Evolution DMD: Uma análise biológica.

maio, 2008

Há alguns dias recebi um email do Ogro que basicamente recomendava uma lida em um texto do Scott Adams. À primeira vista pareceu-me um texto simples, sobre uma equivocada hipótese evolutiva. Mas uma posterior leitura mais atenta me revelou algumas características muito interessantes, especialmente no que diz respeito ao funcionamento da ciência moderna. Desta forma, resolvi produzir duas análises deste texto (que segue traduzido abaixo). Esta primeira parte realiza uma análise biológica, desarticulando os argumentos de Adams.

A segunda análise é sobre a filosofia da ciência por trás de um pressuposto quase imperceptível na argumentação de Adams. Vale ressaltar que se tratando de Scott Adams, as chances de o texto dele ser algo relmente sério são mínimas. Em todo caso, o texto é ótimo para abordar algumas características da evolução, falar um mínimo de metabolismo celular e ainda ter um bom tema de discussão sobre filosofia da ciência.  Mas chega de introduções, vamos ao texto.

Para esta crônica, vamos considerar que tudo o que os especialistas dizem sobre evolução seja verdade. Os organismos com maior sucesso reprodutivo passam suas características para a próxima geração, e assim por diante. Mas eu tenho uma outra hipótese que talvez possa ser testada. E se existem outras influências que também contribuem?

Me pergunto se as aspirações dos organismos podem, de alguma forma, causar algum impacto sobre os genes que serão passados para a próxima geração. Nós sabemos que pensamentos estão associados a sentimentos, e sabemos que desejos estão associados à química do organismo. Não seria impossível que desejar algo durante a vida aumentasse a probabilidade de seus descendentes atingirem esse objetivo.

Recentemente eu li que certas condições ambientais podem aumentar as chances da mulher em dar a luz a meninos. Sabemos então que condições externas podem influenciar a química do corpo e, por sua vez, influenciar a genética da criança.

Então me pergunto sobre o pescoço comprido da girafa, só para escolher um exemplo fácil. A explicação clássica é que girafas com pescoços compridos podem alcançar folhas mais altas nas árvores, o que seria uma vantagem em tempos de escassez de alimento. O que me parece bastante razoável. Mas imagino se as girafas que forçavam seu pescoço e desejavam que eles fossem mais longos experimentavam algum tipo de estresse, além de algum tipo de determinação “girafal”, que liberassem uma química capaz de influenciar a probabilidade de produzir filhos com pescoço mais comprido. Em outras palavras, poderiam os organismos guiar a própria evolução através de seus desejos?

Parece bastante improvável que um sistema tão complexo e específico pudesse existir nos organismos. No entanto, tudo em animais com cérebros é ridiculamente complexo, específico e improvável. Parece-me perfeitamente plausível que criaturas com cérebro possam ter desenvolvido uma habilidade ainda desconhecida de tradução de suas aspirações em características físicas em seus filhos.

É possível testar essa hipótese em fêmeas de ratos. Um grupo seria o controle, o outro seria mantido a frustantes um centímetro e meio de um delicioso pedaço de queijo. Ambos os grupos são alimentados o suficiente para garantir condições iguais de sobrevivência, assim o mecanismo evolutivo normal seria “desligado”. Será que os ratos com aspiração de ter um focinho mais longo para poderem alcançar o queijo teriam, em média, uma prole com focinhos mais longos?

Alguém provavelmente já deve ter testado isso em moscas da fruta ou algo do gênero.

Seira interessante não? Se pudéssemos, de alguma forma, guiar nossa evolução por nossos desejos e aspirações. Certamente seríamos uma espécie de unidade morfológica quase que inexistentes. Alguns de nós desenvolveriam asas para satisfazer o desejo de voar (eu estaria entre esses), outros desenvolveriam a capacidade de respirar em baixo da água indefinidamente e assim por diante. Infelizmente (ou felizmente), a evolução parece ignorar nossa vontade, agindo por conta própria.

Existem motivos bastante evidentes pra isso, o principal deles é  que condições externas não podem ser “interpretadas” por nosso material genético, de modo que se algumas destas condições provoca mudanças em nosso DNA, essa mudança é em geral prejudicial. Na verdade, antes de seguirmos precisamos lembrar um pouco de nosso próprio processo reprodutivo.

É amplamente conhecido que os seres humanos possuem 46 cromossomos. Destes, herdamos 23 cromossomos de cada um de nossos pais. O processo de herança destes cromossomos está na base da fecundação por células sexuais. Os espermatozóides carregam 23 cromossomos e o óvulo materno contém os outros 23. Quando espermatozóide e óvulo se unem, formando o embrião, somam seus números cromossômicos totalizando os 46. Esse número varia de animal para animal, mas o processo é mais ou menos o mesmo.

O fato é que uma vez que mutações no material genético das células sexuais em geral levam a resultados desastrosos, mudanças no material genético dos embriões ou de seres já completamente formados resulta, normalmente, em câncer. Ou seja, se nossos desejos fossem capazes de produzir mudanças em nosso material genético, provavelmente isso acarretaria em nossa destruição. O que pode ser interpretado como uma espécie de “lição de vida natural”, temos que nos contentar com o que temos (ou nos submetermos a uma cirurgia estética).

É importante observar que mutações no material genético das células sexuais EM GERAL, levam a resultados desastrosos. No entanto, pequenas mutações ocorrem o tempo todo durante o processo de produção das células sexuais. Para a maioria dos neodarwinistas, é o acumulo destas pequenas mutações que dá o combustível necessário para a evolução acontecer. Essas mutações normalmente resultam em mudanças sutis que eventualmente levam a alguma vantagem condicionada pelo meio ambiente. Um exemplo do que poderia ser uma pequena mutação é o filho alto de um casal de estatura média.

Apesar disso, Adams tem razão ao afirmar que condições externar podem modificar a química do organismo. A questão é que essa mudança se dá por processos de regulação previamente existentes, que não estão relacionados com a mudança do material genético em si. Em termos de metabolismo celular, embora o processo todo seja complexo para ser explicado aqui, a presença de algumas substâncias (como hormônios) pode causar determinadas modificações de produção de proteínas e etc. Isso não significa no entanto que os genes estejam sendo modificados.

Fica claro, portanto, que, por mais que uma aspiração ou desejo produza uma resposta química no organismo, essa resposta química não pode afetar o material genético do pai ou da mãe, e, por conseqüência, não pode ser passado adiante para os filhos.

A evolução não é teleológica, ou seja, não tem um fim determinado e nem pode ser guiada. Uma pena para aqueles que vão ter que continuar usando aviões para voar e submarinos para conhecer o fundo do mar.

PS: Agradeço ao amigo Ogro que além de indicar o texto e estabelecer uma ótima pauta, ainda fez a revisão da tradução. Agradeço também a Laura, que me ajudou na caça aos erros conceituais (e do meu pobre portugues).