Ciência: Desde o séxulo XVII controlando a natureza próxima a você

maio, 2008

Muitos filósofos concordam que a ciência moderna se caracteriza pela tentativa de controlar a natureza. Esta premissa do controle de certa forma justifica o cenário atual, para se controlar algo é preciso antes compreender razoavelmente este algo. Desta forma não é de se espantar a velocidade em que novas pesquisas aparecem e informações são somadas ao patrimônio mundial científico. Vivemos na era do publique ou pereça. É claro esse ritmo acelerado de publicação de novos “papers” levanta uma questão quase evidente. Qual é a qualidade destes artigos e qual a relevância deles para o paradigma de controle da ciência moderna?

Recentemente ouvi um professor abordando este tema. Uma das observações que ele fez foi de que “existe aquele cientista espetacular, que publica uma série de papers por ano e todos eles de qualidade, mas este cientista é a exceção e não a regra”. Tem lá o seu sentido. A quantidade de informação hoje em dia é tão grande e dispersa que não é raro pesquisadores de países diferentes, estarem trabalhando em um mesmo tema, publicarem seus artigos, e nunca chegarem a entrar em contato um com o outro. Mais ainda, a possibilidade de que estes pesquisadores cheguem a conclusões diferentes ou mesmo conclusões incompatíveis não é nula. Neste caso, como proceder? Ou ainda, quanto tempo levaríamos para descobrir dois artigos incompatíveis sobre o mesmo tema, analisá-los e tentar encontrar uma maneira de resolver o problema?

Acredito que a ciência chegou a um ponto crítico de sua prática. Na tentativa desesperada de controlar o mundo, perdeu-se o controle da ciência. E este controle se perdeu em vários níveis. Por exemplo, um outro professor alegou por esses dias que com o fim da credibilidade da igreja, a morte do socialismo e a crise capitalista, a ciência é a última fábula capaz de fazer o homem acreditar em algo. A justificativa era de que em um mundo cada vez mais individualista, a ciência com seu argumento de ser a detentora última de verdade ainda era capaz de unificar grupos e levar esperança aos mais céticos.

O argumento é de um absurdo exemplar. Mas é fruto da apropriação que se faz de uma idéia ingênua da ciência. Oras, qualquer filósofo da ciência sabe que a verdade, embora deva ser sempre o objetivo final da ciência, nunca poderá ser desvendada. A partir deste pressuposto, construiu-se as mais variadas teorias sobre como a ciência deve funcionar para tentar, sempre, minimizar as chances de erro e maximizar as possibilidades de correção dos eventuais erros. Não importa se defendemos o racionalismo crítico popperiano, os paradigmas de Kuhn ou o cinturão de proteção de Lakatos. Por mais que estes modelos sejam diferentes, todos tratam do mesmo assunto. Minimizar os erros e maximizar as possibilidades de corrigir eventuais erros. E todos eles partem do pressuposto de que a verdade é um valor importante, mas inalcançável.

Se a afirmação de que a verdade última é inalcançável esta presente nos pilares epistemológicos da ciência, de onde vem o discurso de que a ciência pode não ter a resposta para tudo, mas um dia terá? Como eu disse antes, vem da apropriação indevida da ciência como discurso ideológico. Um discurso ideológico bastante sedutor, mas mentiroso. Um discurso ideológico que ignora o que é a ciência de verdade, popularizando uma visão errada de uma atividade incolor, inodora e insípida e, por isso mesmo, capaz de ir além do bem e do mal em seu desenvolvimento.

Pior para o cientista que com frequência é acusado de brincar de Deus, ou culpado pelas mazelas da África. Não que essas acusações as vezes não estejam certas, mas é fato que em geral estão completamente enganadas. Esse cenário caótico de controle, não mais da natureza (ou não mais só da natureza) mas também das vidas humanas, desafia a divulgação científica. É preciso ter cuidado, a divulgação científica é antes uma ferramenta de informação e educação. Embora seja possível usá-la como arma ideológica, realizar tal ação é de uma desonestidade que mal pode ser descrita.