Da serventia à ingenuidade.

junho, 2008

Talvez seja reflexo deste mundo globalizado, mas parece existir um pensamento comum de que todas as coisas devem ter uma serventia.Sejam essas coosas objetos, animais, plantas, inclinações políticas ou movimentos sociais. Esse pensamento utilitarista evidentemente também aflige a ciência e, como é de se esperar, é uma crítica muito mais comum de quem esta de fora da comunidade científica. Não há nada de errado com a crítica em si, não fosse o caso de ela ser fruto de uma reflexão ingênua sobre o que é ciência e como ela funciona.

Primeiramente temos que voltar àquela velha divisão acadêmica. A ciência pode ser dividida em aplicada e teórica. As ciências aplicadas são as que com efeito produzem conhecimento com uma finalidade implícita. As ciências mais teóricas se envolvem muito mais com o estudo bruto dos fenômenos e não possuem como objetivo principal resultar em aplicações práticas. Embora essa divisão seja contestada de muitas maneiras, é bastante aceita no meio acadêmico.

Desta divisão simples decorre um processo mutualístico. As ciências aplicadas não funcionam sem uma base teórica. Por outro lado, o refinamento do trabalho das ciências teóricas depende em grande parte da produção prática das ciências aplicadas, já que os instrumentos de pesquisa cada vez mais avançados são frutos desta produção. Mas também as facilidades do dia a dia são frutos da ciência aplicada. Novos tipos de motores, televisores, aparelhos celulares, computadores mais potentes e por aí vai. Isso talvez explique a idéia de que a ciência, de alguma forma, serve à humanidade produzindo novas tecnologias. O que não deixa de ser verdade, claro.

O problema é que esta visão é supervalorizada, mesmo na academia. Toda pesquisa científica requer um investimento, e sabemos que dinheiro não cai do céu. Quem fomenta uma pesquisa científica o faz esperando que o dinheiro investido renda um bom retorno no futuro. Desta forma, pesquisas que geram aplicações com valor mercadológico recebem mais incentivos do que pesquisas mais teóricas por exemplo. Soma-se a isso a imprensa que se habituou a fazer festa quando surge uma nova aplicação prática de algum estudo científico, da mesma maneira que se acostumou a fazer chacota de pesquisas mais teóricas (e miraculosamente física quântica não entra aqui).

Resulta dessa misturada toda o velho achismo popular. Se aparentemente não tem serventia, então é perda de tempo. Ontem mesmo ouvi uma crítica de alguém que disse que a ciência as vezes só sabe coletar e sistematizar dados, enquanto poderia estar usando o mesmo tempo pra algo mais útil. Ta aí, uma frase emblemática deste pensamento. Não ocorreu ao cidadão que a formulou que coletar e sistematizar dados é uma parte importante de qualquer pesquisa, seja ela teórica, seja ela aplicada. Não ocorreu ao mesmo cidadão que a História é basicamente uma ciência de coleta e interpretação de dados por exemplo, e isso não a torna menos importante do que qualquer outra ciência.

Criticas à ciência, ou a qualquer outra atividade humana, são sempre bem vindas. Só devemos ter o cuidado de não sermos ingênuos o suficientes para realizarmos críticas baseadas em nossa falta de conhecimento sobre algo.