Evolução: Como confessar um assassinato.

fevereiro, 2008

Charles Robert Darwin foi seguramente um dos maiores naturalistas da história. Muito embora ele seja sempre lembrado por sua teoria evolutiva, suas contribuições à ciência foram muitas. Darwin realizou diversos estudos em zoologia e botânica, antes disso porém se envolveu com geologia e quando garoto se interessava por química. Estudou medicina por influência de seu pai, mas nunca chegou a concluir o curso. Durante esse período no entanto, Darwin freqüentou uma série de cursos para naturalistas. Conheceu Robert Grant, um grande admirador de seu avô Erasmus e defensor das idéias de Lamarck.

Trocou a escola de medicina pela de artes, com o intento de se tornar um clérigo. Durante esse período Charles se envolveu com uma série de ótimos professores nas mais variadas áreas naturalistas. Foi um destes professores, John Henslow, que por influência conseguiria enviar Darwin na sua tão famosa viagem ao redor do mundo no Beagle. A viagem abordo do Beagle não teve como único resultado levar Darwin à sua teoria mais famosa, entre outras coisas confirmou as idéias de Charles Lyell quanto à geologia da Terra, coletou uma diversidade imensa de espécies e encontrou indícios da mega-fauna do novo mundo.

Da viagem do Beagle até a publicação de A Origem das Espécies, foram mais de 20 anos. Darwin era atormentado por suas próprias idéias. Temia pela represália que sofreria da sociedade ao contestar a idéia estabelecida da criação divina. Se preocupava em ofender a crença de seus professores e amigos, bem como de sua esposa Emma. O fato é que Darwin acabou acuado por Wallace, um naturalista em viagem similar à de Darwin que se correspondia com ele. Wallace apresentou a Darwin suas idéias sobre como as espécies se formam, elas eram muito parecidas com as de Charles que acabou decidindo tornar pública sua teoria.

O Origem das Espécies gerou a polêmica tão temida por Darwin, mas mudou o mundo de uma maneira definitiva. “É como confessar um assassinato” disse Darwin certa vez, prevendo a amplitude das transformações que sua teoria causaria.

O Darwinismo.

A teoria evolutiva de Darwin parte do mesmo pressuposto que a de Lamarck: A biodiversidade do planeta começou de uma maneira mais simples e com o tempo foi se tornando mais variada e complexa. No entanto, o darwinismo difere do lamarckismo em dois pontos essenciais.

Para Lamarck, a evolução se dava através de uma única força, a resposta evolutiva que os organismos dão ao interagirem com o meio. Deste modo a evolução de cada ser vivo é guiada de forma a melhor adaptar o organismo ao meio em que vive. Darwin por outro lado, muito graças à influência que as idéias de dinâmica de populações de Thomas Malthus, considerou que existiam duas forças em ação.

A primeira era totalmente aleatória e responsável por modificações nos organismos. Na época de Charles a genética ainda estava nascendo e ele nunca teve a oportunidade de compreender os mecanismos por trás deste processo. No entanto chegou bem próximo disso quando alegou no “Origens” que “algo” influenciava o “aparelho reprodutor” dos animais, provocando as modificações. Hoje sabemos que o “algo” é na verdade o DNA que pode sofrer mutações (e com freqüência sofre) quando da formação das células germinativas, ou seja, os espermatozóides e óvulos.

A segunda força em ação é a seleção natural (ou artificial em alguns casos específicos). A seleção natural é a condição imposta pelo meio ambiente para que os organismos sobrevivam. O que ocorre é que as modificações aleatórias que cada indivíduo sofre produzem mudanças que, eventualmente, podem melhorar ou piorar as chances de sobrevivência em determinados meios. Quando essas chances são melhoradas, o organismo sobrevive por mais tempo e provavelmente se reproduz com maior freqüência, gerando um maior número de descendentes que recebem o legado evolutivo de seu antepassado.

Ambos os processos em ação somado ao isolamento de grupos ou indivíduos de uma espécie acabam por gerar o processo de especiação, que será tratado com mais atenção em outra oportunidade, resultando no surgimento de novas espécies.

Embora a idéia seja simples, ela implica em uma conclusão evidente e muito polêmica. Se o processo evolutivo é aleatório, então a evolução não tem um “objetivo final”. As espécies não estão caminhando rumo ao topo de uma escada evolutiva, e portanto, não se pode definir níveis evolutivos. Para o darwinismo o conceito de “mais evoluído” não tem sentido de ser, podemos apenas dizer que determinados organismos são melhor adaptados a viver em determinados ambientes. Esta conclusão simples nivela o homem com o resto dos organismos vivos, nos transformando em apenas mais uma espécie animal entre tantas outras.

Não é difícil portanto entender o motivo de as idéias de Darwin serem questionadas até hoje. O darwinismo atesta contra o antropocentrismo, negando ao homem seu suposto papel especial no universo. Por outro lado nos dá um presente muito maior, uma relação direta com cada organismo deste planeta.

Parafraseando Darwin, há grandeza nessa visão da vida.