A escola não quer alunos.

agosto, 2014

No dia 01 de Agosto o estado do Paraná se juntou a São Paulo e a outros estados que proibiram por força da lei o uso de celular em salas de aulas nas escolas públicas estaduais.

A justificativa é sempre a mesma, a escola como um todo e os professores em particular não conseguem concorrer com a presença dos aparelhos em sala.

Daí aplicasse a velha lógica brasileira de se proibir aquilo que é o problema aparente sem discutir seriamente as causas. Eu sei que muitos dos meus colegas professores estão felizes pela ampla adoção dos estados brasileiros a esse tipo de proibição, porém é preciso que fique claro pra todo mundo que os celulares não vão desaparecer, a internet não vai sumir, os tablets estarão cada vez mais presente e, a medida que isso ocorre, as escolas vão criando um abismo ainda maior entre si e aqueles que deveriam ser a razão da própria instituição em existir: o aluno.

O uso excessivo de aparelhos eletrônicos em sala, e as distrações e dificuldades que eles criam são um sintoma, e não o problema. O problema é a escola rejeitar o moderno. Ao criar esse tipo de proibição, estamos deixando claro para os nossos alunos que não queremos o mundo deles na escola, não aceitamos a cultura em que eles vivem, não queremos lidar com as novas formas de cognição que eles possuem. Ou seja, eles não são bem vindos em nossas salas de aula.

E depois passamos horas e horas em ATPC, discutindo as razões pelas quais os alunos muitas vezes rejeitam a escola e não encontram significado no ensino que oferecemos. Culpamos a sociedade por não valorizar o ensino, culpamos os pais por não reforçarem a importância da educação, culpamos o celular e a internet pelo desinteresse do aluno.

E nesse jogo de culpar a todos e a tudo, esquecemos da causa primeira da escola. Rejeitamos nossas crianças e suas particularidades, desconstruimos sua ainda efêmera noção de identidade para forçar outra, que não é melhor nem pior mas está arraigada fortemente a um processo cognitivo que não faz mais sentido.

Em particular posso dizer que me culpo, todos os dias, por repetir esse processo, por compactuar com tudo isso. Eu amo ser professor, e amo meus alunos… Mas a escola não os quer, e eu sou a escola.

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