Evolução: Seleção natural, artificial e sexual.

fevereiro, 2008

Não há dúvidas de que a seleção natural é mesmo uma maneira muito elegante de explicar a biodiversidade do planeta. No entanto, a despeito disso, Darwin não a considerava como única forma de seleção. No próprio Origem das Espécies, Charles dedica um capítulo para comentar sobre a ação da seleção artificial. Em “The Descent of Man” ele acaba estabelecendo uma novar força selecionadora, a seleção sexual. Ironicamente, no que diz respeito à seleção sexual, ela não foi muito bem aceita por alguns dos defensores de Darwin, entre eles, Alfred R. Wallace.

A Seleção Natural.

Para melhor compreendermos o processo de seleção natural, é preciso antes compreender a maneira como os animais variam em suas formas, mesmo em indivíduos do mesmo grupo. É comum observar que existem diferenças sutis entre membros de uma mesma espécie ou comunidade. Se observarmos com atenção um bando de chimpanzés, vamos logo notar que alguns são mais altos, outros mais fortes, as cores dos pelos podem  ter uma determinada variação e por aí vai. Em verdade, observamos as mesmas características entre os humanos. Embora sejamos todos de uma mesma espécie, carregamos diferenças morfológicas evidentes em comparação com os membros de nossas sociedades.

Embora o processo que resulta nessas diferenças não precise ser tratado detalhadamente neste momento, é importante considerar que ele é originário das etapas de divisão das células germinativas, ou seja, ocorre antes da formação do embrião que poderá vir a se tornar um novo indivíduo. Também vale observar que, a despeito de considerarmos as pequenas modificações como aleatórias, isso não é bem verdade. O fator de aleatoriedade existe, mas esta limitado a agir dentro de alguns parâmetros. Por exemplo, o filho de pais negros não poderá nunca nascer branco, ou de olhos puxados. No entanto, pode ter o tom de pele levemente mais claro ou escuro que de seus pais.

Mas deixemos os humanos de lado em benefício de um exemplo mais didático. Podemos imaginar uma espécie qualquer de ave vivendo em uma ilha com pouca ou nenhuma interferência do homem. Vamos supor que esta ilha possui uma particularidade, uma espécie de arbusto que cresce entre os rochedos e que produz pequenos frutos que servem de alimento ao grupo de aves que vive ali. Em alguns pontos da ilha existe um tipo de árvore que também produz frutos, mas eles são maiores e com uma casca um pouco resistente.

As aves que se alimentam do fruto produzido pelo arbusto provavelmente possuem bicos alongados, capazes de entrar pelos vãos dos rochedos permitindo à ave a alcançar seu alimento. Em uma população é possível imaginar que algumas aves tenham bicos mais alongados que outras. Não é difícil de imaginar que os indivíduos que nasceram com um bico levemente menor podem passar por situações difíceis na disputa pelo alimento, já que terão acesso à menos arbustos que as aves com os bicos mais alongados. Deste modo, estes poucos indivíduos menos afortunados provavelmente viverão menos, ou por deficiência de nutrição não serão capazes de se reproduzir. Deste modo, terão maior dificuldade em deixarem descendentes.

Mas a natureza é imprevisível e, por um evento qualquer, os arbustos sofreram com as intempéries ou pragas e entraram em extinção. As aves que se alimentavam quase que exclusivamente deles ficaram sem muitas opções a não ser passar a sobreviver consumindo os frutos grandes e de casca resistente das árvores da ilha. No entanto existe um problema. Os bicos alongados não são tão eficientes para a nova alimentação. Capturam com dificuldade os frutos e sua estrutura não ajuda o acesso à polpa da fruta. Eventualmente, aqueles indivíduos de bico menor realizam tal função com maior capacidade, se beneficiando de sua característica singular em relação ao grupo e tendo maior sucesso na disputa pelo alimento. Essa mudança de cenário provavelmente vai acarretar na mudança completa da população, aonde os indivíduos de bico menor passarão a deixar mais descendentes do que os de bico mais alongado.

Embora o exemplo seja totalmente hipotético, existem diversos casos reais semelhantes. É por exemplo o que Darwin observou ao visitar as Ilhas Galápagos. Todas elas eram habitadas por tentilhões que, no entanto, eram substancialmente diferentes entre sim. Era possível até mesmo identificar de que ilha cada indivíduo vinha, apenas observando suas características morfológicas. É muito provável que uma única espécie de tentilhão tenha colonizado a ilha, mas as diferentes dificuldades exercidas pelas diferentes ilhas acabou selecionando características diferentes em cada grupo de indivíduos.

A Seleção Artificial.

Esta é bem simples de compreender. O funcionamento é praticamente o mesmo da seleção natural, mas a força selecionadora em geral vem da ação do homem. Podemos por exemplo citar criadores de cães. Normalmente o criador escolhe características particulares de seus animais, talvez indivíduos mais peludos ou menores, e favorece esta característica permitindo que estes indivíduos procriem.

Embora neste caso as características continuem a se desenvolver de maneira mais ou menos aleatória, a força selecionadora do homem direciona o desenvolvimento de determinadas características. De modo que a seleção artificial, além de ter um objetivo (neste caso, comercial) age de maneira muito mais rápida que a seleção natural.

A Seleção Sexual.

A seleção sexual diz respeito à maneira que algumas espécies encontram para maximizar suas chances de reprodução. Neste caso, embora a seleção natural atue sobre a luta pela sobrevivência de cada indivíduo, os membros da espécie acabam por desenvolverem táticas para garantir um maior sucesso reprodutivo.

Podemos citar como exemplo o pavão. Trata-se de uma espécie de ave em que os machos carregam uma cauda vistosa e colorida. A disputa pela fêmea é feita pela exibição da cauda, que se abre feito um leque para impressionar a parceira pretendida. Em geral, o animal que tiver a cauda mais estravagante ganha  a parceira e se reproduz com sucesso. Deste modo, indivíduos com caudas ainda que levemente menos coloridas que de seus concorrentes, acabam tendo maior dificuldade em gerar descendentes.

A seleção sexual em geral ocorre em paralelo à seleção natural. Praticamente todas as espécies animais possuem estratégias reprodutivas de competição. Essas estratégias de reprodução não diferem muito das estratégias de sobrevivência e luta por recursos naturais. Agem de forma similar, garantindo ao indivíduo maior ou menor sucesso competitivo na dinâmica de sua população.

Vale observar que, INDEPENDENTE do método de seleção, as características surgem de maneira mais ou menos aleatórias. A seleção atua no sentido de beneficiar determinadas características que foram desenvolvidas, ainda assim,excetuando-se talvez a seleção artificial, as características são selecionadas sem um propósito ou fim. DE MANEIRA ALGUMA qualquer característica adquirida pelo indivíduo surge em resposta ao meio ambiente, nem mesmo na seleção artificial.