O cinturão de proteção de Imre Lakatos

maio, 2008

O processo de formulação, aceitação e testes de uma teoria em geral parece bem estabelecido para o cientista. Mas para os filósofos da ciência, esta é uma questão tão aberta quanto qualquer outro assunto filosófico. Embora, no que diz respeito a questão da teorização, Popper e Kuhn sejam sempre lembrados, tantos outros foram proeminentes e produziram material interessante a este respeito. É o caso de Imre Lakatos.

Lakatos era graduado em física, matemática e filosofia. Depois doutorou-se em filosofia na Inglaterra, aonde permaneceu até o fim da vida. Lakatos, como tantos outros, nunca se deu muito bem com o trabalho de Thomas Kuhn. Publicou mais de um livro para tratar sobre as idéias de Kuhn e forneceu uma série de argumentos contra o sistema de paradigmas. Em seu livro “Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica”, Lakatos desenvolve seu argumento de cinturões de proteção, que iremos ver com um pouco mais de detalhe.

Lakatos formulou que os sistemas teoréticos são formados por um núcleo forte, circundado por um cinturão de teorias de suporte. Quando submetidos aos testes, o núcleo forte da teoria possui mais ou menos o papel de “pressuposto básico”, de modo que é o cinturão, e não a teoria central em si, que passa pelo processo de averiguação. Desta forma, uma anomalia em qualquer teste afeta unicamente o cinturão de proteção e não a teoria central.

A teoria de suporte que acaba sendo refutada pode ser substituída por outro, mas para Lakatos o caso mais comum é o de reforçar a cinta de proteção do núcleo com teorias ad hoc. Ou seja, teorias auxiliares que não possuem propósito algum a não ser o de sustentar o núcleo forte. Um exemplo histórico é a teoria do éter celestial. A história do éter se confunde com o estudo da natureza da luz. No passado se acreditava que a luz era uma onda e, portanto, precisava de um meio de propagação. Era simples encontrar um meio de propagação na Terra, mas o fato é que a luz estava viajando pelo espaço que,acreditava-se, era vazio. Esse problema poderia ter posto em dúvida as idéias sobre a natureza da luz, mas ao invés disso, uma explicação ad hoc foi criada. O espaço deveria ser preenchido por uma substância que não tinha massa e não podia ser detectada, o éter, e era ele quem servia de meio de propagação para a luz.

No exemplo acima podemos observar que a natureza ondulatória da luz era o núcleo forte, quando colocado em dúvida, criou-se uma substância imaginária que não possuía peso, cor, cheiro ou qualquer característica capaz de ser detectada por qualquer experimentação possível. Desta forma, o éter, uma teoria auxiliar, protegia seu núcleo forte, a natureza ondulatória da luz. Desta forma seria possível imaginar que, a priori, nenhuma teoria poderia ser refutada. Lakatos responde a esta conclusão concordando com o argumento, mas observa que para a ciência o acúmulo de teorias ad hoc é desconfortável. Com efeito, é este acúmulo que leva a comunidade científica abandonar uma determinada teoria em detrimento de outra. A nova teoria nem sequer precisa responder a todas as questões que a anterior respondia, é preciso apenas que ela responda um número satisfatório de problemas (dentre esses, alguns que a anterior não conseguia responder) e não ter um número grande de fundamentações ad hoc.

Lakatos pode não ter sido tão “famoso” quanto Kuhn e Popper. Mas certamente teve um papel importante no desenvolvimento da filosofia histórica da ciência.