Corrida contra o acaso?

junho, 2008

A algum tempo, debatendo sobre o aquecimento global com amigos, me deparei com um argumento curioso. Meu interlocutor dizia que muito embora o planeta tenha passado por uma série de catástrofes naturais que provocaram extinções em massa, nenhum desses eventos ocorreu tão rápido e de forma tão abrangente quanto as ações negativas do homem na Terra. Ou seja, defendeu-se a idéia de que por conta da velocidade com a qual os seres humanos vem degradando o meio ambiente, as espécies animais e vegetais não tem tempo para se acomodarem ao novo ambiente de modo que a taxa de extinções é maior que a taxa de surgimento de novas espécies. Um cenário desses poderia significar a esterilização da Terra. Mas convenhamos, é uma situação por demais fictícia.

Na verdade, já tivemos uma situação muito pior que a atual em termos de velocidade e abrangência de extinções. O evento K-Pg (de CretáceoPaleogeno, antigamente nomeado como K-T ou Cretáceo-Terciário), popularmente conhecido como a queda do asteróide que culminou com a extinção dos dinossauros. A teoria do impacto surgiu com a descoberta de uma camada de 1cm de irídiu em um ponto específico do estrato geológico da Terra. A análise dos estratos anteriores indicava a presença dos famosos repteis gigantes, enquanto a análise dos estratos posteriores à camada de irídiu indicavam a ausência de boa parte das espécies do Cretáceo, bem como a recuperação lenta da fauna e flora. O irídiu é um material raro em nosso planeta, mas facilmente encontrado em meteoritos. Concluiu-se então que um asteróide de aproximadamente 10km de diâmetro se chocou com a Terra no final do Cretáceo, o que teria resultado em uma mudança abrupta do meio ambiente que culminaria com a extinção dos dinossauros e outros animais. Com efeito, acredita-se que 60% da biodiversidade daquela época deixou de existir.

É possível imaginar que só no momento do impacto do asteróide, o planeta tenha sofrido com terremotos, maremotos e vulcanismo. Isso sem contar a própria explosão gerada pelo impacto e a onda de choque dispersada por ela e o dano de longo prazo gerado pela nuvem de poeira que “fechou” a atmosfera, impedindo a exposição da superfície aos raios solares. O fato é que a despeito desta tragédia, a vida encontrou um meio de reabitar o Planeta.

Curiosamente a Terra já passou por outros episódios de extinção em massa, todos eles ocorreram mais lentamente que o evento K-Pg e ao menos dois deles resultaram em taxas de extinção maiores que a queda do asteróide. Podemos concluir então que a velocidade com a qual a mudança do meio ocorre pode não ser tão importante quanto parece. Evolutivamente falando, mudanças bruscas não deveriam ser superestimadas. Sabemos que o meio ambiente não produz ativamente mudanças evolutivas. O meio seleciona passivamente mudanças aleatórias. Isso significa que as espécies que sobrevivem a mudanças drásticas do meio já estavam adaptadas de forma a poderem suportar essas mudanças.

É o que de fato aconteceu na no final do Cretáceo. Animais mais generalistas sobreviveram às mudanças causadas pela queda do asteróide. É importante notar os animais de hábitos específicos não evoluíram em animais generalistas, se assim fosse os dinossauros estariam vivos até hoje. Podemos notar então que a vida é uma corrida contra o acaso. Embora existam vantagens claras em desenvolver estruturas morfológicas e comportamentos específicos em ambientes estáveis, é impossível prever até quando esta estabilidade irá perdurar.

Há quem defenda que estejamos passando por mais um evento de extinção em massa. Eu acredito que pode ser verdade. Há quem diga que a culpa é do homem, e talvez o seja de fato. Mas se somos agentes desestabilizadores do meio, só nos resta torcer para que a natureza nos tenha feito generalistas o suficiente. De outra forma, estaríamos dando origem ao nosso próprio evento de extinção.