Estes dias, entre amigos meus, surgiu uma questão interessante. Características humanas, como egoísmo ou comportamento violento por exemplo, são inatos? Seriam essas características definidas pela genética ou seriam fruto de interações do indivíduo com o meio ambiente?
É de costume, neste tipo de discussão, estabelecer relações comparativas com o comportamento de animais. Mas mesmo na etologia, a área do conhecimento que estuda o comportamento animal, essa questão não esta bem definida. Existe uma séria de complicações em se detectar quando um comportamento é inato ou quando foi aprendido. Alguns pesquisadores afirmam que é simplesmente impossível ter certeza de que um comportamento qualquer seja inato. A alegação é que ainda que um animal seja isolado de seus pais no momento do nascimento, ou ainda antes quando se trata de animais que botam ovos, não é possível afirmar categoricamente que ele não tenha sofrido um estímulo qualquer durante sua vida embrionária.
Pelo lado da genética a situação é igualmente nebulosa. Ainda assim existem bravos pesquisadores envolvidos com essa questão e, aparentemente existe um consenso geral de que é muito provável que o comportamento animal seja definido pela genética e pelo meio ambiente ao mesmo tempo. O estudo do canto das aves fornece alguns dados interessantes neste sentido.
Experimentos efetuados com pardais compararam o canto de aves de diferentes espécies em duas condições específicas. Algumas aves eram isoladas do convívio com outras enquanto outras aves eram mantidas em seu convívio normal. O que se constatou foi que, muito embora o padrão do canto das aves mantidas isoladas fosse substancialmente diferente do padrão das aves mantidas em convívio com outras, características específicas do canto de cada espécie (como a duração do canto por exemplo) eram mantidos. Isso pode significar um bocado de coisas, mas aparentemente a constatação mais clara é a de que o canto em si é de fato um fator genético já que as características individuais do canto de cada ave foram mantidas nas que foram isoladas de seus pares, no entanto, os padrões dos diferentes cantos de cada espécie são aprendidos.
Ainda no campo da genética existe um conceito conhecido como plasticidade fenotípica. A definição deste termo diz que um genótipo qualquer pode produzir diferentes variações fisiológicas, morfológicas ou comportamentais em resposta a condições ambientais específicas. Isso significa que um comportamento qualquer condicionado geneticamente (seja pelo comportamento em si, seja por depender de estrutura morfológicas específicas) pode ser modificado em razão da interação entre o genótipo e o meio ambiente. Por exemplo, se supormos que uma espécie qualquer de inseto tenha estruturas que produzam um som específico na época de reprodução, seu comportamento reprodutivo seria modificado substancialmente caso essa estrutura que produz o som seja originária de um genótipo que modifica sua expressão de acordo com, digamos, a disponibilidade de comida.
Mas voltando às características humanas. Será que elas passam por processos similares aos citados acima no que diz respeito ao comportamento animal? É preciso levar em consideração que o comportamento humano esta fortemente atrelado à cultura. Mas não seria a cultura a expressão máxima do comportamento humano? Não acredito que haja uma resposta definitiva para este caso.
Acredito apenas que passamos por processos similares aos dos outros animais, tendo a genética e o meio ambiente papéis fundamentais na formação de nossos comportamentos durante todo o processo evolutivo do homem. Os processos genéticos fornecendo a capacidade para o desenvolvimento de comportamentos sociais e culturais e o meio ambiente selecionando esses comportamentos. Não creio na possibilidade de alguém nascer predestinado a ser egoísta ou violento, como se é de imaginar caso a genética fosse a única força responsável pela expressão de tais características.
Nascemos todos com o potencial para o egoísmo e para o altruísmo. Para a violência e para o pacifismo. O que nos faz tender para um comportamento específico é nosso contexto histórico, social, cultural e, portanto, ambiental.
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Muito bom o artigo T.
O homem é um animal social, construido através da sua interação com o meo-ambiente.
Sabe, eu penso aqui comigo que natural no homem deve ser nascer, crescer, se reproduzir e morrer. O resto, é construido.
Será que estou certa?
Eu não gosto muito dessa mania das pessoas naturalizarem tudo. Pq faz parecer que quem age diferente tem algum problema e gera preconceitos.
mas perguntinha que não quer calar. Homosexualismo é opção ou a pessoa nasce gostando? Eu vi semana passada uma professora de ciências humanas, uma psicóloga, defendendo que já nasce homo. Fiquei boba, pq foi a primera vez que ví uma pessoa defender essa posicionamento em sala de aula.
E ae, o que a ciência diz dr.?
Aiai, esse povo adora me colocar em situações complicadas rsrsrs.
Eu sinceramente não sei o que a ciência diz sobre o homossexualismo. Sei que em animais esse comportamento se manifesta em cativeiro, é qualificado como um comportamento estereotipado. Em vida livre é mais comum ver casos de hermafroditismo, em todo caso, isso é bem diferente de homossexualismo.
Em seres humanos eu não poderia dizer que é 100% opção. Isso implica em questionar o bom argumento de que ninguém escolhe (de forma consciente, claro) ser um excluído da sociedade. Ou sofrer discriminação. Ou coisa que valha.
Por outro lado, dizer que o processo é resultado unicamente por processos genéticos é igualmente questionável.
Pra ser conservador e coerente com o que escrevi no texto, o homossexualismo deve ser um comportamento condicionado igualmente por características genéticas e por interação com o meio ambiente…
Na verdade o homossexualismo não é bem um comportamente estereotipado.Comportamento estereotipado é um comportament sem função aparente, e está relacionado ao bem-estar animal. O homossexualismo não ocorre só em cativeiro, existe em vida livre também.
Oi T. comentei sobre aquele papo do canto dos pássaros que vc me disse para uma professora e ela tbm falou que algo parecido acontece conosco. Que já se deparou com várias crianças que não falam ou desenvolveram pouco a fala por serem filhos de pais surdos-mudos.
Dai ela me contou que apesar de em regra nascermos aptos a falar, há casos de crianças que não falam simplesmente porque não aprenderam.
Legal isso. =D
Oi Thiago,
Eu costumo responder a esta questão de forma mais simples, sem me reportar à etologia, entendo que se trata de comportamentos com padrões de determinação genética poligênica multifatorial, como alcoolismo e inteligência tb. Para leigos é fácil dizer que há genes de susceptibilidade em todos nós, mas só se manifestam de acordo com o ambiente, como vc mesmo disse ao final da matéria
Ficou bacana, vc escreve bem, parabéns!
Nossa Thiago, que texto bom! Já faz um tempo que estava pensando em responder à este tema “verdades mentiras codigo genetico”que andaram procurando no meu blog. Seu texto foi excelente, será que você me permitiria publicá-lo lá no bioética? Com as devidas fontes, obviamente.
Essas especulações em torno de comportamentoXgenética são muito polêmicas, e profundamente relacinadas à bioética…
Abraço!
Já publiquei, obrigada mesmo. Na minha lista de palavras chave que algumas pessoas usaram para chegar lá sempre aparecem umas bem conceito de biologia mesmo, e seu texto respondeu muito bem uma expressão. A questão que você levantou, a do papel do bioeticista nos Estados Unidos requer uma resposta muito boa e grande, vai virar post.
Abraço e obrigada!
Ah, que discussão deliciosa… os filósofos vêm se debruçando sobre ela há séculos e séculos. Depois, entraram os biólogos e os neurologistas, mas o campo não se esgotou. Dá pra passar tardes e tardes falando nisso!