Evolução: Especiação.

fevereiro, 2008

Especiação é o termo utilizado para definir o processo que resulta no surgimento de uma nova espécie a partir de uma espécie já estabelecida. Antes no entanto é preciso definir espécie, para tal usaremos o conceito de um famoso biólogo evolucionista, Theodosius Dobzhansky. Os indivíduos de determinados grupos devem respeitar algumas observações para poderem ser considerados como membros de uma mesma espécie. Em ambiente natural, devem possuir períodos reprodutivos compatíveis, gerarem descendentes férteis e não estarem geograficamente separados. Por exemplo, ursos polares e ursos pardos quando cruzados geram descendentes férteis, no entanto estão geograficamente impedidos de se reproduzirem de modo a se caracterizarem espécies diferentes. Cavalos e burros podem se reproduzir, mas dão origem a descendentes estéreis, ou seja, também são caracterizados como espécies distintas.

Em algumas ocasiões, grupos de indivíduos de determinada espécie podem ficar isolados de outros grupos da mesma espécie. O isolamento geralmente é geográfico, o grupo pode migrar para algum lugar de difícil acesso (como ilhas ou cavernas), ou passar por um acidente geográfico (o surgimento de uma cadeia de montanhas ou a separação de continentes, como no caso da antiga Pangéia).

O caso é que uma vez que grupos de uma mesma espécie são separados e impedidos de se relacionarem, sua história evolutiva começa a divergir. Ambientes diferentes exercem forças de seleção diferentes. Neste ponto temos divergências entre teorias, a principal corrente neodarwinista acredita que as mutações vão ocorrendo gradualmente e se acumulando, até que o grupo isolado tenha divergido de modo a não mais poder ser considerado membro da espécie que o originou. Alguns acreditam que a evolução pode acontecer em períodos pontuados, intercalados por grandes períodos de estabilidade.

É importante observar que essa divergência é totalmente dependente do isolamento e leva muito tempo para ocorrer. O processo de especiação é lento e dificilmente gera resultados iguais. Ou seja, grupos de uma mesma espécie isolados geograficamente provavelmente vão divergir para espécies completamente diferentes, já que as condições ambientais dificilmente são iguais e, portanto, selecionam de maneiras diferentes.

Alguns grupos oponentes da teoria evolucionista alegam que embora se possa aceitar as chamadas “microevoluções” (as pequenas variações que não resultam em novas espécies), as macroevoluções (acúmulo de microevoluções que resultam em uma nova espécies) são complexas demais para ocorrerem de maneira natural e ao acaso. Muito embora eles não dêem uma explicação razoável para o processo de especiação, existe um fenômeno passível de observação que indica que a crítica acima não se sustenta. Trata-se das conhecidas “espécies em anel”.

Espécies em anel.

É um fenômeno particularmente interessante. Trata-se de grupos de uma mesma espécie que, por isolamento geográfico parcial em decorrência de migração, se diferenciam ao longo das regiões que habitam.Foi observado que os indivíduos geograficamente mais próximos eventualmente podia se reproduzir gerando descendentes férteis. No entanto, os indivíduos mais distantes do grupo original já tinham se divergido a ponto de não mais poderem ser considerados de mesma espécie. A figura abaixo representa melhor esse movimento.

Imaginemos que a ave acima se distribui em uma linha que parte do sul do país e sobe em direção ao norte, sendo o indivíduo mais à esquerda localizado no sul e o mais à direita no norte. Repare que o cruzamento no sentido das setas azuis é possível. Os descendentes desses cruzamentos podem inclusive se reproduzirem com o grupo imediatamente mais abaixo, ou seja, os filhotes do segundo com o terceiro indivíduo poderiam se reproduzir com o o primeiro indivíduo e ainda gerarem descendentes férteis.

De modo que podemos estabelecer uma escala que diz que, o indivíduo D pode se reproduzir com C e seus filhotes ainda poderão se reproduzir com os indivíduos B. Da mesma forma, o indivíduo B pode se reproduzir com o indivíduo C (ou os descendentes resultantes de D com C) e ainda gerar descendentes capazes de se reproduzirem com o indivíduo A. O processo funciona em todos os sentidos da escala, de modo que os indivíduos A e B podem se reproduzir e seus descendentes ainda serão compatíveis com C e assim por diante.

No entanto, e essa é a parte mais curiosa, os indivíduos A e D não podem se reproduzir ou geram descendentes inférteis. isso implica que ambos sofreram especiação de modo que a única ligação entre eles seja formada pelos indivíduos B e C que são intermediários. Se por algum evento qualquer os indivíduos B e C forem extintos, A e D perderam a ligação entre si e serão considerados espécies individuais.

Esse processo simples mostra que a especiação por acumulo gradual de mutações pode com efeito gerar novas espécies. Eu entendo que o processo todo de especiação seja um pouco complexo de assimilar, embora de fato ele seja simples. Por isso, não deixem de me questionar, perguntar ou tirar dúvidas pelos comentários.