O Planeta dos Macacos

março, 2008

O filme “O Planeta dos Macacos” de 1968, é um clássico do cinema que levanta algumas questão absolutamente relevantes sobre ciência, religião e o desenvolvimento da sociedade. O enredo simples, astronautas que chegam a um planeta governado por macacos inteligentes, é enriquecido com todo tipo de crítica e análise da sociedade humana da época. O curioso é o filme continua atual, especialmente na abordagem que faz de ciência versus religião, demonstrando que por mais que a sociedade humana tenha avançado tecnológicamente, as discussões sociais seguem inalteradas.

A religião científica do Planeta dos Macacos.

No filme, religião e ciência são tomadas por atividades entrelaçadas. Há um motivo evidente, a religião preocupa-se com a manutenção da sociedade dos macacos, guiando a ciência de maneira a permitir o avanço tecnológico sem a perda dos valores sociais. Um movimento religioso que controla a ciência com mãos de ferro a ciência, é certamente a vontade de muitas religiões existentes hoje.

No entanto, a religião é desenvolvida como uma forma de controle totalitário. Sob os olhares da fé, humanos passam por testes e experimentos científicos cruéis. São tratados como escravos que não possuem uma alma a ser preservada. Curiosamente, pesquisas que tentam desvendar a história perdida da origem dos macacos, são mal vistas e consideradas heréticas. A ciência, antes de qualquer coisa, deve respeitar as escrituras.

A evolução no Planeta dos Macacos.

Este é um dos pontos fortes do filme. Um macaco paleontólogo desenvolve uma teoria da evolução , atestando que todos eles são descendentes dos humanos primitivos. A inversão de papéis no roteiro do filme, não inverte o impacto da teoria na sociedade símia em relação a nossa. De maneira idêntica, a religião não aceita a teoria e condena o o macaco por heresia. No entanto, diferente do que as religiões humanas pregam, a dos macacos sabia exatamente sua origem e evolução.

Os macacos não evoluíram do homem. São fruto de uma sociedade humana falida, cujos poucos exemplares restantes “involuíram” em formas primitivas, permitindo então o avanço evolutivo dos macacos. Uma vez que os macacos atingiram sua maturidade intelectual, perceberam os motivos do fim da sociedade humana, desenvolvendo então um agente de controle com o objetivo de frear a ciência e evitar um fim trágico parecido.

Uma análise do Planeta dos Macacos.

É evidente que o filme toma a sociedade de 1968 e extrapola seus receios. O medo de um planeta Terra destruído e a redução drástica das sociedades humanas, era fruto da uma recém terminada guerra fria. As duas grandes guerras ainda estavam vivas no consciente coletivo, e os Estados Unidos se lançavam em guerra com o Vietnã. No mesmo período, a ciência se desenvolveu rapidamente, impulsionada pelos investimentos militares.

Era um mundo caótico e perigoso, refletido de maneira bastante inteligente no filme. A decisão de tornar os macacos tecnológicamente inferiores à sociedade humana que os precedeu, joga no colo da ciência a responsabilidade pelo uso incorreto do conhecimento. Por outro lado, atrelar a ciência a uma religião moralmente discutível e que reflete a organização social da idade média, reforça que nem mesmo a religião pode salvar a humanidade.

É um filme pessimista. Que atesta que o mal da humanidade são os próprios humanos. Hoje em dia é difícil acreditar em uma guerra catastrófica que culminará no fim quase que completo de nossa espécie, no entanto, podemos imaginar uma série de eventos naturais igualmente catastróficos. Todos possivelmente produzidos pela maneira leviana como tratamos os recursos naturais deste planeta.

Talvez não estejamos tão longe assim do Planeta dos Macacos