Ciência Open Source?

junho, 2008

Nos últimos anos o termo “web 2.0” vem sendo usado à exaustão como um novo paradigma para a Internet. A característica implícita nesse termo é a capacidade de fornecer ambientes colaborativos, aonde o site passa a ser uma ferramenta e seu conteúdo é gerado, mantido e selecionado pelos usuários. Esse ambiente de colaboração também não é exclusividade da internet. O movimento “Open Source” e seus produtos mais conhecidos, como Linux e toda a sorte de softwares desenvolvidos sob licenças abertas, mostram que um ambiente colaborativo é capaz de gerar frutos melhores em menos tempo do que a maneira “proprietária” tradicional. Com a popularização do “2.0” já há quem fale em uma “ciência 2.0”. Mas isso existe de fato?

Na verdade, pensar em uma ciência 2.0 pode parecer redundante. Afinal, sempre ouvimos aquele inflamado discurso de que a ciência é um empreendimento humano, que exige a colaboração dos mais diversos grupos de pesquisa para poder avançar e se desenvolver. Talvez já tenha sido assim. Hoje em dia no entanto a pesquisa científica tem um caráter muito mais proprietário. E nem poderia ser diferente. Se uma empresa farmacêutica investe no desenvolvimento de uma cura para a AIDS, certamente não é de seu interesse divulgar os resultados de sua pesquisa para seus concorrentes. Mesmo a ciência mais teórica costuma resguardar suas descobertas. Nenhum cientista quer ver seu trabalho sendo publicado por um concorrente. Ainda que o cientista tenha garantido seu crédito publicando seu artigo em uma revista especializada, o interesse agora muda para o periódico em questão. Se o modelo de negócio da revista esta fundamentado na venda de acesso ao conteúdo científico de ponta, não é de seu interesse que esses artigos estejam vagando livremente pela internet. Entra aqui a questão do copyright.

Temos então uma série de mecanismos de restrição à informação e, como se pode concluir sem nenhum esforço, restringir o acesso à informação é restringir o desenvolvimento das áreas dependentes desta informação. A ciência se tornou um negócio lucrativo, ainda que os mais ingênuos duvidem disso. No entanto há questões importantes a serem levantadas. Informação e conhecimento podem ser transformados em propriedade privada? Quer dizer, que direito tem um cientista de alegar que descobriu uma nova partícula quântica quando ela de fato sempre existiu, e tudo o que o cientista fez foi detectar esta partícula? Mais ainda, que direito tem esse cientista, bem como o periódico científico, de comercializarem algo tão velho quanto o Universo? Da mesma maneira, é correto uma indústria farmacêutica qualquer patentear uma substância que tenha sido extraída de uma planta que existe a milhões de anos na natureza?

São todas questões complexas e eu não tenho a esperança de ver qualquer resposta até o final da minha vida. Esses são problemas para gerações intermináveis de cientistas. Mas hoje já podemos vislumbrar o embrião dessa ciência 2.0. Alguns projetos, como o Open Wetware, buscam a integração verdadeiramente comunitária e aberta entre centros de pesquisa das mais variadas áreas. São pessoas que entendem que o conhecimento não deveria ser patrimônio de um indivíduo ou de um grupo comercial.

O conhecimento é um bem de valor inestimável. Restringir seu acesso é o mesmo que inibir o desenvolvimento da humanidade.