Agassiz e a cegueira teleológica

maio, 2008

Louis Agassiz foi um dos mais importantes cientistas de sua época. Proeminente sistemata e paleontólogo, além de excelente administrador e divulgador científico, suas idéias originais forneceram inspirações incalculáveis para a Teoria da Evolução darwiniana. A ironia é que Agassiz não era evolucionista; ele combateu Darwin por toda a sua vida e definia espécies como “um pensamento de Deus”.

Agassiz foi aluno de nomes importantes como Humboldt e Cuvier, e recebeu atenção da comunidade científica primeiramente em 1833, com a publicação do primeiro volume de uma série de trabalhos tratando do estudo de peixes fósseis. Esse trabalho trouxe uma nova concepção à classificação dos organismos – a idéia de que seres fósseis também deveriam ser incluídos nos sistemas hierárquicos, como representantes inferiores de seus similares viventes. Isso foi incorporado no pensamento biológico de Agassiz em uma conclusão ainda mais fantástica: essa mesma gradação de formas inferiores até superiores, observada no registro fóssil, seria paralela, em qualquer táxon, à ordem de estágios de desenvolvimento do organismo e à sua distribuição e ecologia.

Assim Agassiz contribuiu para a universalização dos caracteres sistemáticos, isto é, ao proclamar tais paralelismos, ele foi o primeiro a sugerir que características gerais de um organismo fossem incluídas em sua classificação, além dos caracteres morfológicos e biogeográficos até então utilizados. Inconscientemente, ele ofereceu idéias que seriam mencionadas por Darwin para embasar a sua teoria da seleção natural e geraria o que seria proclamado como a teoria da recapitulação de Haeckel: “a ontogenia recapitula a filogenia”.

O curioso é que Agassiz jamais foi além da teleologia em seus estudos, sempre buscando desígno e planos divinos como explicações. Quando ele revolucionou a Geologia, ao hipotetizar geleiras enormes cobrindo continentes inteiros em outras épocas em eventos que ele chamou de glaciações, Agassiz não imaginava que, com isso, enterraria definitivamente as explicações bíblicas para as catástrofes mundiais (o pensamento geral, que influenciava massivamente a Biogeografia da época, era o de que o Dilúvio bíblico teria sido a última catástrofe a modificar a superfície terrestre, gerando a sua configuração atual). De fato, ele recusou a enxergar a incoerência que suas evidências trouxeram às explicações teleológicas, chamando as glaciações de “útlimas pragas de Deus”.

É difícil compreender a convicção teleológica de um homem como Agassiz, o mesmo homem que enxergou além das catástrofes relatadas na Bíblia e que fundou o Museu de Zoologia Comparada de Harvard, e que foi, provavelmente, o último cientista eminente a rejeitar ferozmente a evolução darwiniana. Dizem alguns que o motivo está em suas raízes, encontradas na filosofia natural, um sistema de pensamento alemão romântico, que procurava incorporar noções metafísicas à investigação científica. Apesar de Agassiz ter renunciado a essa filosofia, aparentemente a sua influência sobre ele nunca cessou. As influências exercidas nele pelas idéias de Cuvier, de que as espécies são fixas, imutáveis, e de que o homem está no topo da hierarquia do seres-vivos, certamente contribuíram para a sua teimosia. O que será que ele pensaria se soubesse que hoje é considerado um dos criacionistas que mais colaborou em favor do evolucionismo?

Inspirações e onde saber mais:

Louis Agassiz: página do Museu de Paleontologia, University of California, EUA. Curta biografia do cientista, citando seus principais trabalhos e atividades. (em inglês)

Agassiz (1869): Darwinism – Classification of Haeckel: Tradução feita por Paul J. Morris de um capítulo do livro de Agassiz, Essay on Classification, que contém a argumentação mais clara tratando das suas objeções em relação à evolução darwiniana. (em inglês)