Design Inteligente?

agosto, 2007

Vamos imaginar uma situação simples. Você entra na cozinha de sua casa e encontra um bolo de fubá prontinho em cima da mesa. Enquanto considera se deve comer o bolo com leite condensado ou manteiga você pode se perguntar sobre a origem do bolo. Foi feito em casa? Foi comprado? Mas será que você consideraria a hipótese de o bolo ter se formado por uma série de eventos acidentais aleatórios? Você consideraria a idéia de um caminhão de farinha ter atropelado uma banca de ovos da feira em frente a sua casa e no acidente ter lançado a quantidade certa de farinha e ovos pela sua janela dentro de uma forma localizada em cima do fogão e que caiu dentro do seu forno, ligando o fogo no processo e assando o bolo?

A situação hipotética acima é um exemplo das argumentações feitas pelos defensores da teoria do Design Inteligente contra a teoria da evolução. A idéia é de que os organismos vivos são complexos demais para terem se originado por um processo aleatório, alguns sistemas orgânicos como os olhos e o fator de coagulação são tão complexos que dificilmente poderiam ter se formado de forma gradual como sugere a teoria neodarwinista. É o que o Design Inteligente chama de complexidade irredutível. Como solução alternativa ao “deixa estar” natural proposto pela teoria da evolução, o DI propõem então que a única explicação plausível para o problema é a intervenção de uma inteligência superior não definida. O próprio designer inteligente.

Mas será que o Design Inteligente pode ser considerado uma teoria de fato? Seria ele uma alternativa à teoria da evolução, como assim desejam seus defensores?

Se lembrarmos do racionalismo crítico vamos notar que para que uma hipótese seja considerada como teoria ela deve, obrigatoriamente, poder ser falseada. Estabelecer argumentos ou hipóteses em princípios que não possam ser negados ou comprovados é o mesmo que retirar todo o objetivismo de um enunciado. A pedra fundamental do DI é a existência de uma inteligência superior que afeta diretamente os processos biológicos deste planeta. Mas qual a natureza dessa inteligência superior? Aonde ela está? Como ela age? E quando? Sob quais condições?

Todas essas perguntas não são respondidas ou mesmo abordadas pelo DI. Tudo o que o DI faz é tentar explicar um fato natural utilizando-se de algo que não podemos saber como é ou mesmo se existe de fato. Fica evidente portanto que o DI não pode ser encarado como uma teoria séria, na verdade, não pode ser encarado sequer como uma teoria.

O argumento da complexidade irredutível já foi refutada diversas vezes por cientistas diferentes. Os princípios de evolução convergente e divergente fornecem uma explicação plausível e científica sobre a origem de partes complexas. Mesmo Michael Behe, um dos maiores defensores da complexidade irredutível, abandona a idéia em seu livro mais recente, aceitando a ancestralidade comum dos seres vivos mas alegando que esta ancestralidade ainda é guiada por um “designer inteligente”.

O Design Inteligente não se sustenta. Suas argumentações contra a teoria da evolução são fracas e geralmente refutáveis. Não apresenta indícios sérios de seus enunciados e não deve ser encarado como uma alternativa válida à teoria da evolução.

Indo além:

A Caixa Preta de Darwin

O Relojoeiro Cego

A Escalada do Monte Improvável