O extremo criacionista.

junho, 2008

No Brasil as discussões entre evolucionismo e criacionismo não chegam a ser muito relevantes. Temos um movimento criacionista isolado e em geral decentralizado. Na verdade o Brasil conta com a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB). A primeira vez que ouvi falar da SCB foi através de um amigo que participou de uma série de palestras que promovem o criacionismo. Depois disso só tive notícias da SCB em uma pequena discussão que tive o prazer de acompanhar. Na ocasião um aluno do curso de extensão em Divulgação Científica da USP apresentava a idéia de um site que trataria das controvérsias entre o design inteligente e evolução. Sua apresentação foi interrompida por uma aluna do mesmo curso, que começou a advogar em favor do criacionismo e acabou comentando que a SCB possui linhas de pesquisas sérias a respeito do criacionismo.

Confesso que achei graça. Não conseguia conceber o que seria uma linha de pesquisa séria a respeito do criacionismo. Em todo caso resolvi que talvez estivesse sendo preconceituoso demais. Pesquisei um pouco sobre a SCB e, por fim, acabei enviando-lhes um email perguntando sobre as tais linhas de pesquisa. Segue abaixo a resposta que eles me deram:

“Informamos-lhe que nossa linha de pesquisa propriamente dita relaciona-se com o tema “origem comum das línguas e das religiões”. A grande atividade que desenvolvemos, entretanto, é a de divulgação de aspectos relacionados com a controvérsia Criação / Evolução. Nesse sentido temos como uma das mais destacadas contribuições nossas a tradução e a publicação do livro “Evolução – Um Livro Texto Crítico”.Temos também realizado encontros criacionistas diversos, com a participação de palestrantes convidados (nem todos associados formalmente àSCB).Esperando ter-lhe prestado as informações de que necessitava, permanecemos à disposição, enviando-lhe nosso cordial abraço, Ruy e Rui Vieira.”

Achei bacana a atitude da SCB. Eles me responderam com velocidade e ainda me forneceram o contato para membros associados e que tratam especificamente sobre biologia. Mas, como podemos observar, eles não desenvolvem qualquer linha de pesquisa criacionista. O trabalho da SCB é basicamente de divulgação do criacionismo. Apesar de a maioria das pessoas acharem que a divulgação do criacionismo é um desserviço ao entendimento correto da ciência, e de certa forma eu posso concordar com isso, existem casos muito piores. Casos de extremismo militante, ou simplesmente de ignorância exacerbada.

É o que ocorreu recentemente nos Estados Unidos, mais precisamente em Mount Vernon no estado da Virgínia. Durante onze anos o professor John Freshwater ensinava criacionismo e design inteligente nas aulas que deveriam ser de evolução. A comunidade e outros professores da mesma escola reclamaram por todos estes anos à direção da escola sobre a insistência de John em ignorar o currículo de evolução e, no lugar, ensinar suas crenças. Uma atitude só foi tomada quando o professor em questão provocou queimaduras em forma de cruz no braço de dois estudantes que reclamaram de suas aulas. Segue a foto abaixo:

Foto retirada do jornal The Columbus Dispatch

Foto retirada do jornal The Columbus Dispatch. Clique para ampliar.

O professor Freshwater se defendeu dizendo que  não queimou uma cruz no braços dos estudantes, queimou um “X”. O caso todo é de um absurdo bizarro. Como uma escola pública ignora 11 anos de reclamações? Qual o próximo passo destes extremistas? Queimar um cientista em praça pública? Ainda bem que no Brasil essa briga (por enquanto) não saí da esfera das discussões ingênuas. No entanto, com os recentes casos de vandalismo religioso, só me resta temer pelo futuro dos braços dos estudantes de amanhã.