. Acreditem, deixar o Polegar Opositor tanto tempo sem atualizações me dói muito. Mas espero que em breve esta faze atribulada passe e eu volte a me dedicar ao blog e aos podcasts. Enquanto isso, deixo vocês com um texto novo e a promessa de que volto logo e com novidades.

O joio e o trigo.

junho, 2009

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

Mata Atlâtica um Hotspot ameaçado

maio, 2009

O conceito Hotspot significa uma área de importância elevada para conservação da biodiversidade. Ele se baseia no princípio de que a biodiversidade não está distribuída igualmente no planeta, e por isto delimita determinadas áreas com altos níveis de biodiversidade e em risco de degradação ou desaparecimento, e por isso a urgência na implementação de ações de conservação a fim de se preservar estes ecossistemas ou os remanescentes da sua formação original.

No Brasil há dois Hotspots a Mata Atlântica e o Cerrado, que são ecossistemas prioritários para a conservação, isto é, de alta biodiversidade e ameaça em alto grau. Estes ecossistemas foram incluídos nesta categoria, após avaliação de especialistas e do Ministério do Meio Ambiente (1) que trabalharam juntos para identificá-los como Hotspots.

A Floresta Amazônica não é considerada um Hotspot, mesmo sendo considerada de altíssima biodiversidade, pois, não sofreu e/ou sofre um processo de degradação tão intenso como os dois ecossistemas citados, e por isto com risco de desaparecimento permanente de espécies.

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Carta aberta aos pais de alunos.

abril, 2009

Nas últimas semanas acompanhei, sem me pronunciar é verdade, as inflamadas notícias sobre escolas brasileiras que decidiram inserir o criacionismo em suas aulas. A despeito da já infrutífera discussão entre criacionismo e evolucionismo, a reportagem da Veja sobre este assunto esbarra em um questão que se perde no “blablabla” habitual.

Lá, perdido no meio da reportagem, vemos a seguinte passagem:

Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. “Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?”, diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.

Eu não poderia concordar mais com a diretora Selma, de que adianta estar preparado para o ensino superior sem a formação moral necessária? Por outro lado, não poderia discordar mais dos pais dos alunos que depositam no ensino religioso a responsabilidade pelo ensino moral e ético (e ainda estou em dúvida sobre o cristão).

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Um chopes, dois pastel e ciência por favor!

abril, 2009

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa um choppes, dois pastel e uma ciência que não seja requentada. Um pão bem quente com matemática à beça, um guardanapo e um copo de exatas bem gelado, outro de humanas e um último de biológicas. Aproveita para perguntar ao seu freguês do lado o resultado da palestra, que já está no fim.

Seu garçom feche a porta da direita com muito cuidado que eu estou disposto a ficar exposto a esta forma de divulgação científica. É que a ciência está no bar e se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro, um conteúdo científico que semana que vem a gente está de volta.

Seu garçom, você sabia que Brasil adentro tem Cachaça Científica? Já está virando rotina lá na Regional de Pernambuco da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência. E se você pensa que cachaça é água, em 2005 aconteceu na Universidade Federal de Santa Catarina e em 2007 a ciência destilada chegou ao Rio de Janeiro com a Casa da Ciência e o Instituto de Química da Universidade Federal.

Acho que não dá para negar. São eventos inspirados no pioneiro Chopp Científico, ciência com arte e colarinho, que aconteceu pela primeira vez em 2002 no Rio de Janeiro, coordenado pela jornalista Luisa Massarani do Centro de Estudos do Museu da Vida / Fiocruz. Ela, por sua vez, foi inspirada em eventos já existentes na Grã-Bretanha, Austrália e França.

Ah, não se esqueça de me dar palitos. Em várias cidades do mundo tem o Café Scientifique, com temas diversificados, e o SciBar, bastante atual. Já sobre Ciência e Governo, é possível ir ao INSPIRE Science Café. Seu garçom vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas, um isqueiro e um cinzeiro. É que nossos amigos franceses estão com tudo. Eventos desta natureza acontecem já tem mais de anos, em torno de uma década. Bar des Sciences em Paris, Cafes Sciences e Junior Cafes em Lyon, além de eventos semelhantes em cidades como Marseille e Grenobe.

Seu garçom me empresta algum dinheiro que eu deixei o meu com o bicheiro. Tem Café Scientifique em Marrocos, no Egito, na Dinamarca, na Suíça e no Canadá. Tem em Portugal. Tem aqui, tem ali. Tem Science in the Pub na Austrália, tem Café Científico na Argentina. Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente, que a divulgação científica está criativa, etílica e saborosa. Uma verdadeira Conversa de Botequim, como bem canta Noel Rosa.

Crodowaldo Pavan e o projeto Roda Viva Científico

abril, 2009

A ciência, especialmente a genética, brasileira está de luto com o falecimento do Prof. Crodowaldo Pavan no dia 03/04/2009. O irreverente e obstinado pesquisador, autor de inúmeras contribuições científicas e políticas tanto quanto de observações provocadoras e desconcertantes em reuniões científicas ou declarações à sociedade, contava aos alunos de divulgação científica que nunca temeu estar errado! com a graça irônica de um vovô esperto que sorria ao lembrar-se de seus adversários científicos, que o colocaram, como bem lembrou o Thiago aí embaixo, dando três voltas no Mundo até acreditarem em seus cromossomos politênicos.

1998. Congresso da Sociedade Brasileira de Genética. Após exposição da Prof. Lygia da Veiga Pereira sobre clonagem, Pavan pega o microfone e diz alto e em bom tom, para a indignação dos demais geneticistas brasileiros. “Eu não vejo problema algum em um casal querer fazer clonagem para renascer um filho morto!”

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