Auto-validação e a blogosfera científica.

janeiro, 2009

Institucionalização! Este foi o grande passo dado pela ciência no período da revolução científica. O resultado desse passo foi o surgimento de um dos maiores empreendimentos humanos já vistos. A ciência cresceu, ganhou credibilidade e afeta ativamente o meio de vida da sociedade.

É curioso notar como a institucionalização em geral resulta no crescimento acelerado de uma atividade qualquer. Mais do que isso, faz com que a atividade em questão ganhe respeito e articulação política. As religiões aprenderam isso bastante cedo. A ciência demorou um pouco mais.

Uma das principais características resultantes da institucionalização é a chamada auto-validação. Isso quer dizer basicamente que uma comunidade qualquer é capaz de validar a si própria. Parece estranho? Mas não é.

Se tomarmos a ciência como exemplo, vemos o processo de auto-validação sendo constantemente garantido. Seja na formação de associações científicas, ou na produção de periódicos, congressos científicos, conselhos federais e por aí vai. O próprio processo conhecido como “peer review” é um mecanismo, inserido na própria metodologia científica, de auto-validação.

Não basta desenvolver um experimento científico, ou uma teoria, ou ambos. É preciso a aceitação da comunidade. E a aceitação da comunidade se faz na observação de determinadas regras que a própria comunidade construiu.

Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com a blogosfera científica do título? Bom, é notável como a divulgação científica cresceu no último ano no Brasil. Especialmente na chamada blogosfera. Os blogs de ciência se multiplicaram, ganharam destaque, tiveram seu próprio evento e por aí vai.

Acontece que a blogosfera científica encontra-se justamente neste processo, não só de institucionalização, mas de auto-validação. Aliás, me arrisco a dizer que a blogosfera brasileira se encontra neste pé a um bom tempo. Mas eu não sou o maior especialista no caso, me atenho ao grupo do qual faço parte.

O que me deixa bastante preocupado é que neste momento de consolidação dos blogs de ciência, muita gente ainda insista no velho paradigma da “relevância”, seja medida por links, seja medida pelo número de prêmios que o blog eventualmente acumule.

Acho graça quando vejo blogueiros defendendo que um blog é tanto mais relevante quanto tanto maior for o número de links em outros blogs. É um argumento claramente auto-validativo: “Meu blog é bom porque aquele outro blog, que tem milhares de visitantes diários e já foi matéria do Jornal da Globo, me linka”.

Resulta que com essa ideia na cabeça, quem sofre é a divulgação científica. Na expectativa de agradar a “blogosfera mãe”, o blogueiro de ciências pode acabar direcionando seu conteúdo para um publico alvo que, apesar das opiniões contrárias, não é garantia de ser um público melhor que qualquer outro.

Acho um pouco ingênua a noção de que um blogueiro de política, ou de humor, ou de tecnologia, tem capacidades melhores do que, digamos, blogueiros miguxos, para identificar um bom material de divulgação científica. Há a esperança constante de que pessoas que fazem bem o seu trabalho, seja na área que for, possuem um bom senso mais apurado.

Eventualmente isso pode ser verdade, mas não há garantias aqui. Em todo caso, bom senso é bom, mas não é o bastante. Eu me considero uma pessoa relativamente razoável, de bom senso. Mas isso não me torna eficaz em apontar bons textos sobre política, embora eu certamente sou capaz de identificar aqueles textos que pecam no exagero, ou na falta de profundidade.

Com os textos científicos ocorre o mesmo. Pessoas de bom senso são capazes de identificar pseudo-ciência extremista quando olham para um texto desse tipo. Mas talvez deixem passar uma pseudo-ciência bem disfarçada. Ou pior, um texto científico mal produzido e de conteúdo pouco rigoroso.

A questão principal é que na tentativa de se auto-validar, a blogosfera científica perde tempo demais seguindo as regras da outra blogosfera. Entre textos de divulgação, as vezes entre os textos de divulgação, sempre sobram espaços para agradar o colega blogueiro. Tudo em nome da relevância, claro.

Um exemplo disso foram os relatos do EWCLiPo. Dos quatro que li, só um falava sobre as discussões que o evento levantou. Os outros trataram de focar em como os blogueiros são super legais, como o chopp foi bom e, eventualmente, reservavam um parágrafo pra dizer, assim mesmo, de passagem, sobre os temas que o evento tratou.

Senhores, a relevância não está na capacidade de agradar os pares. Esta na capacidade de cumprir com eficácia o objetivo proposto, no nosso caso, divulgar ciência. Ser relevante é passar sua mensagem de forma correta e consistente, atingindo o leitor de maneira permanente. Tarefa fácil? Longe disso.

Existe uma maneira simples de medir esta relevância? De forma alguma. Acredito que o feedback dos leitores do blog, fieis ou não, tenha lá seu valor. Além disso, o tempo é sempre o melhor juiz. É muita ingenuidade achar que se é relevante com um blog de um ou dois anos de idade.

Em todo caso, tenho cá a certeza de que nem o Google Analitycs, nem o blogueiro famoso, são capazes de dizer quem é ou quem deixa de ser relevante.