A difícil arte do saber ouvir.

agosto, 2007

Me vem agora a situação ocorrida entre Albert Einstein e Edwin Hubble, dois dos maiores cientistas de todos os tempos. Na ocasião do desenvolvimento da teoria da relatividade geral Einstein partia de um modelo de universo estático. Para que seus cálculos fossem condizentes com esse modelo estático Einstein criou a constante cosmológica¹. A constante foi contestada por Edwin Hubble que propôs um modelo de universo em expansão que excluía a necessidade de uma constante nos cálculos da relatividade geral. Einstein então abandonou sua idéia alegando que ela teria sido o maior erro de sua vida.

Em um cenário ideal o debate científico deveria ser sempre assim. Não raro as teorias científicas se contradizem ou explicam fenômenos de formas diferentes. Não há nada errado com isso, é assim que se constrói o conhecimento científico. No entanto, nem sempre os defensores de teorias concorrentes estão dispostos a debater abertamente sobre suas linhas de pensamento.

Se o problema de comunicação já ocorre entre a comunidade científica, o mesmo se dá em graus ainda mais preocupantes quando uma teoria qualquer é discutida não só pelos cientistas mas também por leigos. Nada de errado com isso também, uma das grandes virtudes da ciência é se prestar ao debate amplo. Evidente que para tal os interlocutores devem compreender minimamente o tema que desejam debater. No entanto, isso nem sempre ocorre.

Infelizmente é muito comum a existência de debates que fogem ao que é saudável, ao debate sério e que busca o crescimento intelectual geral e o esclarecimento sobre o assunto debatido, se atendo ao combate de egos, crenças e posições políticas. Acredito que parte deste problema é a dificuldade aparentemente comum que muitas pessoas tem em parar para ouvir os argumentos e idéias de seus “adversários”. Analisar de forma séria e sem preconceito idéias opostas não é fácil, confesso que tenho este problemas muitas vezes.

Ouvir é difícil mas totalmente necessário. Devemos nos esforçar para ouvir posições contrárias às nossas, devemos dar a chance para que o “outra lado” possa construir seus raciocínio e expor as justificativas às suas idéias. Somente desta forma podemos analisar melhor nossos próprios pontos de vista e, no geral, isso é ótimo. Aponta problemas e defeitos em nossas idéias, suas limitações e as formas como melhorá-las.

Devemos nos policiar ao máximo e manter a mente sempre aberta a mudanças e a novas idéias. É importante evitar ataques ad hominem já que desacreditar nossos adversários não é ético, bonito e nem invalida suas idéias. Debates devem se prestar a troca de idéias e análise destas idéias, não existem vencedores e perdedores em debates sérios. Saber ouvir e permitir a livre expressão de idéias e teorias opostas as nossas faz parte da construção do conhecimento científico e moral de todos, e seria ideal se todos tivéssemos a humildade que Einstein teve.

Saber ouvir é, antes de tudo, um exercício fundamental para o bem estar da sociedade e para o progresso honesto.

¹: A constante cosmológica hoje em dia é considerada como válida na teoria atualmente discutida de que o universo na verdade esta em expansão acelerada. O caso demonstra mais uma vez o caráter dinâmico da ciência, aonde teorias e idéias que hoje são julgadas como ultrapassadas podem ser consideradas válidas novamente em decorrência de novas descobertas.